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O homem imperfeito

por Pedro Correia, em 09.03.16

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Releio a previsão feita em 2010 por um politólogo doméstico sobre o "maior risco" de um Cavaco Silva em vias de reeleição para um segundo mandato em Belém: o reforço da componente presidencial do sistema político português. Como tantas vezes acontece, esta previsão falhou. Cavaco foi, pelo contrário, o Chefe do Estado com uma visão mais restritiva dos seus poderes, reconfigurando o imperfeito "semipresidencialismo" desenhado na Constituição. Dez anos depois de ele ter tomado posse para o primeiro mandato, o Parlamento funciona hoje como centro da nossa vida política, um pouco à semelhança do que sucedia na I República - característica que os constituintes de 1976 procuraram evitar. Com manifesto insucesso, como se comprova.

Cavaco Silva não foi cesarista nem bonapartista, como tantos temiam: nenhum dos seus defeitos rondaram por aí. A incapacidade de estender pontes para além da sua família política de origem e uma chocante insensibilidade social, tornada bem evidente na lamentável declaração que proferiu em 2012 sobre a suposta falta de recursos do casal presidencial para fazer face às despesas foram os pontos mais negativos do consulado cavaquista em Belém. Um longo período que, somado à década de permanência em São Bento como primeiro-ministro e ao ano em que foi ministro das Finanças com Sá Carneiro, tornaram Aníbal Cavaco Silva o cidadão durante mais tempo em funções em cargos políticos no actual regime.

 

Tímido, ensimesmado, sem dotes oratórios nem carisma pessoal, Cavaco nunca deixou no entanto de manter uma sólida legião de adeptos - aliás expressa nas quatro eleições que venceu por maioria absoluta, em 1987, 1991, 2006 e 2011, meta que nenhum outro político alcançou entre nós. Consequência da sua austera e esquálida figura, que tão bem caiu inicialmente no imaginário lusitano, da reputação que granjeou como especialista em finanças públicas e da associação empírica do seu mandato governamental aos anos de maior prosperidade da anémica economia nacional, em boa parte fruto da nossa adesão à Comunidade Europeia e aos 110 mil milhões de euros em fundos estruturais que ela até hoje nos proporcionou. A primeira "década cavaquista" tornou o País irreconhecível, facto que a posteridade não deixará de reconhecer.

Faltou-lhe, já como inquilino de Belém, estabelecer a ligação afectiva com os portugueses que muito esperam sempre de um Presidente, como sucedâneo dos monarcas ancestrais que deixaram bom rasto na memória colectiva. Relação ainda mais necessária em tempo de penúria financeira e crise social - aqui Cavaco faltou à chamada e muitos não lhe perdoaram a frieza e a distância que manifestamente revelou.

 

Creio no entanto que os historiadores futuros preferirão salientar, do seu duplo mandato em Belém, o facto de representar a ascensão do homem comum ao supremo patamar da hierarquia política portuguesa, devidamente mandatado pelo sufrágio universal. Cavaco Silva foi o primeiro Presidente civil não oriundo das endogâmicas famílias políticas da classe média-alta lisboeta que em regra se vão revezando nos circuitos da decisão. Homem da província, com raízes humildes, funcionou como personificação viva das virtudes e defeitos da democracia, um sistema em que o elevador social funciona e supera as delimitações territoriais dos clãs dominantes.

Neste sentido prestou um bom serviço ao regime democrático - incipiente e frágil mas superior a qualquer outro. Por definição, o regime dos  homens imperfeitos. Porque a perfeição, a que tantos aspiram, na política só existe em ditadura.

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16 comentários

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De V. a 09.03.2016 às 12:48

Muito bom. Sobretudo a conclusão.
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De Pedro Correia a 09.03.2016 às 13:00

Obrigado, V.
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De Tiro ao Alvo a 09.03.2016 às 13:23

Apoiado!
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De Luís Lavoura a 09.03.2016 às 15:28

os monarcas ancestrais que deixaram bom rasto na memória colectiva

Que monarcas foram esses?

Com exceção de D. Pedro V, não me vem à memória qualquer monarca que tenha deixado bom rasto na memória coletiva.

D. Pedro V tem em Castelo de Vide uma estátua que foi erguida em sua honra pelo povo da vila. Conhece o Pedro mais algum monarca a quem o povo se enha afeiçoado ao ponto de lhe erguer uma estátua?
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De Pedro Correia a 11.03.2016 às 23:04

Procure ler um bom livro de História para esclarecer essas dúvidas. De História, não de estórias.
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De AntónioF a 09.03.2016 às 15:55

Caro Pedro,
faltou-lhe dizer algo que alguém já disse, creio que o recém presidente eleito, que é o facto de ter sido o principal beneficiário politico da morte de Sá Carneiro. Se não tivesse havido essa ocorrência histórica (não sei se diga atentado ou acidente) teria havido o politico Cavaco Silva?
Provavelmente sim, mas teria sido outro. Infelizmente para nós tivemos este!
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De Pedro Correia a 11.03.2016 às 23:09

Isso já é um "se" muito grande, António. A política tem horror ao vácuo. O desaparecimento de um líder carismático gera sempre um vazio que alguém acabará por preencher. Neste caso não tinha que ser Cavaco. Mas aconteceu.
Isto é factual.
O contrafactual leva-nos tão longe que podemos até nem chegar a parte alguma.
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De lucklucky a 09.03.2016 às 18:28

Bom texto especialmente a referência a não ter sido cesarista ou bonapartista, algo que é esquecido propositadamente por aqueles que o acusaram desse risco e ao elitismo "lisboeta"

O melhor de Cavaco é precisamente a primeira, o pior foi ter deixado o PS levar o país para a bancarrota.
Mesmo que uma intervenção não ocorresse porque é muito difícil argumentar com contra-factuais e o PS faria de vítima com a quantidade de jornalistas virados para a esquerda, isto no contexto de uma má elite politico-jornalista e um povo induzido a ser ignorante sobre finanças publicas.
Cavaco deveria ter sido pedagógico e avisar claramente para o caminho que o país estava a ir e o desastre que ocorreria.

E avisar quantas vezes necessárias.
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De Pedro Correia a 11.03.2016 às 23:19

De facto Cavaco foi conivente em excesso com a governação de Sócrates. Quando endureceu o discurso já Portugal estava às portas da bancarrota. Depois, já quando estávamos sob intervenção externa, errou ao profetizar a iminência de uma "espiral recessiva": não só essa pseudo-espiral não ocorreu como o País saiu da recessão, embora com os esforços e os custos que sabemos.
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De cristof a 09.03.2016 às 19:07

Na coincidência entre os críticos de Cavaco e os críticos da Merkl, serem maioritariamente os mesmos, presumo que se me esforçar, talvez encontre a chave para o enigma(para mim) de tanta aversão ao Cavaco; da parte da nomenclatura (bem?) pensante, convém realçar.
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De Pedro Correia a 11.03.2016 às 23:16

Digamos que essa aversão ocorreu em três segmentos diferentes: o primeiro por preconceito social (essencialmente da chamada direita); o segundo por preconceito ideológico (essencialmente da chamada esquerda); o terceiro pela inabilidade do próprio Cavaco Silva, que deu provas de grande insensibilidade social perante os portugueses que mais sofreram os efeitos da crise.
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De JAB a 10.03.2016 às 11:58

Grande texto, a destoar de tantos comentários bacocos que dizem mal de ACS mas não sabem ou não dizem porquê. Mas eu sei: pelos mesmos motivos que levaram ontem certa "gentinha" a ficar sentada, pregada a uma cadeia que não merece, com medo de que um sopro de democracia verdadeira os possa colocar no seu lugar: NA RUA!
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De Pedro Correia a 11.03.2016 às 23:13

Obrigado, JAB, na parte que me toca. Quanto à atitude da extrema-esquerda parlamentar, nada de novo: gostam de invocar a Constituição o tempo todo, mas esquecem-se de cumprir os preceitos mínimos de cortesia perante o Presidente da República, símbolo máximo do Estado consagrado na nossa lei fundamental.
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De Maria Dulce Fernandes a 11.03.2016 às 11:29

Excelente apontamento, com um final de mestre. Cavaco Silva deveria ler este texto. Parabéns Pedro.
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De Pedro Correia a 11.03.2016 às 23:10

Muito lhe agradeço as suas palavras, Dulce. Uma vez mais.

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