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Na expectativa

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.07.17

É certo que a distância e o tempo nos dão uma outra visão das coisas. Se por um lado podemos amadurecer ideias e conhecimentos, afastando-nos da poeira dos dias, ao mesmo tempo tornamo-nos mais distantes em relação aos que nos são mais ou menos próximos. E as avaliações sobre o que as notícias nos trazem em relação ao trabalho que aqueles vão fazendo, num presente que nos é longínquo por força das circunstâncias da própria vida, são em muito balizadas pelo conhecimento anterior que se tem do trabalho que fizeram, ou que não fizeram, e do seu carácter, ou da falta dele. Este tipo de juízos não raro é injusto, sem que com isso seja menos sincero ou menos leal. As pessoas, às vezes, também mudam, e os erros corrigem-se.

Vem isto a propósito das alterações promovidas pelo primeiro-ministro no seu governo, mormente nalgumas secretarias de Estado. Não havendo insubstituíveis, e com muito trabalho pela frente, era natural que, mais dia menos dia, fosse necessário indicar alguém para os lugares que vagaram. E que isso se fizesse com brevidade, aproveitando-se a ocasião para ajustar a máquina, substituindo mais um ou outro elemento que estivesse com dificuldades na sua área ou que já tivesse dado provas de desajustamento político e/ou técnico. O objectivo de qualquer líder é ter uma equipa capaz, de confiança e que funcione de maneira a que a carta possa ser levada a Garcia em tempo útil, não ficando condicionado pelo aparelho partidário, a máquina da propaganda (todos têm uma) ou a comunicação social.

Não posso, por isso mesmo, estranhar que o primeiro-ministro tenha resolvido mexer na equipa de secretários de Estado, embora já me pareça esquisito que depois do que aconteceu na Defesa e na Administração Interna os ministros titulares dessas pastas se mantenham em funções. Se na Administração Interna, no limite da tolerância, ainda é possível admitir uma permanência em funções da senhora ministra, apesar do mais do que evidente desconforto pelo exercício do cargo, já na Defesa o caso pia diferente. O problema aqui não é apenas de desconforto. É difícil considerar um mero erro de casting um verdadeiro equívoco político que ainda por cima vem embrulhado em sobranceria.

Gostaria de recordar que os currículos académicos e profissionais não são só por si garantia de um bom desempenho político, de uma gestão equilibrada e de um contributo que acrescente alguma coisa. Isso dependerá também da vontade de cada um, da forma como se predispuserem a exercer as funções e também da sorte, que nestas coisas, como em tudo na vida, conta muito mais do que parece.

Confio assim, à distância, que as escolhas serão as melhores, que as mexidas vêm no tempo certo e irão surtir o efeito desejado, e que o primeiro-ministro está atento. Não quero com isto dizer que esteja tranquilo. Não estou, e não é apenas por causa dos números da dívida pública, cujo crescimento verificado nos últimos meses me deixa muito apreensivo.

Sucede que também desconfio de algumas mudanças, em especial quando não havia notícia de maus desempenhos e em causa estava gente séria e competente. A mim não me é indiferente a substituição de A por B desde que sejam ambos do partido, como não passo a aplaudir se o que sai não tinha cartão de militante e o que entra tem. Nunca foi o meu critério. Não é essa a minha preocupação, não é por essa contabilidade de merceeiro, tão do agrado da tralha de algumas secções e concelhias, que me guio.

Mas é claro que se há mudanças mais do que óbvias para qualquer cidadão, como seja a necessidade de substituição de quem se demitiu ou de quem mostrou não servir, há outras que precisam de ser devidamente explicadas aos cidadãos e aos militantes, que são os olhos e os ouvidos do partido, e os seus embaixadores junto do eleitorado. Tomar os outros por parvos (os eleitores não são estúpidos) não é um bom princípio em política. E, normalmente, costuma dar maus resultados, ainda que para desgraça do País a oposição esteja de rastos, não se recomende a ninguém, esteja entregue a quem já demonstrou não ter qualquer vocação, competência ou talento para sê-lo e que até para fazer um discurso em sede parlamentar tenha de recorrer ao que outros escreveram nas redes sociais. Um desastre.

Ouvir os outros continua também a ser um bom princípio, em especial se aqueles a quem se recorrer for gente que não depende do partido, nem anda à caça de uma promoção, de um estatuto ou de uma mordomia, para si ou para os familiares e amigos mais próximos. E hoje em dia, devíamos todos sabê-lo pelos maus exemplos que fomos tendo, dos mais recentes aos mais remotos e que ainda estão bem frescos, não é só a mulher de César que tem de ser e parecer séria. É César e a família toda, incluindo filhos, sobrinhos, afilhados, sem esquecer as concubinas e a criadagem. Por isso houve quem, sendo sério, por causa de uns míseros bilhetes para ir à bola, seja agora obrigado a ver pela televisão o que falta do campeonato, com claro prejuízo para todos.

Aos que saem agradeço o que fizeram por todos. Aos que entram desejo que sejam capazes de se superarem e fazerem o melhor. Nós cá estaremos para ir vendo e analisando o que por lá fizerem. Sem palas, amizades de circunstância ou fidelidades de sacristia. Já sabem que há peditórios para os quais nem a brincar podem contar comigo.

 

P.S. Aproveito para enviar daqui um abraço ao Miguel Freitas, que já apareceu carimbado como "segurista" e "homem do aparelho". Por mais carimbos que lhe coloquem, e a gente sabe de onde eles vêm, será difícil, ao contrário de outros que por lá andam há muitos anos sem fazerem nada que se veja para além de limparem o pó das cadeiras por onde vão passando com o cartão do partido, não esperar muito dele. Pela sua capacidade de trabalho, pelos seus conhecimentos na área da Secretaria de Estado que vai dirigir e pela sua seriedade. Espero que se rodeie de gente capaz, sem olhar à cor do cartão, e mostre o que vale. O País não é só Lisboa, todos esperam muito dele e o Algarve estará, com mais do que justificada razão, com atenção redobrada ao seu trabalho. Eu também.

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2 comentários

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De Vento a 14.07.2017 às 08:07

A dívida nunca me preocupou. O que me preocupa é o facto de não existir uma renegociação da dívida.
A obsessão do défice impede o investimento por parte do estado. E quando falo em investimento do estado não me refiro aos jobs for the boys nem tampouco ao aumento de salários na função pública.
O desemprego, incluindo o emprego precário, está uma ruína. Ruína esta também encapotada por uns cursitos ditos de formação profissional que não formam nada nem ninguém para além de dar continuidade a um plano de emprego precário de formadores.

António Costa avançou com um plano de cosmética para tentar adormecer a nação através de umas merdices de uns bilhetes para ver futebol; e para parecer que não era assim, foram outros. Costa ainda não se apercebeu que tocar na inveja e na cobiça, sendo na realidade uma característica da personalidade da nação, não serve mais como matéria de propaganda e captação de apoios por parte do eleitorado.
Quer Costa quer o PR passam uma imagem de submissão perante as estruturas militares. Esquecendo-se que a nação já não vive os idos anos revolucionários e que o eleitorado, depois de uma experiência de perda de soberania com a troika interna (PR-CDS-PSD) e externa, também não quer ver o poder político e Presidencial submetido à estrutura militar.
O PR tem de demitir de cabo a rabo nas Forças Armadas, e tem de forçar o governo a demitir o ministro da Defesa.
António Costa não pode governar a nação em função da equação de apoios que recebe no parlamento. Isso pouco importa aos portugueses. Sabemos que a esquerda mais à esquerda, em matéria de apoios de bases, está habituada a ter eleitorado que pouco pensa e é pouco crítico relativamente às decisões vindas das estruturas partidárias. Mas isto é lá com eles. Sabemos que os seus níveis de exigência se centram em quotas, em abortos, em pílulas do dia seguinte, em símbolos religiosos, em ensino enviesado para a sexualidade e etc.; e parece-me que em matéria de símbolos ainda os veremos a enaltecer as estruturas militares e seus símbolos, e quiçá a desejar que elas tomem, por eles, o poder.

É altura de Seguro fazer-se à pista. A nação necessita de uma oposição séria e ponderada, mas também necessita saber que existem recursos humanos que podem contrariar toda e qualquer tentativa de amordaçar a democracia. Costa e o PR insultaram a nação.
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De Anónimo a 14.07.2017 às 10:56

"Pela sua capacidade de trabalho, pelos seus conhecimentos na área da Secretaria de Estado que vai dirigir e pela sua seriedade."
- A sério?! Há gente desta na política?!
"Espero que se rodeie de gente capaz, sem olhar à cor do cartão, e mostre o que vale."
- E pode?!
"O País não é só Lisboa, todos esperam muito dele e o Algarve estará, com mais do que justificada razão, com atenção redobrada ao seu trabalho. Eu também."
- Lisboa?! Algarve?! Outro mito. Venham para o interior, dispam-se de preconceitos e, com o mesmo dinheiro, viverão muito melhor.
A não ser que, entretanto, morram queimados...
João de Brito

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