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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 06.08.17

«Voar é um hobby. Bem redutora afirmação. E neste caso falsa.

Aquele era um voo de instrução, um acto profissional, como tal fortemente regulado em termos humanos e de equipamento. Há muito mais do que hobbies na aviação ligeira. São várias as actividades profissionais nela praticadas, exercidas a bordo de "avionetas". Legítimas e o ganha-pão de muita gente. De onde acha que vêm, por onde acha que começaram, os pilotos dos grandes "jactos" que o levam em férias ou trabalho? Todos na aviação militar?
Critique-se a decisão tomada por aqueles dois (tomada, acredito, pelo instrutor, o piloto-comandante do voo), mas não se reduza aquilo que faziam a um hobby, coisa como tal perfeitamente secundária, inoportuna até. Hobby presumivelmente de meninos ricos e que passeavam sobre a praia decerto em profundo desprezo pelo povo que nela estava.
Nem se minimizem as circunstâncias em que houve que decidir. Em poucos segundos, em condições bem desfavoráveis, uma decisão teve que ser tomada rapidamente tornada irreversível e que, fosse qual fosse o desfecho, ficaria com eles para o resto das suas vidas. Uma decisão com uma urgência e peso como provavelmente nenhum ou bem poucos daqueles banhistas justiceiros terá alguma vez que tomar. Sabe-se agora que, perante as alternativas, não foi a melhor decisão. Da consciência dos tripulantes saberão eles. Da sua sorte saberá a justiça.

 

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Uma coisa é decerto segura: ao decidir como decidiram, não desejavam nem lhes era indiferente o desfecho que tudo aquilo teve. Não quiseram, poderá ser afirmado, aquele desfecho.

Não sei se o mesmo pode ser dito de gradas figuras da actualidade nacional, cujas acções condicionaram, condicionam, e condicionarão as nossas vidas e as dos nossos filhos e sobre as quais bem poucas - se algumas - manifestações públicas de desejo de justiça privada (desde logo nas versões de linchamento ou grande "enxerto de pancada", decerto visando aliviar justíssimas indignações) se conhecem. Fortes com os fracos, eis uma nossa inegável característica.

Respeitem-se os mortos e aqueles que lhes eram próximos. Não creio que esse respeito se engrandeça com a desconsideração liminar da actividade daqueles dois tripulantes, muito menos com fanfarronadas de heróis de vão-de-escada (actividade tão portuguesinha, aliás).»

 

Do nosso leitor Costa. A propósito deste texto do Rui Rocha.

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9 comentários

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De rão arques a 06.08.2017 às 19:24

"fosse qual fosse o desfecho, ficaria com eles para o resto das suas vidas."
A decisão tomada em poucos segundos foi em todo o caso a de menor risco para os próprios aviadores, felizmente continuam vivos, por muitas razões que possam ser alegadas em sua defesa.
Porque infelizmente faleceram, o desfecho da decisão tomada por quem estava aos comandos, é que não vai ficar para o resto da vida das duas vitimas mortais.
E concluo com uma questão tão honesta como transparente, sem querer fazer justiça em situação que não domino:
Porque li algures que o maior risco deve ser assumido por quem voa, acharia oportuno um inquérito a diversos pilotos, para avaliar como procederiam em tais circunstâncias.
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De Costa a 06.08.2017 às 22:40

Não acredito que aquele instrutor tenha deliberadamente conduzido a manobra visando aterrar numa zona cheia de gente. É impensável: quem quereria viver arrastando na sua consciência o peso de mortes (e se não por elevação moral, pela egoística perspectiva de uma vida arruinada, na carreira e não só, como seguramente será o caso)?

Admito que tenha calculado uma trajectória que o levaria, assim esperaria, a tocar o solo e desacelerar até à paragem noutra área da praia. Decerto o forte vento de cauda lhe arruinou os cálculos. E seria então demasiado tarde para desviar o avião para a água: em poucos segundos estariam decerto já a muito baixa altitude e bem perto da velocidade mínima de controlo, uma mudança de direcção levaria facilmente à queda descontrolada - ao despenhamento - possivelmente sobre ainda mais gente.

Deveria a decisão inicial ter sido, sem contemplações e esperanças, a de pôr o avião na água? Parece agora que sim. Parece-nos a todos, que elaboramos mais ou menos taxativamente, sobre o caso, no conforto dos nossos sofás. Pareceu assim e decerto parece aos justiceiros de tablóide, dotados a quente e em plena praia, da palavra definitiva sobre o caso. Não sei o que isso acrescenta, no respeito que nos devem merecer as vítimas e os seus próximos.

Seja, o caso toca-me muito próximo: fiz aquele voo centenas de vezes, naquele tipo de avião e àquela altitude (porque é a que o controlo de tráfego aéreo, por atendíveis razões, ali permite), ao longo de anos como instrutor de voo. Não me tenho, permita-se-me, na conta de negligente, inconsciente, cobarde ou pior.

Mas podia ter sido eu. E encaro com dificuldade as definitivas certezas que só a ignorância dá. A ignorância e a mentalidade de justiceiro de pacotilha.

Já basta a responsabilidade da função e o peso potencial de uma decisão infeliz.

Costa

Ps: quanto ao caso concreto, nada sei de específico. Limito-me a especular com base em experiência repetida. E por isso fico por aqui. E por isso não embarco em assassínios de carácter, como já li e ouvi.
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De Vlad, o Emborcador a 06.08.2017 às 23:58

Costa, morrrer descansado é pena menor quando viver é um sempre acordar atormentado
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De Anónimo a 07.08.2017 às 01:01

Muito bom.

Do oracular conhecimento do interior da cabeça de estranhos - "Não acredito que", "Admito que tenha calculado...", "Decerto ...", "ao decidir como decidiram, não desejavam nem lhes era indiferente [...]", "Não quiseram...".

Passando pela compassiva e caridosa análise aos desgraçados que tiveram o prazer de assistir à sua frente ao rebentamento de uma menina de 8 anos que molhava os pezinhos na água, esses "banhistas justiceiros", quem sabe se não igualmente subsumíveis à categoria de "justiceiro[s] de pacotilha" e "heróis de vão-de-escada".

Tudo isto, seguramente, por quem observa e analisa o assunto com distanciamento e isenção e não se move por alguma empatia corporativista ("fiz aquele voo centenas de vezes [...] como instrutor de voo").

Enfim, um mimo.

Seja qual for a análise que mereça a actuação do piloto/instrutor.

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De rão arques a 07.08.2017 às 08:00

Quem sou eu para rebater as considerações De Costa, que pelos conhecimentos e experiência demonstrados não deixa dúvidas de que domina os contornos da matéria em questão.
Também acredito que o piloto não quis atingir pessoas deliberadamente, apenas que nos curtos segundos de que dispunha para uma decisão, como refere, tenha preferido correr esse risco.
Só que, como leigo na matéria, em relação ao excerto que a finalizar sublinho parece haver algumas precipitações na avaliação que faz, essa sim, aparentemente sem retorno.
Isto porque:
1-Sabendo-se como se comportam as multidões em todos os tipos de situações que induzem mais à emoção de que à razão, parece precipitado carimbar desde logo como justiceira e definitiva essa reação "a quente" como bem refere.
3-Infelizmente, mentalidades justiceiras de pacotilha não partem apenas de multidões com espírito gregário, mal informadas e de consciência toldada.

"Pareceu assim e decerto parece aos justiceiros de tablóide, dotados a quente e em plena praia, da palavra definitiva sobre o caso."
"E encaro com dificuldade as definitivas certezas que só a ignorância dá. A ignorância e a mentalidade de justiceiro de pacotilha."
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De Vítor Araújo a 07.08.2017 às 10:46

"Uma decisão com uma urgência e peso como provavelmente nenhum ou bem poucos daqueles banhistas justiceiros terá alguma vez que tomar."

Triste argumento de autoridade que nenhum racional deveria utilizar na defesa da sua opinião. É sim , a pergunta fulcral é mesmo essa, por muito que esperneia, "porque é que os pilotos decidiram por em risco vidas dos veraneantes da praia e não as suas próprias,que era o que estaria em causa na amaragem?"
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De am a 07.08.2017 às 12:07

Um problema de consciência, resposta múltipla:

Faltam os travões a um automobilista numa descida ingreme.

Num dos lados da estrada há um precipício..... no oposto encontra-se uma paragem de autocarro com pessoas à espera...

Que você decidiria : -- Ir de encontro à cabine ou conduzir o carro para o precipício?



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De Vlad, o Emborcador a 07.08.2017 às 12:59

Bem, existem outras formas de travar:
1-guinando o volante e fazer capotar o carro:
2-travando com o motor e com a caixa de velocidades dando tempo para o pessoal da paragem sair de lá para fora
3-abrindo a porta do carro e jogar-se de lá para fora

Repostas em pontos caricatos para pergunta humoral

E penso que quem andava no Cesna teve tempo para pensar, desde as alturas lá de cima, até à razia cá de baixo. Não foi num instante....

http://www.msn.com/pt-pt/noticias/video/estudos-apontam-para-elevada-taxa-de-sobreviv%c3%aancia-em-amaragens/vi-AAptnhU?ocid=spartandhp



E assim se guia em bom português
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De sampy a 07.08.2017 às 15:11

am,

Já terás idade para saber que uma coisa é que se pensa a frio e outra o que acaba por suceder, normalmente numa questão de segundos. E mesmo treinando intensamente as reacções mecânicas.

Mesmo que vivamos numa sociedade doente, a força do instinto de sobrevivência e auto-preservação não deve ser menosprezado.

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