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O futuro do sindicalismo

por Rui Herbon, em 13.05.14

Celebrou-se mais um 1º de Maio. Movemo-nos entre o discurso autista dos sindicatos e uma campanha sem tréguas, ainda que com algumas razões, contra eles. Contudo, nem eles analisaram as causas do enfraquecimento do seu prestígio, nem os contrários compreenderam a importância dos sindicatos na hora de regular e ordenar os protestos irados daqueles que se sentem abandonados pelo sistema, mais ainda quando vivemos uma crise económica com o respectivo impacto no emprego. Tentarei aprofundar, afastado de ambos os extremos, alguns dos motivos que levaram os sindicatos a esta situação, que se não é crepuscular, é certamente de um grave enfraquecimento das suas faculdades características.

 

Os sindicatos nasceram para fazer da união uma forma mais eficaz de defender os direitos (os interesses?) dos trabalhadores, e fizeram-no numa época em que essas reivindicações tinham um claro conteúdo político e uma grande carga ideológica. Nasceram, apesar das aparências, num mundo muito coerente e vertebrado, bem diferente do precedente. Na empresa, dentro da qual se desenvolvia toda a vida laboral do trabalhador, a união era fácil, podemos dizer que instintiva. As mesmas condições replicadas em diferentes empresas e sectores de actividade desenharam um perfil da "classe trabalhadora" também muito coerente. Essa coerência era auxiliada pela luta política, sempre com o futuro como referência, profundamente enraizada nos objectivos sociais e apoiada na ideologia. Tudo isso transformou os sindicatos primitivos em forças dinâmicas, de progresso, que monopolizavam a representação sentimental, social e política dos trabalhadores.

 

Desde a II Guerra Mundial, mas mais claramente desde a revolução tecnológica, o paradigma mudou e agora movemo-nos num contínuo presente nostálgico, que constrói massivamente discursos que nos devolvem ao passado, com a premissa de que a Idade do Ouro do ser humano acabou e que voltamos a uma época pretérita sem direitos políticos e sociais, sem coberturas educativas e sanitárias. Esta indignação insana provoca a petrificação de discursos, ideias e programas: para estes indignados é, ao fim e ao cabo, desnecessário mudar algo; a sua mensagem continua igual porque não reconhecem o tempo de revolução pacífica ao qual assistimos. A luta na fábrica, nos países ocidentais, perdeu parte da sua épica – ao desligar-se do seu conteúdo político – uma vez alcançadas algumas das reivindicações do seu discurso. Por outro lado, na empresa actual, muito mais complexa que no início da industrialização, a classe trabalhadora foi perdendo parte da sua sólida coerência.

 

A isto há que acrescentar que a sociedade de hoje é a soma de grupos muito diversos que aportam uma miríade de problemas e reivindicações; não é a multidão anónima e unida no seu anonimato do passado, mas uma multidão em certa medida individualizada e isolada com múltiplas e contraditórias formas de reagir. É justamente essa pluralidade na empresa e na sociedade que quebrou, sem volta atrás, o monopólio da representação. Hoje o incremento do trabalho temporário e o aumento dramático do número de desempregados provocam que o mundo captado pelos sindicatos seja menor e parcial.

 

Com a procura das causas do enfraquecimento das organizações sindicais na actualidade apresenta-se-me uma reflexão: a necessidade de mudanças no seio dos sindicatos que permitam a sua adaptação a uma realidade que se transforma a um ritmo revolucionário sem nos darmos conta. Os sindicatos do futuro caracterizar-se-ão pelos serviços que prestem, pela responsabilidade razoável que exerçam na direcção das empresas e pela ocupação do espaço público próximo aos excluídos pelo sistema – imigrantes, desempregados, etc. Para isso o seu esforço é uma condição necessária, mas também o é o reconhecimento da sua utilidade por parte dos empresários e da sociedade, seja qual for o modelo adoptado. Entretanto nunca será de mais reconhecer que, sobretudo em momentos como este, a sua capacidade para ordenar os protestos é imprescindível ao nosso modelo político.

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2 comentários

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De Vento a 13.05.2014 às 15:28

Bem, Rui, há por aqui muito pano para mangas. Inicialmente pareceu-me que estava a ler a teoria de Soros sobre a perniciosa acção dos sindicatos e acabei por encontrar espaço para reflectir sobre a evolução - disse evolução e não revolução - dos movimentos sindicais (referi movimento a pensar em movimentação), acabando a concordar consigo.

A estrutura sindical em todo o mundo começou por ser uma congregação de classes e interesses em torno dessas mesmas classes, e Portugal não fugiu a este mesmo modelo. Mas é sabido que a acção dos sindicatos em todo o mundo contribuiu para que as condições, mesmo dos não sindicalizados, laborais e salariais melhorassem.
Mas este tipo de corporativismo varreu para debaixo do tapete o cooperativismo.

A classe operária que emerge com o advento da tecnoloia e da educação, a todos os níveis, veste-se de fato e gravata (e até mesmo de fatinho channel), e estas fatiotas ajudaram durante muito tempo a disfarçar a verdadeira natureza da condição destes operários. E são estes que, enganando-se em sua própria soberba, hoje sentem a necessidade de ultrapassar as barreiras da vergonha e voltar a constituir-se como contraponto nos desequilíbrios gerados.

Li com bastante satisfação a criação de um sindicato em Portugal dos operários dos call-center, local, como é sabido, onde se encontram as mais diversas descaracterizações do que é um ambiente laboral .

Tudo isto para dizer que cheguei à conclusão que após um período de estagnação os homens dão-se conta, em todos as épocas e tempos, da necessidade de contribuir para uma verdadeira evolução. Evolução esta que se não abranger a cooperação entre todas as famílias operárias (que vai de políticos, passando por juízes, médicos, informáticos, empregados de mesa e balcão, ensino, vendedores e compradores...) corre o risco de voltar à estaca zero. Viva a crise que nos transfigura! Sem transfiguração não há evolução.
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De Rui Herbon a 13.05.2014 às 15:58

O importante é não haver cristalização de ideias e discursos.

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