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No país dos brandos costumes

por Ana Vidal, em 11.07.15

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Algumas notas minhas, à margem deste artigo que subscrevo.


1. Fiquei genuinamente espantada (chamem-me naif, devo sê-lo) por constatar que a cabeça nua de Laura Ferreira teve, da parte da esmagadora maioria das pessoas, uma leitura política. Prova-o um facto incontestável: salvo raras excepções, quem é de direita aplaudiu o gesto, quem é de esquerda criticou-o. Onde eu vi apenas uma mensagem pessoal, simples e corajosa, dirigida às mulheres que passam por este calvário tão comum, como quem diz "Uma mulher não deixa de ser inteira por não ter cabelo", muita gente viu um frete eleitoralista, um apelo à piedade ou à simpatia política, ou simplesmente a exibição de uma intimidade incómoda que deve permanecer escondida, sobretudo quando se trata de uma figura pública.


2. Presumir que Laura Ferreira se sujeitaria a este grau de exposição pessoal (e à violência dos comentários que se lhe seguiram, que ela, mais calejada nestas coisas do que eu, provavelmente previu) por outros motivos que não uma decisão pessoal, é duplamente ofensivo. Por um lado, é negar-lhe o direito a vontade, agenda e intenções próprias, fazendo dela um mero fantoche do marido. Por outro, é atirar-lhe à cara que não tem o amor e o respeito dele, se assim oferece à turba, implacável e com as piores intenções, a sua pretensa fragilidade, sem que ela sequer se aperceba disso. Ou, pior ainda, percebendo a marosca mas aceitando o papel, submissa e acéfala. Ou seja, é chamar-lhe imbecil e/ou conivente. Em qualquer dos casos, feitas as contas, tudo isto é profundamente machista. Diz-se-lhe que fique em casa, quietinha e discreta como costumava ser, pelo menos até estar apresentável outra vez.


3. Se as medidas de austeridade impostas por Passos Coelho chegaram ao extremo de negar tratamentos eficazes a doentes oncológicos porque são caros, grite-se bem alto esse atropelo ao direito dos cidadãos portugueses à dignidade e aos cuidados de saúde. Exija-se o recuo, a mudança. Mas não se misture tudo numa açorda de ódio que acaba por ter como alvo uma mulher que é, ela própria, uma doente oncológica. A frustração leva muitas vezes as pessoas a limites de crueldade, caindo nos mesmos erros que apontam aos outros. Muitos dos comentários críticos que li nas redes sociais são de uma violência sub-humana.

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22 comentários

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De Sem Norte a 11.07.2015 às 04:41

Comentei no blog da Estrela Serrano (vaivém):

- ... Peço desculpa antes de mais, mas você é do mais reles que existe, há limites mesmo na guerra que não se deve ultrapassar, mas os seus pais não lhe deram suficiente educação. Mas com isto não quero atacar os seus pais, apenas verificar que foram insuficientes...

No ano passado vi na minha família alguém com saúde no espaço de 1 ano detectar a doença e falecer devido ao cancro, este post da estrela serrano é do mais vil que já assisti, só espero que ela nunca tenha de viver esta situação na família dela.
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De Ana Vidal a 11.07.2015 às 12:06

Infelizmente não foi uma opinião isolada, antes fosse. A crítica ácida pegou como um rastilho na esquerda, tem sido um festival de iniquidades. Enfim.
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De kika a 11.07.2015 às 04:45

Grande coragem num país como o nosso.
Nos outros países ditos " civilizados" a maioria
das mulheres que atravessam esta fase terrível
assumem ficarem sem cabelo.
Nem esquerda nem direita
simplesmente dignidade .
D. Laura Ferreira as mulheres como eu agradecem . Bravo
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De Ana Vidal a 11.07.2015 às 12:11

Dignidade, simplicidade, auto-confiança. Eu não sei se teria a coragem de fazer isto, confesso.
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De Sérgio de Almeida Correia a 11.07.2015 às 05:15

Tens toda a razão.
A ela tiro-lhe o chapéu. E espero que recupere depressa.
Acho que é a única coisa que perante tal situação se pode dizer. Há situações em que ninguém corre por gosto ou por interesse.
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De Ana Vidal a 11.07.2015 às 12:11

É isso, Sérgio. Somente isso.
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De Agoniado a 11.07.2015 às 08:16

Misturar política com este caso é, apenas e só, NOJENTO. ASQUEROSO. De gentalha que nunca chegará a calcanhares de humanos.
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De Ana Vidal a 11.07.2015 às 12:13

De gente que está frustrada, sob pressão, e descarrega o ódio em quem lhe parece mais fraco. Neste caso enganam-se redondamente, é preciso ter-se uma enorme força interior para um gesto destes.
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De marquês barão a 11.07.2015 às 08:39

Pasme-se. Essa "esmagadora maioria das pessoas" é a tal que condena a burca.
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De Ana Vidal a 11.07.2015 às 12:14

Verdade. E acho que nem percebem a contradição.
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De José António Abreu a 11.07.2015 às 09:04

E andavas tu afastada do Delito, a fazer sabe-se lá o quê...
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De Ana Vidal a 11.07.2015 às 12:14

Mas já cá estou outra vez. :-)
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De Ana Vidal a 11.07.2015 às 12:15

Ah, afastada do Delito mas não dos meus delituosos amigos. Isso nunca.
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De Cristina Nobre Soares a 11.07.2015 às 10:38

" Por um lado, é negar-lhe o direito a vontade, agenda e intenções próprias, fazendo dela um mero fantoche do marido". Sem dúvida, Ana. De total acordo.
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De Romão a 11.07.2015 às 11:35

Bom...daqui fala um rapaz que teve um linfoma e passou meses a mamar com citostaticos e aquilo não foi nada bom! Vou tendo a sorte de escapar ao contrario de muitos.
Pois, o cancro é uma bela merda, está á espreita e é bom que aprendamos a viver com ele da forma mais natural possível.
Fazer qualquer leitura politica do facto de uma pessoa ter um cancro é coisa de dementes. Valerão sempre menos que o meu cão.
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De Leonor Barros a 11.07.2015 às 12:49

Já falámos sobre este assunto no meu post mais abaixo, mas é claro que concordo contigo.
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De maria madeira a 11.07.2015 às 13:04

Fiquei em choque com o que fui lendo por aí. Algumas pessoas, demasiadas na minha opinião, são de uma crueldade impressionante. Existe um argumentista, que muitos dizem ser inteligente (vá-se lá saber o que é isso da inteligência) que foi rasteiro, cruel, imbecil. Peço desculpar pelo termo imbecil mas andei aqui às voltas e não me ocorreu outro.

No meu caso a minha revolta é maior ainda porque perdi a minha mãe com cancro. E, francamente, não entendo este tipo de gente. Gente que não entende o sofrimento porque passam as pessoas com doenças oncológicas. E sim, perder o cabelo tratando-se de uma mulher é dramático. Não é fútil, é dramático. Como filha, vi a minha mãe, uma senhora muito bonita (sou suspeita, bem sei, por dizer isto, mas era realmente uma senhora bonita) entristecer de dia para dia. Também eu fui entristecendo de dia para dia. Não é fácil ver pessoas de quem gostamos desaparecer definitivamente levadas por uma doença que acaba por "matar" também um pouco os filhos. A família.

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