Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O comentário da semana

por Pedro Correia, em 15.06.14

«A miséria, material ou moral (ou ambas), não é exclusivo nosso. Menos ainda a que parece resultar não de uma fatalidade ultrapassando a sua vítima, mas de uma voluntária descida aos infernos. E esta existirá mesmo na mais perfeita sociedade.

Mas por cá desgraçadamente impera triunfante. Vai por exemplo do velho que vai morrendo na rua, ao adolescente cretino, vestido inenarravelmente, armado em estrela da bola e recusando militantemente o estudo e a cultura. Passa pelos cancros urbanísticos e pelas caravanas de buzina aos berros às tantas da noite, porque o clube marcou um golo (e isso, bem se sabe, está acima da lei). Existe no pai que atravessa com o filho ainda menino, fora da passadeira, com o sinal vermelho e enquanto cospe para o chão. Está no maço de tabaco, ou o que seja, que se atira para o chão como se fosse o mais banal, consagrado e inofensivo gesto. Manifesta-se no belo automóvel estacionado sobre o passeio, ou em segunda fila, à porta de casa ou da loja, com lugares perfeitamente legais apenas a uns minutos num passo tranquilo.

Evidentemente não me refiro apenas à miséria que resulta de não ter que comer ou vestir. Tem muitas formas e convive muito bem - por vezes até partilha - com bolsos bem recheados.»

 

Do nosso leitor Costa. A propósito deste texto do José Navarro de Andrade.

Autoria e outros dados (tags, etc)


8 comentários

Sem imagem de perfil

De xico a 15.06.2014 às 21:52

E no entanto prefiro toda esta miséria suja e malcriada à miséria moral de enriquecer à custa do sofrimento alheio espalhado pelo mundo inteiro e ao orgulho de uma história alheada desse mundo que lhe trouxe a riqueza... e a limpeza.
Sem imagem de perfil

De Fernando Torres a 15.06.2014 às 22:27

O rising star, está na fase dos duelos.
Porque se não aproveita e se escolhe, já na próxima semana, o novo(velho) secretário-geral do PS?
Ficávamos todos a ganhar!

Lá mais para frente, um novo PM.
Sem imagem de perfil

De Costa a 15.06.2014 às 23:08

Ao D.O . agradeço o favor do destaque. Quanto ao resto - ao primeiro comentário -, estou, receio, inconciliavelmente em campo oposto. Nem me parece que o comum cidadão (ou residente) suíço seja um frio capitalista desprovido de sentimentos que não a venalidade de enriquecer à custa do resto do mundo, nem acredito que essa lassa confederação seja calculística e deliberadamente esse inescrupuloso paraíso financeiro que tão convenientemente se afirma ser (que tal, antes de se diabolizar o destinatário desses dinheiros, questionar a impunidade com que são retirados das suas origens e porque o são?).

Por outro lado, não desculpo em ninguém a falta de educação ou a vontade - o verdadeiro desejo - de viver em ambientes malcriados, muito menos como forma de marcar posição perante alegados opressores, ou coniventes com opressores. A boa educação, a civilidade, a dignidade deveriam ser objectivo de todos. Sei, a minha ingenuidade não vai tão longe, que um estômago vazio comanda a vida de quem assim o tem. Mas isso deveria ser sempre visto como um mal a combater e não como uma licença para se cristalizar orgulhosamente no embrutecimento. Mais ainda quando esse embrutecimento afinal o é de barriga farta.

E não comparo favoravelmente um povo que pratica tão reiterada e ciosamente o "safar o seu e quem vier a seguir que se amanhe". E esse povo é o meu: o português.

Costa
Sem imagem de perfil

De Desconhecido Alfacinha a 16.06.2014 às 08:39

Subscrevo inteiramente e parabéns pelo(s) belo(s) texto(s).
Sem imagem de perfil

De xico a 17.06.2014 às 00:26

De Costa,
O que escreve faz sentido e fá-lo muito bem. A minha reacção tem só a ver com comparações que, desculpe dizer, tenho dificuldade em digerir. Nem Portugal é exemplo de má criação e de incivilidade para ninguém, apesar da rudeza das suas elites, e nisso se calhar estamos de acordo, mas também a Suíça e os suíços não servem de termo de comparação para a civilidade e a boa educação. Eu que adoro chocolate suíço tenho por vezes dificuldade em lembrar-me que o cacau não nasce nos Alpes. Não estou a diabolizá-los mas quando digo que não servem para termo de comparação é porque seria o mesmo que estar a comparar um condomínio fechado com guarda à porta com as periferias das grandes cidades onde gentes de diversas origens e culturas são forçadas a encontrar um ponto de equilíbrio nas suas relações. E isso não é fácil. Se os Suíços não gostam que lhes lembrem de onde vem a sua riqueza, também não devem tapar o nariz quando são obrigados a passar ao lado dos que não tiveram a sorte deles. Certamente que Zola explicaria isto melhor que eu.
Sem imagem de perfil

De Costa a 17.06.2014 às 11:44

É absolutamente lícito que tenha as dificuldades que diz ter em digerir as comparações que faço, os exemplos a que recorro. Mas note que eu não escrevi (citando-o) que "se os Suíços não gostam que lhes lembrem de onde vem a sua riqueza, também não devem tapar o nariz quando são obrigados a passar ao lado dos que não tiveram a sorte deles". Não faço ideia - ou melhor, não vem agora à discussão - se gostam ou não, ou se tapam ou não o nariz.

Sei que se a sorte é factor absolutamente aleatório, e tantas vezes crucial, de pouco serve basearmo-nos nela apenas e esperar que não só chegue como tudo resolva a nosso favor. E se isso não acontecer, se a sorte não chegar ou não se tiver sabido aproveitar as oportunidades - aproveitar colectivamente, como comunidade nacional, porque de outras formas elas têm sido magistralmente aproveitadas -, é mau remédio (assim o creio, pelo menos) preferir ficar reiteradamente malcriados e grosseiros, sustentando que a boa educação e a prosperidade dos outros só o são porque foram feitas à custa da miséria alheia e que o nosso mau cheiro é moralmente superior.

O que eu não partilharei consigo é o que me parece ser a sua adesão ao princípio de que toda a prosperidade - do homem branco, do europeu, do chamado "primeiro mundo", helvético ou o que seja - está afinal ferida de um pecado original doloso e indesculpável: ser historicamente construída à custa da miséria de milhões e resguardar-se para lá dos muros de um condomínio fechado e com guarda à porta.

A ideia de que esse homem carrega consigo uma culpa de séculos e que nunca será integralmente expiada, não a perfilho. Não me dou por responsável pelo que os meus antepassados tenham feito (e que ao tempo nem seria reprovável como o será agora, nem - tendo para tanto os meios - prática apenas deles), nem isento de responsabilidades os povos de onde possa provir boa parte desse cacau ou desse dinheiro. Os estados saídos da descolonização do século XX ou das independências latino-americanas oitocentistas estão em grande medida entre os campeões da exploração, da miséria, da desigualdade. Imposta afinal pela sua gente à sua gente. Continuada, descarada e cruelmente, depois da partida, mais ou menos pacífica e voluntária, do colonizador.

O tempo voa e o que parece ter acontecido ontem já o foi há largas décadas, pelo menos, e é tempo de perguntar quem continua a sujar de sangue o cacau, o petróleo, os diamantes, as madeiras, os minérios, as fortunas pessoais, o que seja. Seria, parece-me, tempo de perguntar o que foi feito dos auxílios recebidos (o que, enfim, até remeteria para o nosso plano interno e também num passado que afinal já leva décadas...); é tempo de perguntar para onde vai de facto grande parte das receitas presentes com tudo isso obtidas.

É evidente que não se pode ignorar a sujidade, nem nos devemos tornar em receptadores indiferentes de bens assim maculados. Mas pergunto-me se deveremos continuar a chamar a nós a culpa da desdita de milhões e milhões que terão conquistado o seu pleno direito de cidadania, em territórios mais que promissores em riquezas, apenas para anos depois redundar tudo isso na pobreza extrema de quase todos e na riqueza desmesurada de bem poucos dos seus nacionais? É nossa, também, a culpa disso? É mesmo nossa - dos suíços, minha, sua, daqueles que tem um padrão de vida minimamente aceitável - a culpa da fixação do preço do cacau no mercados internacionais ou das condições da sua produção?

A questão é longe de pacífica, bem sei. E admito que haja aqui, de minha parte, simplismo - mas não falta de fundamento - de raciocínio. Mas ele serve meramente de enquadramento do ponto onde quero chegar. E que é simples e válido, simplista ou não a argumentação: mais que menosprezar e (sei que você escreveu que o não faz) diabolizar o sucesso alheio, seria, julgo eu, de nos perguntarmos onde falhámos e falhamos e de deixar de ver nos nossos defeitos uma marca fundamentalmente benigna de meridionalidade generosa, alegre e até solidária(?), por oposição a uma frieza calculista, emocionalmente tolhida e pouco escrupulosa, daqueles mais a norte (ou ocidente).

Ou então, conformamo-nos como as coisas como estão, aceitamo-las como preço "de não se ser como os suíços" e gostamos até disso. Eu não.

Costa
Sem imagem de perfil

De xico a 18.06.2014 às 19:37

Está muito longe das minhas intenções culpar o "homem branco" ou a colonização. Os meus avós foram colonos que sofreram, ganharam e perderam muito a colonizar. Cheios de boas intenções muitas asneiras terão feito. Todos nós as fazemos. Nada tenho contra a ideia do colonialismo. É precisamente por isso que me insurgi. A suposta superioridade de certas nações mais civilizadas, que não sujaram as mãos indo ao mundo colonizar e explorar e que olham com desdém os que o fizeram, mas que afinal lucram talvez mais do que aqueles que sujam e sujaram as mãos, é que me tira do sério quando chega a hora das comparações. É tão somente isto.
Bem haja pela sua paciência em me responder.
Sem imagem de perfil

De Costa a 19.06.2014 às 13:59

Mal sobretudo desses que fizeram o trabalho sujo, quando o houve, e suportaram ao longo de anos e séculos os riscos e custos, humanos e materiais, da descoberta, da exploração e do transporte, enquanto outros, mais a norte na Europa, comerciavam o que aqui chegava, com bem mais tranquilidade e lucro, pensando em bem mais do que a glória e riqueza imediatas e efémeras (mas se isso lhes era afinal placidamente proporcionado...). Mal nosso - com todo o respeito de quem partiu anonimamente, a (re)começar lá longe e sem mais do que a sua força e inteligência, fundado na confiança que lhe seria afinal traída - e deslumbramento que nos levou a isso que se convencionou chamar dar novos mundos ao Mundo, esquecendo afinal o mundo que era nosso e sempre cá esteve.

Razão tinha, tanta, o tão desconsiderado e erradamente invocado Velho do Restelo.

Sou eu quem lhe agradece pela troca de impressões.

Costa

Comentar post





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D