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O futuro da esquerda

por Luís Naves, em 19.04.17

Torna-se cada vez mais evidente a divisão central da esquerda: de um lado, está o governo, que defende e diz aplicar a ortodoxia europeia; do outro, Bloco e PCP, que suportam o governo e que, embora calados no essencial, são ideologicamente contrários a essa ortodoxia. O problema não é um exclusivo nacional e pode ser encontrado, em todo o seu esplendor, nas eleições presidenciais francesas. Segundo as sondagens, o voto socialista divide-se ali em três interpretações sobre o cumprimento de metas europeias de despesa pública, dívida e reformas estruturais. Muitos dos eleitores socialistas que em 2012 deram a vitória a François Hollande deverão votar em Emmanuel Macron, defensor do Tratado Orçamental. O candidato oficial do PS francês, Benoit Hamon, que quer regras europeias mais suaves, aparece entretanto nas sondagens com uma votação residual que poderá resultar em forte humilhação para o partido. Outra parte substancial do eleitorado socialista irá para o candidato da extrema-esquerda Jean-Luc Mélenchon, um populista que contesta as regras de Bruxelas e surgiu nesta campanha a criticar as elites. A primeira volta das eleições francesas pode ser o modelo do futuro da esquerda portuguesa (veja-se como Hamon tentou fazer a ‘geringonça‘ e não conseguiu convencer Mélenchon a desistir). Na política caseira, não será possível manter por muito mais tempo a ficção de que se é contra a ortodoxia europeia, enquanto se elogia o rigor dos orçamentos e o cumprimento dessas regras. A narrativa de que vão lá bater o pé aos europeus é patética e a extrema-esquerda pode escolher o momento em que assumirá a sua oposição a uma política que considera ser a verdadeira calamidade. A táctica é efémera e muda conforme as oportunidades: se o governo de Costa falhar como fracassou Hollande, não terá desculpas, e o PS enfrentará uma ameaça existencial que pode ser semelhante à de um partido, o PS francês, que sempre imitou.

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5 comentários

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De Vento a 20.04.2017 às 00:58

Se o governo aplicasse a ortodoxia europeia, os ortodoxos não teriam dito que estavam surpreendidos com o resultado do primeiro ano de governação. Nem Schauble teria surgido tão apoquentado também dizendo que vinha aí o diabo.

Afirmei aqui, e volto a afirmar, que Le Pen não ganhará. Frisei também que surgiriam surpresas. O resultado das eleições francesas será ditado por uma geringonça.
Também afirmei que o Brexit jamais seria um exit; e assim será.

Continua-se a pensar à maneira antiga, e é natural que os líderes do rebanho se desapontem, tal como o rebanho.
Quer a direita quer a esquerda têm muito a aprender em matéria das grandes transformações sociais. Espanha, EUA e Inglaterra são um exemplo disto que afirmo.
Portugal será um "case study" para a Europa e para o mundo.
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De Luís Lavoura a 20.04.2017 às 09:50

o Brexit jamais seria um exit; e assim será

Nisso tem Você toda a razão. O Reino Unido permanecerá dentro da União Europeia, de facto se não de jure. Continuará a ser forçado a aplicar todas as regras da União.
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De Luís Lavoura a 20.04.2017 às 09:47

Bloco e PCP, que suportam o governo

Em português escrever-se-ia "sustentam". Os verbos português "suportar" e inglês "to support" têm significados diferentes.

o PS enfrentará uma ameaça existencial

Parece-me que o Luís Naves está a transformar os seus sonhos em realidade. A verdade atual e concreta é que o PS é de longe o maior partido português e está, segundo as sondagens, perto de alcançar a maioria absoluta de deputados em caso de eleição.

o candidato da extrema-esquerda Jean-Luc Mélenchon, um populista

O Luís Naves usa os epítetos "populista" e "de extrema-esquerda" como uma forma de desqualificação, que o poupa a argumentar. Eu poderia, da mesma forma, dizer que Viktor Orban é um primeiro-ministro de extrema-direita e um populista. Seria parco em argumentação e muito conveniente.
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De Luís Naves a 20.04.2017 às 13:58

Suportar e sustentar são sinónimos, pelo menos é assim no meu dicionário.

Em relação ao resto do comentário, acusa-me de confundir desejos com cenários; ora, o que eu escrevi é apenas um cenário; se me pergunta qual é o meu desejo, claramente lhe respondo que seria um cenário péssimo, pois o afundamento do PS francês está a ajudar a radicalizar a política e a criar um clima de insegurança e de incerteza. Se isso também acontecer em Portugal, sinal de que a geringonça fracassou, a democracia portuguesa enfrentará uma dupla catástrofe.

O seu terceiro ponto é uma desconversa. As pessoas de extrema-esquerda vão votar Mélenchon e o candidato é contra as elites, as oligarquias e o poder instituído, entrando perfeitamente na definição de populismo. Não vejo o que tem isso a ver com Viktor Orbán: se quiser definir o primeiro-ministro húngaro como sendo de extrema-direita e populista, força, já dei para esse peditório de tentar esclarecer a opinião pública sobre um tema onde as pessoas estão a ser alegremente enganadas e, pelos vistos, leu os meus textos sem os aceitar...
Os eleitores húngaros de extrema-direita não votam em Orbán, mas no Jobbik, esse é que é o partido de extrema-direita na Hungria, aliás demasiado radical para entrar no grupo parlamentar que a senhora Le Pen organizou no Parlamento Europeu.


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De Justiniano a 20.04.2017 às 15:49

Caro L Naves, e circunstantes!
Hoje, como acordei pessimista, aqui vai um desabafo tremendista!!
Não estou minimamente preocupado com os destinos da esquerda europeia!! Essa fase já passou e redenção alguma advirá desse campo de pensamento! A salvação do Estado liberal e social de direito já não passa por aí (e muito menos passará pelos liberais da actualidade)!
Em Portugal vivemos ainda sob apatia anestesiante!
Preocupa-me, verdadeiramente, a subsistência deste mundo como o conhecemos, pois, apesar de, para muitos, ainda cheirar a Shire, há história em curso lá por fora. E cá chegará!
Vivemos um ocaso. Saturados de mundo e das suas contradições!
Preocupa-me Paris, um dos grandes faróis do Ocidente! Há, por todo o Ocidente, prelúdios de guerra civil que vão sendo apaziguados por mil e um arames!
Temo pelos espíritos compassivos, crentes na eterna bondade e inesgotáveis de boa vontade! E sobretudo, angustia-me que se tomem por tolos os homens de boa e verdadeira vontade!

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