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O camponês da Ventosa

por Alexandre Guerra, em 17.10.17

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Foto de Adriano Miranda/Público

 

Não está a chorar, mas parece que já chorou. E muito. Talvez as lágrimas já se tenham evaporado com o calor infernal das chamas. O seu olhar nada espelha. A alma deve estar vazia… É o olhar de um homem devastado, não pela vida, porque estes são homens duros, habituados às agruras da terra, e muito menos pela Mãe Natureza, com quem deverá ter tido uma relação feliz de muitas décadas. Não, quem o prostrou fomos todos nós, enquanto sociedade, enquanto colectivo social, enquanto Estado, enquanto Nação, enquanto Governo. Fomos nós quem quebrou o espírito daquele camponês da Ventosa e o fez chorar.
A vida foi-lhe poupada pelo capricho cínico das chamas, mas sobre si abateu-se um céu dantesco, como que a lembrar ao camponês que de nada lhe serve a prece que parece estar a fazer, porque ninguém vem em seu auxílio. Está entregue ao seu triste destino, condenado a vaguear e a morrer, um dia, esquecido e sem nada. Até lá, vai sendo traído pelas memórias felizes dos tempos das lides nas suas terras, no trato dos animais, na sua casa, nas suas humildes posses que durante uma vida tentou juntar. Quanto mais a dor se vai instalando no espírito do camponês, mais nós, todos, vamos esquecendo que um dia aconteceram duas calamidades extraordinárias no mesmo Verão, que ceifaram mais de 100 vidas e destruíram literalmente parte de um país. Vamos esquecendo que, por acção ou omissão, acabámos por ser responsáveis pelo “duplo atentado” terrorista que auto-infligimos ao nosso país. E vamos contemporizando com todos aqueles que, pelas inerências das suas funções, mais obrigações têm na resposta de conforto e ajuda àqueles que mais sofreram com tudo o que se passou.
O olhar do camponês da Ventosa, que nos é trazido pela lente do Adriano Miranda no Público, atinge-nos no âmago dos nossos valores e princípios civilizacionais, porque nos lembra que, afinal, aquele Portugal que está na moda, aquele Portugal sofisticado e que é uma "estrela" internacional, é o mesmo Portugal que se deixou destruir, que deixou os seus cidadãos desprotegidos, morrerem barbaramente nas estradas, nas aldeias e vilas. E que vergonha tenho deste Portugal...

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18 comentários

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De Pedro Correia a 17.10.2017 às 18:16

Fabulosa foto do Adriano Miranda, um dos melhores fotorrepórteres portugueses, e com excelente tratamento gráfico no 'Público'. Jornalismo do melhor.
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De Anónimo a 17.10.2017 às 18:26

já somos dois..."E que vergonha tenho deste Portugal..."
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De Anónimo a 17.10.2017 às 18:27

". E que vergonha tenho deste Portugal..." Vergonha!!? Se você fosse alemão ou sírio ou .... que diria?
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De jerry khan a 17.10.2017 às 19:09

o infeliz não é funcionário público
nunca fez greve
nunca gritou a 'luta continua'

lixou-o um F da P
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De Vlad, o Emborcador a 17.10.2017 às 19:30

Existem vidas que mais não são que vinganças sobre o maldito destino que ela nos dá.
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De jo a 17.10.2017 às 19:35

Não pertence a Portugal?
Foram só os outros que falharam?
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De Luís Lavoura a 18.10.2017 às 12:06

Ele também falhou. Se a casa ele ardeu da forma que se vê na imagem, é porque ele também falhou.
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De Beatriz Santos a 17.10.2017 às 20:58

Tem razão, falhámos todos. Porque após quatro meses tudo continua igual, os mais desprotegidos continuam entregues a ninguém. E deixamos que um governo deste calibre avance no seu caminho de flores aparentes. A capacidade de um governo vê-se nestes momentos. E o que se viu é lastimável. Mais, é inadmissível, a vida humana é o bem mais precioso, aquele por que um estado de direito devia zelar prioritariamente. Pactuamos com quem diz que os portugueses têm que ser adultos; ou resilientes às calamidades naturais (como se, neste caso, não sejam fruto de muito desleixo e pouco zelo por parte de quem manda), têm que se habituar a morrer queimados, talvez. Pactuamos com quem após quatro meses se atém a um relatório que até não fez e propõe uma mudança no ordenamento das florestas. Mas onde é que esta gente tem a cabeça que não lhes pesa tanta morte na consciência, que não pede desculpa aos portugueses por ter deixado tudo igual. A culpa é de todos, mas mais de uns que de outros. E um dia podemos ser nós a arder numa estrada sem regresso; a perder tudo já no final da vida, sem a ajuda de ninguém. Sozinhos
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De jo a 17.10.2017 às 23:12

Os problemas na floresta não começaram há quatro meses. O que tem sido feito?

Tenho visto aplaudir de pé e com ovações medidas que fomentam a desertificação do país, como fecho de escolas, centros de saúde, maternidades e hospitais.
Tenho visto clamar que é preciso poupar na máquina do Estado e por isso corta-se nos guardas florestais, nos efetivos da GNR, na limpeza das matas.
Tenho visto clamar que é necessário deixar o privado gerir o que é privado, por isso ninguém deve exigir limpezas nem deve haver planos centrais, deve cada um plantar o que necessita e limpar como pensa ser melhor.
Tenho visto gente dizer que o aquecimento global é uma mariquice das esquerdas e que o clima não está a mudar coisa nenhuma, logo não deve ser considerada essa hipótese.
Tenho visto que a rigidez dos gastos orçamentados se deve sobrepor a tudo: Se a fase Charlie acaba em 30 de setembro, acaba em 30 de setembro quer chova ou faça sol, que não pode haver derrapagens orçamentais.

Agora o governo pede desculpa, a ministra é despedida, o presidente chora uma lágrima e a vida e os negócios continuam.

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De am a 17.10.2017 às 22:39

Foto marcante, um dos dos melhores textos que já li sobre os fogos..
......
A margem do poste, seja-me permitido enviar um recado ao Chefe Estado Maior do Exercito :-- Numas das reportagens da SICN -... Os militares que ajudavam os bombeiros no terreno, estavam fardados de camuflado... Como o V. Excia deve saber (talvez através do Sr Ministro da Defesa) o camuflado, como o nome indica é para camuflar, esconder, confundir com a área de actuação...
Por, isso, para que não "sinta mais um soco no estômago" mande-os para o terreno com coletes reflectores...

Peço desculpa ao sr. articulista por este desvio.
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De João Marques a 17.10.2017 às 22:56

"Fomos nós todos" o caralho! Não me coloque no saco da súcia de bandidos que há décadas mantém este miserável país num garrote pelo pescoço, em lenta asfixia. Esse é o caminho da culpa que morre solteira, esse odioso "somos todos nós".
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De V. a 18.10.2017 às 00:33

Vergonha nunca. Fúria, vezes de mais.

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