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Mundial no sofá (4)

por João André, em 17.06.14

 

Portugal 0 - 4 Alemanha

 

Muito sinceramente não sabia o que escrever. Por alguma coisa quis fazer a minha antevisão ontem, para poder deixar clara a minha capacidade de análise ou, em alternativa, para não poder fugir à evidência de uma antevisão errada.

 

Na minha previsão de equipa titular do lado alemão falhei com Schürrle. Jogou antes Götze. Já no resto parece-me que não me enganei com nada de especial. Özil de facto andou a arrastar os centrais pelo campo fora (fosse à casa de banho e Bruno Alves segui-lo-ia), o segundo golo veio de uma bola parada e Bruno Alves teve a tradicional paragem cerebral que deu o 3-0. Já a falta de apoio a Coentrão deu em alemães a acelerar por aquele flanco como se em trânsito entre Munique e Berlim. Neste aspecto antecipei que Boateng não daria muito apoio, mas não foi bem verdade. Soube subir o suficiente para oferecer mais uma linha de passe e ajudar às triangulações.

 

Portugal até começou bem a meio-campo. Veloso pressionou bem Lahm, Meireles caiu sobre Kroos e Khedira, ainda sem ritmo, não conseguia mudar o rumo. Foi no entanto sol de pouca dura e questão apenas da Alemanha ajustar o estilo de jogo. Kroos descaiu para o meio campo para ajudar a transformar o 4-2-3-1 num 4-3-3-0 e os portugueses perderam completamente o controlo do jogo. Os alemães passaram a ter duas linhas de três jogadores no meio campo que conseguiam fazer triangulações e passes e a mais avançada destas era exímia a correr para as costas da defesa e aproveitar as bolas dos restantes jogadores.

 

O único caminho que Portugal procurava eram as bolas longas para Almeida tocar para Ronaldo e um ou outra iniciativa individual de Nani. Este esteve tão mal nas suas decisões e na sua insistência em jogar individualmente que só abona em favor de Jorge Mendes que tenha renovado no ano passado o contrato com o Manchester United. A lesão de Almeida foi um golpe duro, no entanto. Éder oferece mais movimento e energia, mas luta e ocupa menos os centrais adversários, que era o necessário para dar espaços a Ronaldo.

 

Quando Pepe foi expulso, a descida de Meireles para a defesa não me pareceu opção descabida para o resto do jogo. Sem avançado de referência do lado adversário, colocar um médio nessa posição não seria assim tão má ideia. Além disso, mais um jogador capaz de sair a jogar e colocar uma ou outra bola longa em Ronaldo poderia ter ajudado a manter a chama viva. Só que Portugal tinha a cabeça já no intervalo e não soube manter a concentração. Mais uma vez se provou que Ronaldo não tem líder em campo. Ronaldo é capitão, mas não é aquele líder capaz de manter a equipa focada, como Figo, Fernando Couto ou outros o teriam feito.

 

A segunda parte foi morna. A Alemanha manteve energias e foi ensaiando acções de ataque, tratando o resto do jogo como um treino. Mais que o quarto golo, o pior da segunda parte foi mesmo a lesão de Coentrão, que não tem substituto natural (canhoto) que dê largura ao corredor e ofereça liberdade a Ronaldo. Assumindo que a lesão é daquelas que dá para mês e meio de estaleiro, a melhor opção de Paulo Bento para os outros dois jogos poderá ser enfiar Veloso naquele lado e fazer entrar William Carvalho. André Almeida é voluntarioso e até poderia cumprir o papel no lado direito, mas a falta de pé esquerdo é aqui um problema.

 

Não sei que fará Bento, mas precisa de colocar ordem na equipa. Como não acredito que os alemães façam tanto jeitinho a Klinsmann, é bem possível que duas vitórias cheguem para passar. Muito dependerá da resposta que os jogadores derem a este resultado.

 

Três notas finais:


1. A grande penalidade é discutível, obviamente. Götze deixa-se cair sem que João Pereira tivesse feito muito para isso. Há no entanto puxões do defesa e ao alemão só restou deixar-se cair. Se fosse ao contrário talvez o árbitro não marcasse, mas segundo as regras de beneficiar o atacante, é difícil criticar demasiado o árbitro. Além disso, poderia ter dado o vermelho.


2. Pepe demonstrou uma enorme infantilidade e mereceria que o enfiassem num avião de volta a Portugal. Há 5 ou 10 anos levaria um amarelo e ficaria o assunto resolvido. Hoje em dia os árbitros têm indicação para darem vermelho. Claríssimo. O facto de ser provocado é indiferente.


3. No ecrã onde vi o jogo era difícil dizê-lo, mas fiquei com a sensação que Éder teria sido mesmo travado em falta (não percebi se houve ou não contacto). Um golo não teria mudado nada nesse jogo, mas teria dado outro lustro ao resultado (os alemães talvez abrandassem ainda mais com um satisfatório 3-1) e outra confiança a Ronaldo.

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9 comentários

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De Pedro Correia a 17.06.2014 às 09:49

Fizeste uma leitura correcta do jogo, João. Embora, a meu ver, algo complacente para a equipa portuguesa, que só durou dez minutos enquanto tal - equipa.
Que CR tem capacidade para liderar, ninguém duvida. Sem ele não estaríamos sequer no Mundial. Ele levou toda a equipa atrás nas eliminatórias decisivas contra a Suécia, sobretudo na segunda mão, realizada em terreno adversário.
A selecção naufragou com a estúpida, infantil e cobarde atitude de Pepe, reincidente em lamentáveis cenas como esta - e como tal já cadastrado por todos os árbitros internacionais, que o têm sob mira. Atacar, agredir ou humilhar alguém que está no chão é - aos meus olhos - um pecado imperdoável. Tal como tu, julgo que a FPF faria muito bem em pôr-lhe já na mão o bilhete de regresso, com partida imediata:
http://sporting.blogs.sapo.pt/se-fosse-comigo-1504513
Almeida, o jogador mais imóvel que me lembro de ter visto alguma vez no ataque português, foi igual a si próprio: aos 5' CR pôs-lhe nos pés a possibilidade de virar o jogo, abrindo o marcador - possibilidade que ele desperdiçou, desde logo porque a bola lhe foi parar ao pé "cego", que é o direito.
Éder é muito mais dinâmico, mas falta-lhe algo de essencial para credibilizar e moralizar um avançado: nunca marcou pela selecção. Em oito jogos.
Resta Postiga, como sempre. Mas ninguém imagina ao certo como ele estará em termos físicos. Depois de Almeida e Coentrão terem rebentado, com meia hora de intervalo, no desafio inaugural devemos questionar-nos até que ponto estará esta selecção que ontem mesmo prometia "entrar com o pé direito" (palavras de Ronaldo que fizeram manchete pelo menos num diário desportivo) realmente em condições físicas de disputar o Campeonato do Mundo.
E no entanto as dúvidas impunham-se desde o início da fase de preparação, mal foram conhecidos os nomes dos 23 convocados. Eu, pelo menos, expressei-as aqui:
http://sporting.blogs.sapo.pt/sinais-de-alarme-1458556

Continua com a série: é uma das melhores análises que tenho lido ao Mundial na blogosfera. Abraço.
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De João André a 17.06.2014 às 12:11

Em relação à equipa, fala-se muito da atitude, do desejo, da vontade, dos desempenhos habituais, etc, mas fala-se pouco da táctica. A meu ver a Alemanha anulou Portugal porque se adaptou à nossa táctica e Portugal não soube fazer o mesmo. Foi por isso que Portugal desapareceu ao fim de 10 minutos. Quando há apenas 3 médios a fazer frente a 6, o resultado é simples de prever.

Lamento Pedro, mas Ronaldo não é líder nem leva a equipa atrás. Ele consegue sozinho (ou quase) resolver um jogo (ou eliminatória), mas é a nível individual que o faz. Se quisermos ver líderes que levam a equipa atrás podemos olhar para Lahm, Gerrard e Figo, que lideram por peronalidade e exemplo ou para Baresi, Puyol ou Keane que lideram também muito por força da personalidade. Ronaldo não tem nenhuma destas qualidades. é trabalhador, mas essencialmente a nível individual, não contagia os colegas.

Tenho alguma simpatia para com Almeida, que faz sempre o que lhe é pedido e nessa jogada que referes me pareceu que estava a tentar colocar em Ronaldo até a bola ser tocada pelo defesa. É, ainda assim, limitado. Éder é melhor mesmo que marque pouco, mas aos avançados portugueses pede-se-lhes que criem espaços para Ronaldo. É assim que Bento montou a equipa. Vamos a ver no que isto dá.

Tens razão no que diz respeito à condição física. Muitos jogadores parecem rebentados e é óbvio que a preparação foi completamente falhada. Os jogadores alemães estavam mais frescos também porque estão na região e vivem essa temperatura e porque vivem mais vezes este tipo de tempo (quando há calor na Alemanha á mais frequentemente húmido que seco). Se os jogadores não recuperarem, mais vale colocar os que estejam melhor fisicamente. Não há qualidade que aguente má forma física.

«uma das melhores análises que tenho lido ao Mundial na blogosfera»? A melhor sff. Não o aceitar é só inveja por eu ser giro e rico ;)
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De da Maia a 17.06.2014 às 13:12

Sobre a reputação de Pepe afectar os árbitros, Paulo Bento foi muito claro na entrevista... respondendo com a agressão possível ao entrevistador, sem sair do lugar para esmurrá-lo.

Ora, o que se passa é que Pepe tem reputação agressiva, mais justa que injusta.
A pergunta era provocatória, é claro, mas é preciso haver cabeça no palco.
A "dirigir" este grupo da bola da FPF está a cabeça de ouro de João Pinto.
Simbólico?

A selecção da bola da FPF é basicamente um grupo de gajos porreiros.
A dirigir o grupo está um gajo porreiro, com um ar bruto que confunde seriedade com boçalidade.
Toda a gente sabe que se pode gerar um ambiente fixe ou mau com 23 gajos, e isso parece ter sido sempre o mais importante. O grande papel do seleccionador é cuidar que aquilo não se torna num recreio da bola, nem num sítio enfadonho com um tipo chato como Queirós.
Como ninguém pode dizer a Ronaldo o que fazer, a táctica da selecção tem sido - Ronaldo que resolva, que ele é que é "o melhor do mundo". Ronaldo gosta, e tem resolvido... desde que os outros não estraguem demasiado.

Já se sabe que é difícil ser racional no futebol, porque um toque de sorte transforma a besta em bestial. Os jornalistas são muito complacentes com isso, porque o público alinha nessa visão.
Paulo Bento nunca pôs a equipa a jogar bem nestes anos. Tem um modelo menos mau, que por vezes corre bem, muito porque Ronaldo se encarrega de carregar o piano. Paulo Bento e Jesus não são bons treinadores, são capitães-treinadores.
Jesus só é melhor, porque é mais velho e tem mais jogos no pêlo.
Só que a experiência e o improviso, cada vez vão sendo menos suficientes contra um futebol pensado, ao estilo Mourinho.
Com Mourinho um jogo pode correr mal por azar.
Com Paulo Bento, um jogo pode correr bem por sorte.

Com Paulo Bento sempre soubemos que ir mais ou menos longe no Mundial será tudo uma questão de sorte, ligada à obstinação de Ronaldo.
Apesar de todo o sofrimento para os apuramentos, Paulo Bento, foi-se safando, aqui e ali, porque os resultados permitiram o mínimo.
Os jornalistas, que são os únicos que podem fazer efectiva pressão, acabaram por não querer estragar a harmonia do grupo de gajos porreiros.
Ninguém se atreve a criticar colocar-se como director João Pinto.

Tudo se justifica desde que os resultados apareçam.
Só que quando os resultados não aparecem, então tudo deve ser questionado.
E vai ser questionado pelo único que pode questionar - Ronaldo.
Ronaldo vai perceber que não basta estar num grupo de gajos porreiros.
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De Anónimo Desconhecido a 17.06.2014 às 10:29

Falta-nos um Figo ou um Eusébio, aqueles monstros que não desapareciam nos momentos importantes, Ronaldo aparece sempre mal nestas fases decisivas, mesmo no clube, na final da Champions nem se viu, só que o Real Madrid tem o Ronaldo como um jogador que faz a diferença, mas não depende dele como a selecção de Portugal. Infelizmente a equipa é mediana, e infelizmente o Ronaldo sendo um dos melhores do mundo, não é de facto um líder, faz a diferença quando está bem fisicamente, mas precisa de alguém que lidere de facto em campo, uma coisa é a braçadeira ficar bem nas fotos, outra diferente é significar uma liderança efectiva, foi pena ele não ter aparecido na altura de Figo, Paulo Sousa,João Pinto etc. teria sido a cereja no topo do bolo. Acho que Portugal vai qualificar-se facilmente para a proxima fase, pois ganhará sem grandes dificuldades ao Ghana e aos USA, mas dificilmente fará muito mais neste mundial. Isto não é com aparências que se chega lá.
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De João André a 17.06.2014 às 12:14

Falta alguém que pegue no jogo e sacuda tudo, é verdade, mas Portugal não tem ninguém nesses moldes. Os únicos que o poderiam ter feito eram Bruno Alves e Moutinho. O primeiro é mau exemplo enquanto que o segundo se habituou demasiado ao seu papel secundário. Não sei quando voltaremos a ter gente com a personalidade (para além da qualidade) da "geração de ouro" (J. Pinto, Paulo Sousa, F. Couto, J. Costa, Figo, Rui Costa, Vítor Baía... todos eles eram líderes).
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De lucklucky a 17.06.2014 às 11:20

Meninos birrentos com um treinador do sistema FPF, sem ideias com uma formula de jogadores já gastos.

Como o autor notou bem a braçadeira de capitão no CR não vale de muito. Ronaldo não é líder, não quer corrigir, dar exemplo.
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De João André a 17.06.2014 às 12:16

O que me chateia é que Bento até testou outros sistemas, nomeadamente o 4-4-2 para enfrentar equipas mais fortes. O 4-3-3 contra a Alemanha foi funcionando, mas quando os alemães se adaptaram, Bento não foi capaz de mais. É uma das limitações dele. E as coisas no futuro (mesmo para lá do mundial) não vão melhorar muito.
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De lucklucky a 17.06.2014 às 13:54

Eu referia-me mais ao antes - escolha de jogadores, tendência para escolher sempre os mesmos, ter de agradar aos clubes etc.

Sou de opinião que no caso de Portugal quando existe mudança - e ela irá acontecer pela idade de vários jogadores - as coisas tendem a melhorar.
Só quando assenta a poeira é que fica pior quando os maus hábitos se instalam. Mas provavelmente ainda teremos um Europeu com esta estrutura.
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De Coño! a 17.06.2014 às 13:05

Pepe de volta para Portugal?! Para Madrid, talvez.

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