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O independentismo folclórico

por Luís Naves, em 12.09.17

O processo de independência da Catalunha está a ser tratado com pinças pelos meios de comunicação nacionais, talvez pela circunstância do tema ser fracturante dentro da chamada geringonça, a aliança de poder entre esquerda radical e centro-esquerda. Muitos dos comentadores olham com indisfarçada simpatia para o separatismo catalão, que é sobretudo folclórico e sentimental. E no entanto, se a Catalunha se separasse da Espanha, isso era objectivamente péssimo para os interesses portugueses.
Para os catalães, a independência era uma calamidade: ficavam mais pobres, mais inseguros e provavelmente menos livres, pois muitos cidadãos têm raízes na Andaluzia ou na Galiza, de onde os seus pais emigraram há 40 ou 50 anos, atraídos pelo emprego industrial desta próspera região. A independência da Catalunha, sobretudo num processo ilegal como aquele a que assistimos, implicava a imediata saída da União Europeia e da zona euro. E podia ser uma saída sem regresso. Os catalães negociariam um período de transição, mas fora do BCE e do mercado único. Passados alguns anos, a Catalunha teria imensas dificuldades em voltar à UE, pois a Espanha e todos os países com minorias separatistas tenderiam a votar contra. Entre os nossos comentadores da esquerda surge entretanto uma tese extraordinária, de que há nacionalismos bons e nacionalismos maus; há aspirações nacionais que temos de combater e outras que podemos defender com simpatia. Há constituições que devem ser preservadas e outras que podemos rasgar. Há Estados onde os tribunais pesam e as leis se aplicam e outros onde isso não é bem assim.
O mais espantoso, nos nossos dias, não é este desejo popular de reforçar a identidade das nações, mas a tendência suicidária que se manifesta em sectores substanciais das sociedades mais ricas, neste caso entre a burguesia catalã, mas podíamos acrescentar o exemplo do Brexit. É este o grande enigma contemporâneo: o que leva países prósperos a namorar os abismos?

 

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13 comentários

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De Luís Lavoura a 12.09.2017 às 10:58

está a ser tratado com pinças pelos meios de comunicação nacionais

Não sei a que meios se refere. Ainda ontem no telejornal da RTP 2, e esta manhã no noticiário da Antena 1, o tema foi abundantemente tratado. Sem pinças absolutamente nenhumas.

pela circunstância do tema ser fracturante dentro da chamada geringonça

Que total disparate. Nem o PS nem o PCP têm, que eu saiba, qualquer posição sobre a Catalunha. (O BE, acredito que tenha, embora também não a conheça.) A geringonça é um acordo para governar Portugal, não para governar a Espanha nem a Catalunha.

o separatismo catalão é sobretudo folclórico e sentimental

Errado. Os catalães são um povo pouco folclórico e muito materialista. O nacionalismo catalão é essencialmente económico e financeiro (e o anti-nacionalismo espanhol, idem aspas). Os catalães querem ficar com o dinheiro que geram na Catalunha, os outros espanhóis querem esse dinheiro. É tão simples quanto isto.

muitos cidadãos têm raízes na Andaluzia ou na Galiza

Isso é irrelevante. Muitos cidadãos portugueses têm raízes em Angola, cidadãos franceses têm raízes na Argélia, e cidadãos alemães têm raízes na Turquia. Metade da população luxemburguesa, e quase metade da população suíça, tem raízes noutros países. Daí não advem mal a essas pessoas (e escasso ou nenhum mal advem a esses países).
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De Anónimo a 12.09.2017 às 11:06

Provavelmente sou mais velho que o autor deste texto.
No entanto, valorizo menos os eventuais interesses e muito mais a autonomia, a todos os níveis, incluindo a autodeterminação.
É uma questão de dignidade.
João de Brito
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De RAA a 12.09.2017 às 11:18

A forma como a questão está a ser tratada pela imprensa portuguesa, presumo que varie de opinador para opinador, dentro de cada órgão. No entanto, se há coisa que não interessa a ninguém é a imprensa portuguesa.

Questão catalã e geringonça: uma associação que não lembraria ao careca, ou apenas aos carecas obcecados.

Qualificar o separatismo catalão como "folclórico e sentimental", parece-me pecar por excessiva autossuficiência.

"Seria péssimo para os interesses portugueses" a independência da Catalunha. Seria? Não estou a ver...

Então para os catalães a independência "seria uma calamidade", "ficariam mais pobres" etc. É natural que ao encarar-se uma questão histórica e identitária como folclórica não se vislumbre para além do porta-moedas.

Quando e se a independência catalã acontecer, a diplomacia terá o seu papel, e um papel fundamental, desde logo entre a Catalunha e o estado espanhol, ou o que dele restar. Mas eu diria que qualquer vaticínio é bastante arriscado, pois a única certeza é a de não sabermos, não fazermos a mais pequena ideia do que sucederá. Palpites, todos podemos mandar.

Os "comentadores de esquerda" e os nacionalismos e as constituições: uma análise um pouco indigente. A História, portanto, não interessa para nada. É a escola Camilo Lourenço a fazer o seu caminho.

O último parágrafo é interessante e o único neste post a merecer reflexão.
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De am a 12.09.2017 às 11:38

É tudo folclore.... solero!

A maioria do povo catalão (segundo várias sondagens) rejeita a dita independência.
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De WW a 12.09.2017 às 12:59

Uma boa reflexão do Luís Naves.
Espero uma atitude avisada da "geringonça" sobretudo do PCP que tem sido o verdadeiro da "geringonça".
Portugal já tem problemas que chegue para se meter nas alhadas de Espanha que nunca nos trouxeram nada de bom.
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De Vento a 12.09.2017 às 14:04

Sou levado a acreditar que as nações na actualidade em nada divergem nos seus conceitos legalistas mesmo quando comparadas com as ditaduras que lhes precederam.
A Encíclica "Pacem in Terris", lançada pelo bom Papa João XXIII em Abril de 1963, é de uma profundidade, entre outros, sobre este tema e não deixo de recomendar a sua leitura aos que aceitam e desejam estabelecer uma ordem natural nas nações e entre as nações.

Habitualmente afirma-se que as democracias são más, mas não existem modelos melhores. Isto é uma falsidade e nada mais se assemelha às mentiras repetidas mil vezes que o propagandista de Hitler, e outros, tão bem sabiam manipular.
Aqui chegado, importa referir que o conceito da democracia orgânica é a forma de ditadura usada para satisfazer a necessidade de poucos contra os desejos da maioria.
Como tal, esta democracia orgânica deve ser suportada pelo factor evolução, que dê lugar ao Estado comunitário de Direito. Isto é, oferecer ao comum cidadão o que de direito lhe pertence.
O descrédito desta democracia orgânica, baseada numa suposta separação dos poderes executivo, legislativo e judicial, fundamenta-se precisamente no facto do Estado ter sido aprisionado pela regra farisaica do legalismo, que está aí para satisfazer as aspirações de uns quantos "sumo-sacerdotes", fazendo crer que o formalismo da lei está aí para ser seguido pelos outros sob o seu comando.

Em dia de Sábado, quando Jesus foi interpelado pelo facto de seus discípulos estarem a comer, debulhando em suas mãos as espigas de trigo, respondeu: "O Filho do Homem também é senhor do Sábado".
Pretendo com isto dizer que o formalismo legal também retira o que de mais sacro pertence ao Homem, a liberdade de poder alimentar-se quando sente fome e não se submeter aos jejuns que outros lhes desejam impôr.

Vem esta metáfora a propósito para revelar a contradição do Luís quando entende que para os outros será uma calamidade aquilo que deseja que não aconteça, isto é, que decidam por si as circunstâncias e o ambiente em que desejam viver.

É na realidade um contra-senso que às exigências morais comuns se contraponham umas meras constelações de forças físicas em equilíbrio instável. Perante o fracasso e a ineficácia das geringonças - que governam para clientelas eleitorais minoritárias - que se têm vindo a estabelecer em vários quadrantes, a Catalunha pode ser o fôlego moral que as democracias orgânicas europeias necessitam. Faça-se o referendo!
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De xico a 12.09.2017 às 14:29

Ainda hão de explicar-me como ´´e que se ´´e nacionalista e de esquerda ao mesmo tempo. Nacionalismos europeus ´´são das coisas mais reaccion´´arias que conheço.
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De Anónimo a 12.09.2017 às 14:56

Boa tarde Luís Naves.
A sua pergunta, no final do post, não tem respostas simples, fáceis. Uma das mais simples poderá ser, por mais bacoca que possa parecer, é que será assim mais fácil para alguns sobressaírem na zona, mais tachos. Rainha por um dia em vez de duquesa toda a vida. Mas o assunto é complexo. Por exemplo, por cá, nas ilhas do Atlântico e em algumas partes do Continente, vão aparecendo vários com intenções de divisão, de regionalizar, de criar partidos vários além dos nacionais, de criar pequeninas províncias, ou mais distritos, ou mais CCDR, no fundo mais capelinhas de dimensão e estrutura diversas mas onde se possa ser duque ou mesmo reizinho. Na convicção de que existirão sempre uns papalvos para pagar cada vez mais impostos e taxas.
A sua pergunta tem muita razão de ser, mas neste espaço só dá quase para "brincar". António Cabral
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De Justiniano a 12.09.2017 às 15:11

Excelente comentário, como sempre, caro Luis Naves!
Sobretudo a indisfarçada simpatia que alguma esquerda saudosista, fiel à República de 36, projecta como a reedição de então!! ( A mim cheira-me que está relacionado com o grande símbolo da actualidade, a imigração extra europeia. Uma vez que tanto os nacionalistas escoceses como os catalães não propalam o identitarismo europeu, ou base étnica do nacionalismo, mas tão somente uma afirmação económica e cultural dos aparentemente mais fracos contra os aparentemente mais fortes, a narrativa serve perfeitamente!!)
Assinalo também as insanáveis contradições, da esquerda à direita, sobre os nacionalismos bons e os maus, conforme a edição!
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De Vlad, o Emborcador a 12.09.2017 às 15:23

As independências, a liberdade dos povos, a democracia sempre foram ideais burgueses. O povo entretém -se a trabalhar pouco lhe importando sob as ordens ou a bandeira de quem. Pela independência da Catalunha !! Els Segadors

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