Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




card_Adalberto_Campos_Fernandes_310715.jpg

 

A utilização da morte como argumento de acção política é de uma indigência inenarrável. Contudo, e sem surpresa (pelo menos, para mim), Bloco de Esquerda, Partido Comunista Português e Os Verdes lançaram-se ontem num festim de necrofagia política raras vezes visto no Parlamento. Sem sinal de assombro ou de pudor, nem tão pouco de respeito pela família em luto, a morte do jovem David Duarte no hospital de São José foi usada pela esquerda para ataques e apartes no debate parlamentar – e para lamentar.

Felizmente, a inanidade da esquerda nacional foi mitigada no mesmo dia por uma excelente entrevista do Ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, à TVI. O início da conversa foi o evidente para qualquer pessoa de elementar bom senso: A morte “não pode ter uma leitura política”. Ponto. Isto não impediu o Ministro de fazer as críticas e os reparos que entendeu serem necessários. Disse, por exemplo, que o “SNS de 2015 não é melhor do que o de 2011”. Afirmou ainda que lhe parece “totalmente inaceitável que se considere que tudo se deve aos cortes, como também [lhe] parece inaceitável que se diga que os cortes não tiveram qualquer tipo de efeito”. Mais do que qualquer outra coisa, as declarações do Ministro da Saúde tiveram o mérito de repor a decência no debate e a capacidade de afastar o Governo da delinquência em auto-gestão vigente nos partidos que o apoiam.

Quanto às causas do sucedido, o Ministro foi prudente dizendo aguardar a conclusão do inquérito. Mas deu uma notícia. Discretamente, Adalberto Campos Fernandes declarou estar convencido que se tivesse havido um apelo a uma equipa de neurocirurgia de outro hospital, público ou privado, seguramente a resposta seria positiva – algo já sugerido pelo médico Luís Carvalho Rodrigues num artigo de opinião publicado no Observador. O hospital terá que se explicar a este respeito. Resta agora esperar que as inquirições em curso não bocejem em resultados inconclusivos ou habilmente salomónicos. O Ministro da Saúde promete que nunca se justificará com as condições que o antecederam. Cá estaremos para ver.

Autoria e outros dados (tags, etc)


20 comentários

Sem imagem de perfil

De jo a 07.01.2016 às 18:38

Se nem a morte de uma pessoa num hospital sem receber tratamento nos indigna, então nada nos indigna.

Isto de os partidos políticos e dos deputados tomarem posições políticas vem das funções que têm. Seria estranho que tomassem outro tipo de posições.

Já reparou que se não falarmos do que é importante por respeito, nem do que não é importante por desnecessário, acabamos caladinhos no nosso canto.
Imagem de perfil

De Diogo Noivo a 07.01.2016 às 19:13

jo,
A indignação é livre e há mesmo casos que a exigem. Se leu o post percebeu que esse não é o meu ponto.
O sucedido deve suscitar indignação e dar origem a inquéritos. Têm que ser apuradas responsabilidades. Mas há uma diferença enorme entre apurar responsabilidades e usar a morte de alguém como argumento na guerra de trincheira político-partidária. O uso da morte para estes propósitos é, no mínimo, abjecto.
Sem imagem de perfil

De J. L. a 07.01.2016 às 19:17

Desculpe lá mas abjecta é a sua posição. Onde quer chegar vê-se logo pelo título.
Na realidade temos um governo (goste-se dele ou não) e não uma geringonça. Esta palavra é que foi usada "como argumento na guerra de trincheira político-partidária." Pessoalmente nada tenho contra o uso de tal vocabulário. Por favor, não se faça de ingénuo pois percebe-se bem onde quer chegar ao aproveitar este acontecimento.
Sem imagem de perfil

De Costa a 07.01.2016 às 19:40

Num brevíssimo texto abaixo, já datado de hoje e a pretexto do alegado apoio parlamentar do actual "governo", resulta claro, creio, por que se lhe pode chamar "geringonça". Enfim, solidez para ultrapassar por si, com coerência e galhardia, verdadeiras provas de fogo é coisa que não parece poder ser-lhe apontada sem consideráveis reservas. A agenda governativa não será confessada e verdadeiramente a sua (dele, governo; ou do partido sobre cujos votos primordialmente se funda) e logo na primeira prova de fogo se não viesse o apoio - ainda que por abstenção - da repugnante "direita", não o teria decerto obtido junto dos seus apoiantes.

Para si, claro, será sempre um governo absolutamente legítimo e meritório. Para outros, como eu, será de facto uma geringonça, fruto da maior fraude eleitoral legal - ou designação equivalente - que a nossa história recente registou: um aleijão parido a todo o custo, como forma de satisfazer o desejo de poder a todo o custo (e a salvação da pele política) de um homem e a impaciência em voltar a meter a mão na gamela pública, com verdadeiro direito de pernada, de uma agremiação que se acha com a tutela do regime saído de 1974 e cujo passado, nesse regime, está longe de poder ser chamado uma página nobre na nossa História. Isto posto, eu reconheço-lhe a liberdade de propagar a sua visão das coisas.

Se você, tendo o poder para tanto, me permitiria afirmar a minha é coisa de que tenho grossa dúvida.

Costa
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 07.01.2016 às 20:00

" fruto da maior fraude eleitoral legal" Com uma fraude desse tamanho ninguém reagiu? Nem Presidente da Repúbica, nem a Procuradroa Geral da República, nem o Tribunal Constitucional nem as instância europeias? Ficou tudo calado inclusivamente a nível internacional? Ou "fraude" é flor de retórica? E "fraude legal" é um novo conceito jurídico?
"como forma de satisfazer o desejo de poder a todo o custo (e a salvação da pele política) de um homem e a impaciência em voltar a meter a mão na gamela pública, com verdadeiro direito de pernada, de uma agremiação que se acha com a tutela do regime " Isto é para a gente se rir?
Interpretações subjectivas, isto é, em que o analista diz conhecer o pensamento e intenções do outro não levam a nada.
Sem imagem de perfil

De Costa a 07.01.2016 às 21:18

Homem (ou mulher), já tanto foi escrito sobre o caso que não vou eu fazê-lo agora. A última coisa que eu procuraria, ao escrever o que acima deixei, foi convencer do contrário fosse quem fosse que ache muito bem o que aconteceu na sequência das mais recentes eleições legislativas.

Basta notar que é possível - posto que V. suscita a questão dos conceitos jurídicos - cumprir com inatacável - ou bem defensável - rigor formal a lei, violentando profundamente a vontade a ela subjacente e os pressupostos materiais perante ela apresentados. Mas não estaremos aqui numa aula de licenciatura em Direito, creio eu, e V. terá percebido perfeitamente onde queria eu chegar.

E "flor de retórica" não é, certamente, que eu não estaria à altura de tal mérito, ainda que o buscasse.

Se não se importa (e se se importar, tanto pior), eu deixo aqui, como simples comentador, o que entendo que devo deixar, sujeito apenas à elementar boa educação e ao critério dos responsáveis do blogue que, por ser privado, são perfeitamente livres de reter o que eu escreva, se assim o entenderem e sem me ser devida explicação. E felizmente, por aqui, nunca me senti censurado.

Se V. quer apenas ler o que vai ao encontro das suas ideias e visões do mundo, há - como decerto bem sabe - abundância de blogues que lhe facultarão esse refrigério.

Costa
Sem imagem de perfil

De M. S. a 08.01.2016 às 11:53

Fraude?
Então porque não continuou a governar o governo Passos/Portas se ganhou as eleições?
Porque as ganhou em minoria, pelo que só com o apoio do (horrível) PS o poderia fazer.
Mas aí, para si, já não havia fraude, havia a defesa do interesse nacional. Havia responsabilidade do PS em vez de oportunismo e fraude.
E em 2011, em que o PSD e o CDS não concorreram coligados, portanto, não disseram que iam formar um governo, aí também não houve fraude.
Tal como quando Santana Lopes sucedeu ao fugitivo de Bruxelas sem ter ido a votos.
É a argumentação de geometria variável.
Eu não acredito na viabilidade a prazo deste governo, nem aprecio o acordo feito com gente pouco fiável, mas não aprecio apenas por razões políticas: ponto final.
Não por razões formais, que essas é um absurdo invocá-las, dada a constitucionalidade do governo.
Aconselho-o a verificar o que se passou recentemente na Bélgica, Dinamarca, Letónia e Austrália: mais 4 fraudes em 4 países do 3.º mundo, não foi?
--------------------------------------
P. S. Para mim, este acordo de governo só vale se dele resultar a progressiva perda dos 450 mil votos a que está restringido o PCP (e a concomitante extinção daquela excrescência democrática) e se esvaziar o BE da retórica radical pelo confronto com a realidade das medidas que terá de aprovar.
Quanto ao resto, à eficácia governativa, prognósticos só no fim do jogo, pois a evolução da situação depende mais do contexto, da UE, do que do governo.
Sem imagem de perfil

De M. S. a 08.01.2016 às 17:33

Sr. Anónimo:
Disse fraude?
Então porque não continuou a governar o governo Passos/Portas se ganhou as eleições?
Porque as ganhou em minoria, pelo que só com o apoio do (horrível) PS o poderia fazer.
Mas aí, para si, já não havia fraude, havia a defesa do interesse nacional. Havia responsabilidade do PS em vez de oportunismo e fraude.
E em 2011, em que o PSD e o CDS não concorreram coligados, portanto, não disseram que iam formar um governo, aí também não houve fraude.
Tal como quando Santana Lopes sucedeu ao fugitivo de Bruxelas sem ter ido a votos.
É a argumentação de geometria variável.
Eu não acredito na viabilidade a prazo deste governo, nem aprecio o acordo feito com gente pouco fiável, mas não aprecio apenas por razões políticas: ponto final.
Não por razões formais, que essas é um absurdo invocá-las, dada a constitucionalidade do governo.
Aconselho-o a verificar o que se passou recentemente na Bélgica, Dinamarca, Letónia e Austrália: mais 4 fraudes em 4 países do 3.º mundo, não foi?
--------------------------------------
P. S. Para mim, este acordo de governo só vale se dele resultar a progressiva perda dos 450 mil votos a que está restringido o PCP (e a concomitante extinção daquela excrescência democrática) e se esvaziar o BE da retórica radical pelo confronto com a realidade das medidas que terá de aprovar.
Quanto ao resto, à eficácia governativa, prognósticos só no fim do jogo, pois a evolução da situação depende mais do contexto, da UE, do que do governo.
Sem imagem de perfil

De Costa a 08.01.2016 às 19:34

O assunto foi já tão debatido neste blogue (e não só), incluída a questão da analogia com esses países que refere, que sobre ele e nesta troca de mensagens fico por aqui.

Constato que para si esta coisa vale a pena se significar rudes golpes no PC e no BE . O princípio até seria meritório - se bem sucedido, claro - se essa espécie de vacina que V. deseja e vaticina não arrastasse, aplicada como vai ser, um efeito secundário pesadíssimo cuja factura nos será apresentada num futuro não muito distante (parece, por exemplo, que a tal almofada já foi toda...). Mas enfim, espere-se ao menos que isso aconteça. E cá estaremos para pagar. Mais uma vez.

A realidade tem o péssimo habito de se revelar como é. Será possível disfarçar por algum tempo, mas nunca evitá-la. Muito que isso indigne o PS e o seu eleitorado. Bem sei que não é atitude de esquerda, esse hábito da realidade. Estou certo que V. encontrará algures pela direita a culpa toda por esse facto.

Sempre reconfortará.
Costa
Sem imagem de perfil

De do norte e do país a 08.01.2016 às 09:34

Pode-se discordar, mas o autor não está no parlamento...
Sem imagem de perfil

De J. L. a 07.01.2016 às 19:13

Concordo consigo, Jo.
É claro quer se uma pessoa morre, os decisores não podem ficar impávidos e serenos. Se morresse alguém próximo de mim e os decisores continuassem como se nada tivesse acontecido, eu até os comia.
O Senhor Diogo Noivo aproveita o acontecimento para respingar contra aqueles de que politicamente não gosta. Isto é faz aquilo de que acusa os políticos: aproveita o incidente para levar água ao seu moinho.
Imagem de perfil

De Diogo Noivo a 07.01.2016 às 19:17

J.L.,
Não fume má-fé. Há coisas mais divertidas. Entretanto, leia o post e a minha resposta anterior.
Sem imagem de perfil

De Antónia Cunha a 07.01.2016 às 19:28

" A morte “não pode ter uma leitura política”". Como?
E a organização hospitalar que permite, ou não, tratamentos atempados e adequados, para alguns ou para todos? Não é uma questão política? Então o que é? Para quê a existência de um Ministro da Saúde? Não tem nada a ver com política?
Imagem de perfil

De cristof a 07.01.2016 às 19:35

Baseando-me apenas no que brilha do exterior, e como utente da STMaria, tenho uma excelente opinião do ministro da Saude.
Mas duas coisa emperram o curso desejável do inquérito:
A filosofia da nova maioria (avaliações estão suspensas- somos todos de bom para cima), e a corporação que tem muita força- medicos vai fazer valer o seu peso. Resultado: noves fora zero.
Sem imagem de perfil

De Tiro ao Alvo a 07.01.2016 às 20:12

Tem razão, Diogo. Algumas pessoas não têm pejo em utilizar a desgraça alheia para fazerem política baixa, às vezes até a fazerem lembrar a actuação dos abutres (à volta de um cadáver).
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 07.01.2016 às 20:15

A utilização de uma morte como argumento de acção ou inacção política é perfeitamente legítimo.

O que não é legítimo é usá-la sem saber as razões como faz a Esquerda que já nos habituou da sua má fé com conivência dos jornalistas.

Até pode ser que esta morte seja resultado do SNS. Ou de um erro humano ou de organização, ou desleixo etc...



Sem imagem de perfil

De Anónimo a 07.01.2016 às 21:47

Caro anónimo das 20:15: estou inteiramente de acordo consigo, isto é, só a direita é que pode utilizar morte como argumento, só a direita usa de boa fé e só a direita não conta com a conivência dos jornalistas. Finalmente aparece um comentário inteligente.
"Até pode ser que esta morte seja resultado do SNS. Ou de um erro humano ou de organização, ou desleixo etc..." Aqui discordo, a morte é provocada pela esquerda.
Sem imagem de perfil

De do norte e do país a 08.01.2016 às 09:43

Tem razão "O que não é legítimo é usá-la sem saber as razões como faz a Esquerda que já nos habituou da sua má fé com conivência dos jornalistas."
Foi isso que fizeram certas forças no parlamento e esse é um dos pontos do artigo.
Naturalmente que a luta partidária se deve fazer, inclusive no Parlamento, mas no Parlamento isso deve acontecer com verdade. Ora, sem se saber o que aconteceu . . .
Sem imagem de perfil

De JSP a 07.01.2016 às 21:36

Este homem é a carta fora do baralho no conjunto da choldra carnavalesca que faz de governo : alia a decência ao saber, à competência e ao sentido ético do serviço público
Mas desculpar-me-á : não concordo com o termo" geringonça".
Uma geringonça,"mal enjorcada" por definição , ainda tem o seu préstimo e alguma utilidade , sempre remedeia.
Agora a "troupe" circense que faz de "governo", cuja ignorância atrevida, arrivismo "quero,posso e mando" , obediência canina e subserviente ao " airs du temp" importado - essa não tem o mínimo préstimo nem utilidade.
Seriam os coveiros de um país - se esse país ainda existisse, o que manifestamente não é o caso.
E a manutenção dessa tropa fandanga como "governo" é bem a prova disso.
Sem imagem de perfil

De Vento a 07.01.2016 às 23:16

Estou de acordo consigo, a forma como se apresenta esta situação não me parece muito razoável. E o anterior ministro da saúde continua a contar com minha simpatia.

Comentar post



O nosso livro


Apoie este livro.



Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D