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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 01.06.14

 

«O número de eurocépticos, na Alemanha, cresce de dia para dia. Fora do euro! Fora da União Europeia! são os seus "gritos de guerra" e encontram muitos simpatizantes. O pior é que a Alternativa Pela Alemanha está muito conotada com a extrema-direita, embora se desmarque do NPD, o partido neo-nazi.

A CDU, ainda assim, venceu por causa da Merkel, ela é que foi figura de cartaz para as eleições europeias, abafando por completo o cabeça de lista do seu partido, David McAllister (sim, é alemão, mas com raízes escocesas).

É uma catástrofe que a extrema-direita tenha tido tantos votos, em certos países. Sempre me defini como sendo "de direita", mas sou franca: preferia que fossem os partidos da esquerda a face do protesto (quando digo de esquerda, não me refiro a socialistas à la Hollande -- essa anedota feita gente -- ou à la Seguro, mas aos ligados à ideologia comunista). Mal por mal, talvez fosse melhor uma modalidade moderna dos velhos comunistas, esses sim, fariam algo de diferente (penso eu).

A Alemanha, porém, nunca virará à esquerda, dando força à Die Linke (uma espécie de BE), pois está traumatizada com a experiência da RDA. Mas também não acredito que virem à direita como os franceses, porque, nesse aspeto, também estão ainda traumatizados. Muito europeus esquecem que os próprios alemães foram dos mais traumatizados com a era Hitler. Nos últimos tempos, tem-se assistido a uma verdadeira expiação de pecados passados. Descendentes de nazis (alguns ligados ao extermínio dos judeus), filhos, mas principalmente netos, usam a sua profissão de jornalista ou realizador de cinema para expor as vergonhas nazis, mesmo que isso implique aceitar o passado horrendo dos seus pais/avós, passado esse mantido em silêncio pela família. É das tais coisas de que não se fala, que se atiram para debaixo do tapete. Mas há quem não pactue com essa política do silêncio. Desenterram a imúndicie, arejam os armários e sacodem os tapetes. À custa de muito sacrifício, não é fácil aceitar e expor tal passado. Quem consegue admitir: sim o meu pai/avô foi um assassino, dos piores que se pode imaginar?

E há muito quem seja contra essa maneira de denegrir a família. Mas os próprios dizem que não conseguem continuar a viver com tais segredos na alma. Pela verdade! E para que o horror não se repita!

Eu estou com eles e admiro a sua coragem!
Para quando algo do género, no nosso país, envolvendo descendentes dos pides? Quando se resolverão essas pessoas a contar o que passaram à altura da revolução, algumas ainda crianças? Não terá sido fácil. E o segredo mantém-se.»

 

Da nossa leitora Cristina Torrão. A propósito deste meu post.

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2 comentários

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De Miguel R a 01.06.2014 às 23:04

Já visitei o Sul da Alemanha e a capital Berlim. O que mais me saltou à vista foi a forma didáctica com que nesta se relembrava o horror nazi, comparando com Portugal em que se botam os crimes do Estado Novo para trás das costas. Veja-se o que aconteceu à antiga sede da PIDE! E isso não se vê só na Alemanha, veja-se o caso Húngaro. Da Europa Ocidental pior que Portugal, talvez só Espanha.
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De Costa a 01.06.2014 às 23:42

Há um sentido de proporcionalidade que facilmente, e com a melhor das intenções, se perde. Com todo o respeito pelas vítimas do autoritarismo do Estado Novo (algumas delas, não se ignore - como insistentemente se ignora, pois a justiça é fatalmente a dos vencedores -, capazes de iguais ou muito piores sevícias se as posições fossem as inversas), Portugal não foi o regime fascista que tanta gente com verdadeira responsabilidade histórica e académica insiste em apontar. Porque não quis sê-lo? Porque não conseguiu sê-lo? Importa que não foi.

Sendo um regime ditatorial, evidentemente lastimável, mais não seja porque tragicamente incapaz de acompanhar os tempos, e arrastando consigo um indefensável legado de arbítrio e desrespeito pelo que se convencionou e bem chamar estado de direito democrático, o regime anterior a Abril de 1974 não foi um totalitarismo bárbaro como o alemão ou o soviético. Não foi o italiano e - não houve por cá guerra civil - não teve a capacidade de vingança asselvajada dos vencedores espanhóis; aliás não exactamente sozinhos no rol de barbárie dessa guerra. Não o foi na perseguição aos opositores (e com isto não pretendo defender ou branquear a que por cá ocorreu), não o foi na absorção do estado pelo partido.

Se por lá a exuberante estética nazi, fascista ou comunista, foi repetida, imposta e aperfeiçoada à náusea - e vai tendo hoje ainda uns países, não exactamente de direita, onde é cultivada - por cá e rapidamente, após umas exuberâncias iniciais (veja-se Rolão Preto), o pretendido é que se fosse "vivendo habitualmente". Menino, sem perceber bem ao tempo o que aquilo significava, ainda tive que vestir uma farda que incluía um cinto com um "S" na fivela; ainda tive que escutar, de pé, ao sol, um tipo cheio de si berrar que esse "S" era o de "Servir", mas bem podia ser o de "Salazar". Mas tudo isso, pelos meus dez anos e por uma única vez, a um sábado de manhã no pátio da escola preparatória. E tudo isso, comparado com o que se sabe de outros regimes, e me mostraram os anos passados, afinal miserabilista e pífio. Ridículo, afinal, de impotência. Risível, se não fosse um estertor trágico.

"Viver habitualmente", ser-se "pobrezinho mas honrado", ter como "política o trabalho", e bastar-se com isso, era um absurdo horrível, importa nunca o ignorar, e querer viver de forma diferente era, inquestionavelmente, uma ousadia que poderia custar terrivelmente caro. E custou a muita gente. Mas o "nosso" Tarrafal, que visitei e me fez tremer, Peniche, Caxias, a António Maria Cardoso, horríveis que tenham sido, foram o que foram numa escala muitíssimo menor (eu diria, infinitamente menor) do que o que se sabe por exemplo das ditaduras alemã ou (bem mais duradora) soviética.

Não sei, por isso, se de um filho ou um neto de um inspector da PIDE se pode esperar - ou exigir - a mesma urgência expiatória de um descendente de oficial das SS ou de campo de extermínio. Ou do KGB ou de gulag (coisa que suponho ainda bem rara; que se publicite, pelo menos). Ou se, esperando-a ou não, ele(a) a sentirá. Reduzir as coisas a grandes números é, bem sei, muitas vezes enganador, injusto, demagógico. Quem sofreu às mãos dessa gente, sofreu humilhações inimagináveis. A sua experiência individual bem pode legitimamente consumir em horror esses outros relatos de milhões e milhões dizimados, Renda-se-lhe por isso a devida homenagem e, em certos casos, acredite-se que, podendo, não inverteria literalmente os papéis.

Mas, sem nunca esquecer o que nunca deverá ser esquecido, era tempo de por cá começar a imperar alguma frieza. Passam quarenta anos, afinal, sobre o fim desses tempos. E, muito que custe a certa liturgia consagrada, não parece que nos possamos pretender incluir - coisa que sempre seria absolutamente dispensável - entre os grandes regimes de horror da primeira metade (e para lá dela) do século XX.

Costa

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