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Na morte de Jerry Lewis

por Pedro Correia, em 20.08.17

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Certos actores são inimitáveis: Jerry Lewis era um deles. Vi-o, como qualquer de nós, em dezenas de filmes. Mas também o vi uma vez em palco, já ele andava nos 70 anos. Ninguém diria que tinha essa idade: cantava, dançava, cabriolava com uma energia inesgotável no musical Damn Yankees, de George Abbott, Douglass Wakllop (letra), Richard Adler e Jerry Ross (música), nas tábuas do Golden Gate Theater, em Market Street, no centro de São Francisco.
Ainda hesitei em aguardar por ele à saída, para lhe caçar um autógrafo, ao princípio dessa noite de Setembro de 1996: afinal, Jerry Lewis foi um dos ídolos da minha infância.
 
Mal surgia no ecrã, despertava um festival de gargalhadas nas suas comédias de início de carreira em parceria com Dean Martin. O último filme que rodaram juntos – Pintores e Raparigas, de Frank Tashlin, película de 1955, o mesmo ano em que Damn Yankees estreou na Broadway – é uma obra-prima do género, com a vantagem acrescida de incluir uma esplendorosa Shirley MacLaine, então a dar os primeiros passos no cinema.
Dez anos depois, sempre em registo de comédia, o actor nascido com o nome de Joseph Levitch a 16 de Março de 1926, em Newark, Nova Jérsia, protagonizou um dos raros filmes que me fizeram rir até às lágrimas: Boeing, Boeing, hilariante longa-metragem sobre troca de identidades realizada por John Rich em que Jerry se revelava no auge das suas magníficas capacidades como comediante.
Mas talvez o seu melhor filme tenha sido afinal um drama: O Rei da Comédia, de Martin Scorsese (1983), ao lado de Robert de Niro. A Academia de Hollywood podia e devia ter-lhe dado um Óscar por esse trabalho que desmontava com implacável lucidez os frágeis mecanismos do sucesso televisivo. Nada feito: os académicos costumam torcer o nariz a actores oriundos do reino da comédia, esse género que teimam em considerar menor. Pelo mesmíssimo motivo, nem um gigante como Chaplin conseguiu uma estatueta com clássicos como Luzes da Cidade ou O Grande Ditador.
 
Naquele dia, acabei por trocar o autógrafo de Jerry Lewis pelo de Suzanne Vega, que actuava a curta distância, na Virgin, também em Market Street. Improvisando um recital com uma simples viola na mão e um ar doce, quase tímido, como se pedisse desculpa pela súbita fama de que gozava.
Confesso: gosto de ver o meu nome escrito por ela na dedicatória que me deixou no disco Nine Objects of Desire, que tem uma canção deliciosa: World Before Columbus, com uma letra que rapidamente memorizei: "If your love were taken from me / Every color would be black and white / It would be as flat as the world before Columbus / That's the day that I lose half my sight // If your life were taken from me/ All the trees would freeze in this cold ground / It would be as cruel as the world before Columbus / Sail to the edge and I'd be there looking down."
 
Mas ainda hoje me arrependo de não ter esperado antes por Jerry Lewis à porta dos actores no Golden Gate.
 
Texto reeditado em homenagem a Jerry Lewis, hoje falecido aos 91 anos

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18 comentários

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De xico a 20.08.2017 às 22:07

Pode parecer má vontade, mas não é. Desde a minha infância que nunca percebi qual era a piada de Jerry Lewis, quando todos à minha volta gargalhavam. A mim sempre me causou um sentimento de mal estar pela patetice que via: é que o homem não tinha piada nenhuma...!
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De marlene figueira leve a 20.08.2017 às 23:11

Cada um ri daquilo que acha piada.
Eu acho piada a Jerry Lewis e ri muito com ele.
Tive um professor de Semiótica Histórica que achava piada a quem dizia «auto de fé» e não «auto da fé».
Opiniões.
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De Anónimo a 21.08.2017 às 01:00

Afinal em que ficamos?
"Cada um ri daquilo que acha piada" ou "Opiniões"?

Diz-me o que te faz rir, dir-te-ei quem és
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De sampy a 21.08.2017 às 01:41

Eu sou dos que está à espera de Jerry Lewis em 2025.
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De Pedro Correia a 21.08.2017 às 23:47

Nesse ano, em que ele seria um jovem com 99 anos, vai estrear-se enfim 'O Dia em que o Palhaço Chorou', um dos mais célebres filmes invisíveis de todos os tempos, realizado por ele em 1972.
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De Anónimo a 21.08.2017 às 04:05

Pintores e Raparigas não foi o último filme da dupla.
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De Pedro Correia a 21.08.2017 às 21:40

Tem razão. Esse foi o último que eu vi.
O último da dupla foi este:
https://en.wikipedia.org/wiki/Hollywood_or_Bust
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De Makiavel a 21.08.2017 às 10:06

Nunca fui fã do tipo de humor de Jerry Lewis. Muita careta, muita estupidificação, muito ridículo.
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De Pedro Correia a 21.08.2017 às 21:42

Eu desconfio sempre do humor unânime e dos cómicos que agradam a todos em simultâneo.
É salutar haver discordâncias, como é o caso.
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De Makiavel a 21.08.2017 às 22:02

Assim de repente, não me estou a lembrar de nenhum humor que tivesse sido unânime.

Não posso negar que alguma vez tenha rido com filmes do Jerry Lewis.
Apenas acho o humor dele baseado em figuras ridículas que os seus personagens fazem. Não é o meu tipo de humor.
Um pouco na linha de Abbott & Costello ou Irmãos Marx.
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De Pedro Correia a 21.08.2017 às 22:25

Jerry Lewis é herdeiro do 'slapstick', dos primeiros filmes mudos, do Chaplin inicial.
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De Makiavel a 21.08.2017 às 23:33

Herdeiro na técnica, que não no conteúdo.
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De Pedro Correia a 21.08.2017 às 23:36

Revejo-me nas palavras do João Lopes, que hoje escreve no DN: «Figura absolutamente insubstituível na história da comédia cinematográfica, [Jerry Lewis] gostava de citar Chaplin e Stan Laurel (da dupla Bucha e Estica) como os seus mestres.»
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De Shadows a 21.08.2017 às 12:00

Pedro,

Jerry Lewis foi um génio. Marcou uma época e abriu espaço a uma comédia invulgar, inteligente mas simples.
Dos filmes da dupla Martin e Lewis, o "Hollywood or Bust" é o meu preferido. Com a Anita Ekberg a espalhar charme...

Tempos de ouro.
Abraço
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De Pedro Correia a 21.08.2017 às 21:45

Foi o último da dupla. Eu gosto muito dos filmes que ele realizou e/ou interpretou depois, como 'Boeing Boeing' ou 'As Noites Loucas do Dr. Jerryll'. Foi precursor de muitos cómicos das gerações seguintes - de John Cleese a Jim Carrey.
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De Anónimo a 21.08.2017 às 12:11

um rapaz sem igual, que me fez ser duma outra maneira, limitou-me os meus passos na estrada da vida, apelava ao senso e ao bom humor, devemos e deveríamos ser como ele, um rapaz sem preconceitos, com as damas era um herói, revelava os sentimentos de que as mulheres esperam que tenhamos com elas, ser alegre e jovial naquele tempo era quase como ir a bar, e haver uma zaragata por noite, ele era o contrário fazia-nos chorar em lágrimas de tanto rir.

Que estejas em paz na companhia dos que mais amaste.
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De Pedro Correia a 21.08.2017 às 21:45

Muito bem, bonito texto.
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De OBLADI OBLADÁ a 21.08.2017 às 12:30

Antes de mais, paz à sua alma. Vi um ou outro filme do actor. Mas não sou bota-abaixo como o XICO. É claro que o humor é assim uma coisa, a modo de uma coisa, uma coisa... Há pessoas que nos fazem rir. Por exemplo, o monhé costa. Morreram dois cidadão portugueses no estrangeiro e ele foi lá. Morreram 60 e tal cidadãos portugueses em Pedrogão e o gajo foi de férias. E pergunta-se: onde está a piada? Pois... é como o Jerry Lewis, ó XICO. Não tem nenhuma.

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