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O "jornalismo de causas" não é jornalismo

por Alexandre Guerra, em 02.01.18

Uma conversa recente fez-me recordar uma polémica antiga (embora recorrente de tempos a tempos para quem se interessa por estas coisas) sobre a problemática do “jornalismo de causas”. Lembro-me que há uns bons anos a então editora de Internacional do Público, Margarida Santos Lopes, pessoa com quem tive o privilégio de trabalhar sob sua orientação naquela mesma secção do jornal e que, seguramente, é das jornalistas portuguesas mais conhecedoras da realidade do Médio Oriente, em particular do conflito israelo-palestiniano, se envolveu num debate de ideias com Pacheco Pereira a quem, goste-se ou não, concorde-se ou não com as suas opiniões, não se pode negar a sua capacidade intelectual de pensar. A discussão, que teve como pretexto mais imediato as dinâmicas noticiosas registadas em vários países associadas ao polémico “massacre de Jenin” ou à ideia distorcida de uma “França contra Le Pen (pai)”, deu-se nas páginas do Público em Abril de 2002, com Pacheco Pereira a denunciar aquilo que considerava ser um “jornalismo de causas”, no qual os factos e a função primeira do jornalismo, de relatar os acontecimentos com objectividade e equidistância certas, eram preteridos em função das convicções pessoais, morais, sociais e políticas dos jornalistas.

 

Pacheco Pereira lamentava que as “causas” se tivessem sobreposto aos “factos”, conduzindo, muitas vezes, a omissões deliberadas ou a edições mais “convenientes” por parte dos jornalistas, “orientados” para um determinado “resultado” (expressões minhas). Nada de novo, na verdade, e nada que não tenha continuado a verificar-se em Portugal ao longo dos anos, sendo, aliás, uma prática cada vez mais comum. Basta olhar para o ano que agora terminou e analisar com seriedade algumas dinâmicas noticiosas e facilmente se constatam todos esses males, nalguns casos de forma escandalosa, sem que haja qualquer escrutínio ou consequência. Já na altura, Pacheco Pereira explicava o fenómeno: "Há muitas razões para explicar o domínio do 'jornalismo de causas' em Portugal. Ele é favorecido pela relativa homogeneidade política das redacções - muito mais à esquerda do que a sociedade portuguesa -, por uma estrutura de controlo de qualidade, de "edição", muito frágil ou inexistente, pela falta de cultura geral necessária para escrever sobre política, falta de noções de história e de filosofia política básicas. Mas é acima de tudo justificado pela vontade, que se verifica ser muito mais motivadora do que a de se ser, pura e simplesmente, bom jornalista, de substituir as regras do jornalismo pela intervenção política."

 

De todas as razões acima descritas por Pacheco Pereira, prefiro centrar-me na última questão, a de que o jornalista se destitui da sua missão a partir do momento em que “atropela” as regras e conceitos básicos do jornalismo, muitas vezes para contar a “história” que lhe dá mais “jeito” ou, eventualmente, a que lhe dá mais audiência. Aqui, nem sequer se trata de ser bom ou mau jornalista, trata-se apenas de ser jornalista ou não. Pode apresentar-se como tal e achar que os seus trabalhos são reportagens ou notícias, mas, efectivamente, não são mais do que conteúdos, seguramente não jornalísticos, porque, para isso, o crivo tinha que ser outro.

 

Por vezes, as emoções e os interesses subjectivos são de tal maneira gritantes que aos “jornalistas” em causa só lhes falta colocarem a capa de super-heróis para irem em defesa dos fracos e oprimidos. E quando o fazem, fazem-no sempre de acordo com a sua “lente” ou com a sua visão parcial de um determinado assunto. Ora, por mais meritória que essa missão até possa ser, o jornalismo não é isso. O jornalismo tem outro propósito, que é o de informar as pessoas e colocá-las, o mais próximo possível, da realidade de um determinado assunto. Um jornalista não deve escolher qualquer lado da barricada, não deve tomar partidos, não deve ceder perante preconceitos ou ideias pré-concebidas... Não deve ser o super-herói, não deve ser parte da história que está a relatar! Acima de tudo, o compromisso do jornalista é para com a verdade factual, para com os leitores, os telespectadores ou os ouvintes, no dever de lhes fornecer informação devidamente validada, com todos os ângulos de uma problemática, e não apenas uma visão parcial, para que eles, sim, possam fazer os juízos que bem entenderem.

 

Os defensores e mobilizadores de causas devem existir e são fundamentais em democracia na construção de uma sociedade mais justa e solidária, mas não devem ser protagonizados por jornalistas quando estão no exercício da sua profissão. São missões e papéis diferentes, mas o problema é que em Portugal há jornalistas que deixaram de perceber essa diferença, embarcando em causas, por vezes de forma exacerbada e cega, esquecendo-se de que estão a prestar um mau serviço ao jornalismo.

 

Que 2018 traga bom jornalismo, porque, como ainda esta Terça-feira escrevia o filósofo político Daniel Innerarity no El País, para se poder "reinventar" um país ou fazer alguma mudança no mundo, acima de tudo, é preciso saber interpretar bem a realidade.

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15 comentários

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De Luís Lavoura a 02.01.2018 às 17:34

Eu diria que o jornalismo de causas se tornará cada vez mais frequente. Isto porque o jornalismo está cada vez mais influenciado pelas redes sociais e nestas últimas imperam os factos que confirmam a perspetiva política de quem os relata, ou seja, impera o jornalismo de causas.

Nas redes sociais as pessoas tendem a só se "encontrar" com outras pessoas que pensam da mesma forma que elas. Portanto, só ouvem relatar os factos de formas que confirmam a maneira de pensar de quem escreve e de quem lê. Um jornalista que leia uma rede social, e que reproduza o seu conteúdo no jornal, só irá portanto escrever conteúdos que confirmam um dado ponto de vista.
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De Luís Lavoura a 02.01.2018 às 17:36

como ainda esta Terça-feira escrevia o filósofo político Daniel Innerarity no El País

Não deixa de ser engraçado ver o El País a perorar contra o jornalismo de causas quando ainda recentemente, no caso da "independência" da Catalunha, esse jornal se colocou totalmente ao serviço de uma causa (do nacionalismo espanhol).
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De Luís Lavoura a 02.01.2018 às 17:38

é preciso saber interpretar bem a realidade

Pois. Resta saber o que é "interpretar bem". Provavelmente, interpreta bem aquele que interpreta de acordo com os nossos pontos de vista...
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De Anónimo a 02.01.2018 às 17:46

Agit-prop , eis ao que se resume o jornalixo de "causas".
Limita-se a aviar as" encomendas do dia".
Geralmente uma "indignação bem paga" ( vénia ao imortal Jorge Amado).

JSP
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De lucklucky a 02.01.2018 às 18:14

Não são jornalistas de causas.
Essas causas que dizem abraçar são mandadas àquela parte quando não são convenientes. Pois há só uma única causa: Marxismo.

"Margarida Santos Lopes...é das jornalistas portuguesas mais conhecedoras da realidade do Médio Oriente, em particular do conflito israelo-palestiniano"

Haha! conhecedora!? quantas vezes ela falou ou escreveu sobre o massacre de Damour?
Quantas vezes escreveu sobre o uso de escudos humanos?
Quantas vezes escreveu sobre o uso de deficientes e pessoas caídas em desgraça na sua comunidade para atentados?
Quantas vezes ela comparou as vítimas que ocorreriam no lado Israelita caso não tivessem investido na proteção das pessoas?

Não há conflito Israelo-Palestiniano, há conflito Ocidente-Marxismo, Israel como ícone do Ocidente, Palestinianos como instrumento útil que se usa e deita fora.

Comparemos com outras Guerras:
Na Ex.Jugoslavia, ou nas Guerras Coloniais sobre o aplauso geral congela-se fronteiras no status-squo e se reconhece quem venceu e quem perdeu "pelas Paz".
Os refugiados Sérvios não existem, tal como os refugiados Judeus não existem. E os refugiados Portugueses foram chamados de "retornados" precisamente para não existirem.

Se os Palestinianos vivessem sobre Saddam ou sobre controlo do Egipto e Jordânia como antes de 1967 nem um piar se ouviria do Jornalismo Marxista, a começar pelo do Publico.
Tal como não têm "notícias" sobre os Assírios, Druzos, Curdos e muitos outros povos do Médio Oriente. Não é útil ao combate político no Ocidente.
Que é o único propósito e porque o jornalismo é a principal razão do conflito.
Talvez nunca uma profissão fez tão mal a um povo.

A notícias são definidas pela sua utilidade Marxista.
É essa a única causa do jornalismo.

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De Anónimo a 02.01.2018 às 23:39

"Jornalismo Marxista"? Um psiquiatra fazia-lhe bem.
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De lucklucky a 03.01.2018 às 15:55

Ehe, temos a habitual estratégia do Pravda.

Alguma vez um jornalista escreveu que temos em Portugal um Partido Ecologista que nasceu para proteger mísseis nucleares?


A narrativa do Jornalismo Marxista Ocidental e as expressões que usam(só alguns exemplos):

Fidel Castro: Líder Cubano
Hafez Al-Assad & Família: Líder Sírio
Kadhafi: Líder Líbio
Saddam Hussein: Líder Iraquiano

Pinochet: Ditador Chileno
Salazar: Ditador Português
Franco: Ditador Espanhol

Reagan,Bush&Trump: equiparações a Hitler etc..

Vitímas Israelitas
: usar voz passiva: morrem em explosão, "bomba explode" "carro explode","carro ataca", "carro atropela". Não existem ataques Palestinianos.

Vitímas e atacantes Palestinianos
: voz activa, ao invés "não morrem" voz passiva, são mortos, claro em ataques Israelitas.


Manifestações de Esquerda: Activistas

Manifestações de Direita: Extremistas


Políticos de Esquerda que dão o que população quer: Democratas

Políticos de Direita que dão o que a população quer: Populistas


Neste momento vê-se o esforço com que os jornalistas tentam não dizer nada sobre o que se passa no Irão.
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De Anónimo a 02.01.2018 às 18:30

Que pachorra ouvir aquela sumidade Pacheco Pereira.Penso até que os alemães e não só, lhes tremem as pernas.
Eu em tempos até o ouvia, mas tornou-se tão fastidioso nas suas certezas!turn off.
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De Beatriz Santos a 02.01.2018 às 19:12

Não o oiço muito, mas sempre que acontece gosto de o ouvir. Pode ser sorte. Mas tenho ideia que seja pessoa de muito estudo e que pensa por si. Além disso, faz-se entender por toda a gente, facto também meritório.
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De Anónimo a 02.01.2018 às 20:00

Tem toda a razão.
Ainda no fim de semana pus em dia a leitura dos seus textos na Sábado e obviamente não dei o meu tempo por perdido, até no Público os cães de fila que lá andavam o deixaram em paz.

WW
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De Anónimo a 02.01.2018 às 19:22

Bom texto , simples e bem argumentado.
Quanto há realidade é passarmos os olhos pelo Observador e demais tipo ECO , Jornal Económico ou o correio da manha ou então esperemos pelo que vai sair desta nova empresa com sui generis nome de " Trust in News".
O lavoura aí em cima alvitra que as pessoas nas "redes" só se ligam àquilo que é do seu interesse , eu pela minha parte faço exactamente ao contrário, gosto de conhecer todas as sensibilidades, discernir diferenças e depois formar uma opinião caso não a tenha e quando tenho gosto de ver até onde vai a largueza do spin e a cara de pau de muita gente oculta ou não.

WW
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De Anónimo a 02.01.2018 às 23:40

"Que 2018 traga bom jornalismo, porque, como ainda esta Terça-feira escrevia o filósofo político Daniel Innerarity no El País"
Bom jornalismo e El País na mesma frase.
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De Carlos Duarte a 03.01.2018 às 09:58

Se concordo com a primeira parte do texto, tenho mais dificuldade com a segunda: eu não diria que a função do jornalista é ser necessariamente imparcial, mas antes que deve assumir a sua parcialidade e não deixar que a mesma se sobreponha aos factos - um jornalista é livre de apenas noticiar o que lhe interessa, mas não é livre de omitir ou deturpar factos nesse sentido.

No que diz respeito ao jornalismo português, o problema não está tanto no "jornalismo de causas", mas antes no não assumir de isso mesmo: com excepção (semi-declarada, ainda assim) do Observador, quantos jornais "generalistas" assumem expressamente uma linha editorial? Quantos jornais têm "endorsements" eleitorais ou mesmo tomadas de posição nas grandes questões ideológicas? Tomando por comparação o Reino Unido, é assumido abertamente que o The Guardian é de Esquerda e o Daily Telegraph é de direita (p.ex.) e não é por isso que têm menos qualidade ou, arriscaria mesmo, é também por isso que a têm.
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De lucklucky a 03.01.2018 às 16:16

Qualidade no Telegraph e The Guardian!? O que é que é um bom jornal?
Eu diria que é um que consegue ajudar os seus leitores a perceber o mundo para antever o futuro.

Ora o jornalismo - e isto não tem nada que ver com ser português ou não - falhou em toda linha. Do The Economist, ao The Guardian , ao Telegraph, passando pelos Alemães, Franceses, Italianos e obviamente aos portugueses que muitas vezes se limitam a copiar o que os outros fazem.

Todos falharam absurdamente nas ultimas décadas.

Da bolha de crédito, não se ouviu nada até rebentar.

Da bancarrota Portuguesa idem.

Eu lembro-me do "meme" dos anos 90 que dizia que o Capitalismo estava a explorar o 3ºmundo . Resultado: o 3ºmundo teve um dos maiores crescimentos de riqueza.
Também me lembro de que o Petróleo iria acabar.

E que o Aquecimento Global iria acabar com a Neve no Inverno.

Veja-se por exemplo como os jornalistas estão silenciosos sobre o falhanço do IPCC nas previsões da "temperaturas globais".

E claro veio logo a manipulação da narrativa: Aquecimento Global deu lugar a Alteração Climática uma expressão não falsificável pois sempre existiu.

Ora o que é o jornalismo? Não passa de proselitismo da Política. E como, mais política => mais esquerda não admira que sejam Marxistas.

Quantos engenheiros, cientistas escrevem nos jornais? quantos jornais antevêm avanços tecnológicos, médicos e científicos - que é o que mais contribui para a melhoria de vida das pessoas? Quantos jornais têm desenvolvimentos militares?

Não têm. Os jornais existem para que se diga que a Política é a responsável por todas as coisas.
Contribuindo assim para a construção de um totalitarismo.
Por isso é que se a taxa do desemprego sobe ou desce foi o Governo. Convidando assim toda sociedade a investir na política e nos favores políticos.




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De Vento a 04.01.2018 às 11:46

Não estou de acordo que o jornalismo seja um jornalismo de causas. Penso antes que é um jornalismo de moda, sem causas e sem consequências práticas. Mais ainda, penso que o dito jornalismo pretende encapotar o preconceito ao pretender mostrar-se não preconceituoso. Considero também que tal jornalismo não passa de um fenómeno de sublimação perante a imparável ascenção e representação revelada nas redes sociais. Estou mais inclinado para que seja uma técnica de marketing pessoal que propriamente jornalismo.

No entanto estou de acordo com um aspecto: em regra o jornalismo é o espelho das redes socias, porque nestas também se vê pouco pensar.

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