Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Novos alquimistas: os bancos

por Rui Herbon, em 09.05.14

 

Os economistas só se lembram de Santa Bárbara quando troveja. E agora que estamos empapados até aos ossos toca a recuperar os certeiros estudos de Minsky e Kindleberg sobre a origem e desenvolvimento das crises financeiras, uma análise que foi convenientemente relegada para os sótãos da memória colectiva da profissão e que hoje retoma a sua relevância.

 

O fundamental não é o ciclo económico – produto de uma queda na rentabilidade marginal do capital – mas o financeiro, isto é, o fluxo de crédito que em excesso acaba por atolar a actividade económica. A evolução de um ciclo financeiro pernicioso é fácil de detectar: a exuberância de crédito volta-se invariavelmente para o sector imobiliário criando distorções de preços e desviando recursos e mão-de-obra para bolhas sectoriais que são insustentáveis a longo prazo.

 

É o sector bancário, mal regulado e pior supervisionado, que propicia e inicia essa abundância intoxicante através da sua capacidade de criar dinheiro sob o sistema de reservas fraccionárias. Na sua monografia sobre a criação de dinheiro no sistema económico moderno, o Banco de Inglaterra assinala que são os depósitos bancários, e não a moeda em circulação, os responsáveis por 97% da massa monetária; depósitos que particulares e empresas utilizamos diariamente debitando os nossos gastos e creditando os nossos rendimentos sem necessidade de manejar moeda. Meros registos bancários, como também o são os créditos concedidos que se constituem como depósitos a favor de, sem outro amparo além da obrigação de pagamento contraída pelo devedor.

 

Persiste a ideia primária de que são os depósitos dos clientes o que os bancos intermedeiam e transformam em crédito. Nada mais distante da realidade. É o banco, em função da sua avaliação do risco, que ao conceder um crédito cria depósitos, quer dizer, dinheiro efectivo a partir do nada. Levando o argumento ao extremo, um banco poderia conceder um crédito de um milhão de euros sem ter um cêntimo em depósitos, contando apenas com a promessa de pagamento do devedor. Se não puder ou não quiser recorrer ao mercado interbancário, poderá fazê-lo junto do seu Banco Central para obter a liquidez de que necessita financiando-se à módica taxa de 0.25%, com o fim de fazer face aos levantamentos que o beneficiário do crédito realize.

 

São portanto os bancos e não os governos que manejam em grande medida a máquina de criar dinheiro, ao conceder créditos e os depósitos resultantes mediante um simples registo bancário. São os novos alquimistas. Claudio Borio do Bank for International Settlements (o banco central dos bancos centrais, com sede em Basileia) assinala que é no apogeu da expansão do crédito que encontramos a origem das conseguintes crises bancárias, crises especialmente severas que com uma duração média de dez anos deixam o sector à beira do colapso e necessitado do resgate por parte dos estados. Um resgate inevitável se se quiser prevenir o colapso de toda a trama da actividade económica que depende dos serviços bancários para o seu funcionamento.

 

Essa primeira etapa, a do resgate, foi implementada na Europa com êxito. A hemorragia foi estancada. Agora entra em campo a segunda fase: reparar os balanços e implementar as reformas necessárias, especialmente as que afectam o ordenamento e o desenho do sistema bancário. Uma exigência que é amplamente aceite como a única maneira de não voltar a tropeçar pela enésima vez na mesma pedra.

 

Num artigo publicado pelo Financial Times recentemente, Strip private banks of their power to create money, o seu mais destacado colunista, Martin Wolf, declara-se a favor de devolver a gestão da massa monetária aos bancos centrais e acabar com a actual capacidade da banca para gerar poder aquisitivo sem contrapartida. Só os depósitos de clientes poderão ser intermediados como créditos a terceiros e esse será por sua vez o limite da criação de crédito, ou seja, defende uma banca com reservas de 100%.

 

Uma coisa é certa: continuar com as mesmas estruturas e esperar na próxima crise um resultado diferente é estúpido. Há que repensar a banca e as suas funções, num debate que deverá ser aberto, inovador e sem estridências políticas de ocasião.

Autoria e outros dados (tags, etc)


12 comentários

Sem imagem de perfil

De da Maia a 09.05.2014 às 14:17

A situação só mereceria análise se for feita uma lobotomia histórica.
Os processos especulativos servem um propósito, que foi tempos a tempos tornado sistemático, principalmente desde o princípio do Séc. XIX, mas começou a ser estabelecido na Idade Moderna com as Companhias das Índias. O fim dessas Companhias, no Séc. XIX, e a sua substituição por Bancos e Bolsas, levou a uma sistematização dos métodos.

Na prática, o standard do ouro foi abandonado no Séc. XX porque se quis esconder a visibilidade da falência. Se a moeda estivesse associada ao ouro, quando esse ouro terminasse, ficava evidente a falência completa.
Os miseráveis não eram produtivos, criariam instabilidades sociais, revoltas, etc.

A ideia mais simples foi criar medíocres e não miseráveis.
Ao medíocre dá-se a esperança de sair da miséria, iludindo-o com a cenoura do crédito.

Quando os espanhóis chegaram à América, os Aztecas ou Incas tinham ouro para comprar todos os soldados espanhóis. No entanto, era evidente que não era o mercado livre que definiria essa história. O ouro que entregavam, muito do qual a bem, para pagar resgates, apenas servia para alimentar o mercado do invasor, e os próprios alimentaram a sua ruína.

Por isso, seria absolutamente ridículo haver conversas de regulação do mercado, na esperança de que um financiador Inca fosse um player igual ao espanhol.
Não era.
Não era. Ponto final.
Com a China foi mais complicado, mas as Guerras do Ópio, e as falhadas revoltas dos Boxer, esclareceram o assunto.

Pensar que já não há armas no mundo e que o mercado é livre e pode ser regulado não é ser miserável, é aceitar a mediocridade.
Sem imagem de perfil

De William Wallace a 10.05.2014 às 03:41

Sem imagem de perfil

De l.rodrigues a 09.05.2014 às 15:00

Apoiado.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 09.05.2014 às 15:02

uma banca com reservas de 100%

É uma ideia muito gira mas corresponderia a uma brutal contração da capacidade de crédito. E o crédito é uma coisa boa (tal como qualquer português que tenha comprado uma casa com empréstimo bancário poderá confirmar).
Sem imagem de perfil

De Vento a 09.05.2014 às 15:24

Antes de tudo o mais quero dizer-lhe que no essencial perfilho o texto que acaba de publicar. Já antes tinha abordado este aspecto num post de Luís Menezes Leitão, aqui:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/sentido-de-perspectiva-6286516#comentarios

No entanto, essa que o resgate funcionou na Europa só é certa se tiver em conta que os bancos foram resgatados, mas não se aplica à actividade económica de um país nem ao desempenho governativo submetido a esse programa. Consequentemente, os balanços e as reformas, que eram os objectivos primeiros dos resgates, vão por água abaixo. E vão na medida em que a economia que hoje vivemos não é uma economia familiar, independente e autónoma.
Esta economia de dependências tem exigido défices a uns para os superávits de outros. Isto é, criou-se um esquema entre os que produzem e/ou fabricam e os que consomem. A situação do resgate, por conveniência, só temporariamente mascarou esta situação. Mas com os grandes países a entrarem em derrapagem económica, com a redução de encomendas às industrias, os défices e as dívidas voltarão a ser exigidas.
Se por outro lado entendermos que a economia das nações passa pela existência de uma estrutura produtiva igualitária verificaremos que a mesma não funcionará a não ser através dos isolamentos das nações e do regresso às pautas. Basta centrarmo-nos no exemplo da China que, subvertendo as normas existentes a ocidente, e fazendo com este deslocasse parte de seu sector produtivo, contribui para que a rectaguarda compradora europeia e americana (os consumidores) entrasse em colapso.
Neste sentido, o que há efectivamente a mudar é o sector financeiro que coloca produtos virtuais e negócios virtuais onde não existe negócio, mas jogo. Que funciona com base em expectativas das quais as shortsellings servem de exemplo.
Sem imagem de perfil

De teixeira a 09.05.2014 às 15:32

"Se não puder ou não quiser recorrer ao mercado interbancário, poderá fazê-lo junto do seu Banco Central para obter a liquidez de que necessita financiando-se à módica taxa de 0.25%, com o fim de fazer face aos levantamentos que o beneficiário do crédito realize."
A banca a ser mafia; o central será o padrinho.
Sem imagem de perfil

De tete a 09.05.2014 às 16:03

"um banco poderia conceder um crédito de um milhão de euros sem ter um cêntimo em depósitos, contando apenas com a promessa de pagamento do devedor". Quem não conhece não deveria falar...e os rácios que os bancos têm que cumprir???????são feitos nas nuvens?????????
Imagem de perfil

De Rui Herbon a 09.05.2014 às 16:47

Que parte de "levando o argumento ao extremo" não percebe?
Sem imagem de perfil

De msc a 09.05.2014 às 19:44

A compreensão do mecanismo de criação de moeda escritural tem anos, pelo que a proposta parece consistir no monopólio da concessão de crédito aos bancos centrais. Não é uma novidade e já existiu sob Staline, mas não deu muito resultado.
É que não são apenas os bancos que criam crédito: todos nós. E se os particulares o fazem em quantias pequenas (quando emprestamos ou pedimos dinheiro emprestado a amigos), as empresas fazem-no em grandes somas - e há centenas de anos.
Não estou a ver como é que se retirava essa possibilidade da concessão de créditos entre empresas que nem os soviéticos conseguiram controlar.
Sem imagem de perfil

De William Wallace a 10.05.2014 às 03:39

Este post parece saído de uma qualquer tese socialista .

O que este post diz basicamente é que é assim que se faz e assim vai continuar porque os player`s do casino em que se tornou a economia financeira, dominam os políticos quaisquer que sejam e nada há a fazer.

Quem assim escreve não pode defender as politicas deste governo (como tem defendido em vários post ´s) que sistematicamente protege os lobbys bancários e grandes monopólios privados encostados no OE que defendem a economia de mercado e o capitalismo selvagem mas á 1ª dificuldade em garantir rendibilidades obscenas em negócios com clausulas leoninas começam logo a chorar por apoios do Estado (TODOS NÓS).

A actividade bancária é deficientemente regulada e supervisionada e está sempre associada a negócios poucos transparentes, alguns mesmo criminosos e no entanto por mais dinheiro que eu tenha não posso abrir um banco, provando-se aqui mais uma vez que só uma pequena elite pode aspirar a CONTROLAR os destinos de milhões a seu bel-prazer com a ilusão do crédito que no fundo é o garrote da dívida.

Sem imagem de perfil

De JS a 10.05.2014 às 23:27

Rui Herbon : subscrevo o que tenta explicar. Por outro lado os peixes têm alguma dificuldade em compreender o que é água ... até que ela lhes falte. E isso até acontece.
Sem imagem de perfil

De Justiniano a 12.05.2014 às 14:04

É extraordinário, caro Rui Herbon, o quão plausível parecem as teorias da Escola clássica de Salamanca e da Escola Austríaca. Junta-se-lhe os nomes de Mises, Hayek e, aposto, não teria metade das palmas!!

Comentar post





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D