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Mundial no sofá (2)

por João André, em 14.06.14

Imagem The Telegraph 

 

Espanha 1 - Holanda 5

 

Antes de mais a piada má: os novos reis de Espanha e Holanda: Willem Alexander I e Felipe VI. Os holandeses ficaram a dever um golo ao novo monarca espanhol.

 

O óbvio: nunca um campeão do mundo se afundou assim numa partida do mundial seguinte. Foi a derrota mais pesada da Espanha desde que esteve num mundial do Brasil. A única equipa que foi campeã depois de ter perdido de tal forma foi a Alemanha em 1954, contra a Hungria (mas jogou com as reservas nesse jogo).

 

A realidade. É tentador falar em laranja mecânica depois desta vitória, mas foi menos laranja mecânica e mais colapso completo da Espanha. Casillas demonstrou o risco que é um guarda-redes jogar encontros deste tipo sem ter maiores rotinas. Na final da Liga dos Campeões já tinha demonstrado que a falta de rodagem lhe tinha sido nociva. Aqui isso ficou ainda mais claro. Também é tentador falar no fim do tiki-taka, mas isso é simplista. O tiki-taka foi adoptado por ser o sistema que melhor se adequava ao tipo de jogadores que a espanha produz. Com jogadores de 1,70 m, não faz sentido jogar de outra forma. Além disso, quando se tem Xavi, Iniesta, Alonso, Busquets, etc, seria ridículo optar por outras soluções. O problema é que já estão a ficar velhos. Alonso jogou benzinho mas está abaixo do que pode fisicamente. Xavi está talvez a 50% de há 4 anos (dar-lhe-ia um lugar na maior parte das selecções, mas já não é o pivot da Espanha). Iniesta foi o melhor espanhol, mas também ele está pior.

 

A Espanha de há 4 anos, transplantada para Salvador na noite de ontem, não teria sido humilhada. Não teria a superioridade de então, uma vez que a oposição teve 4 anos para se adaptar ao estilo, mas continuaria a ser dominante. Teriam mantido a posse de bola até cansarem os holandeses e depois aproveitariamum erro. Com uma equipa mais cansada, menos sedenta de glória e mais lenta, já não foi possível.

 

Os holandeses jogaram com um sistema excelente para enfrentar a Espanha. Com a Espanha a depender exclusivamente dos laterais para darem largura ao jogo e com os dois médios "ala" a cortarem para dentro, os laterais holandeses puderam subir e enfrentar Azpilicueta e Alba cedo, negando-lhes o espaço para poderem ganhar velocidade. Isto abriu algum espaço junto às laterais que Diego Costa foi utilizando inicialmente (o penalty nasce de um movimento desses) mas apenas até os holandeses se adaptarem a essas movimentações. A solução espanhola teria sido fazer entrar Pedro e - na ausência de Juan Mata - Cazorla, mais cedo para dar largura ao jogo e esticar a defesa holandesa. Não o fizeram e apenas congestionaram o centro do terreno. Sem a capacidade de outrora, não se deram bem com a ausência de espaços e com a defesa musculada dos holandeses.

 

No ataque a Holanda optou por um sistema simples: dar liberdade a van Persie, Robben e Sneijder. Com a Espanha a jogar uma defesa tão adiantada, Robben estava nas suas sete quintas para acelerar. Sneijder não tinha muitos espaços mas ia ocupando Busquets e Alonso. Com o avanço dos laterais, Robben ia caindo para as alas para atrair os centrais e abrir espaços para passes para as costas destes a procurar van Persie. O golo do empate holandês exemplificou isto perfeitamente. Piqué foi atraído para Robben por medo que a sua velocidade causasse estragos nas costas de Azpilicueta e não se apercebeu que se colocou muito mais abaixo do que o resto da defesa, permitindo que van Persie ficasse em jogo para o passe de Blind.

 

Piqué também demonstrou as suas limitações. É um bom defesa, não nos enganemos, mas é um jogador muito propenso a erros. Foi essa a razão para Ferguson o ter deixado sair do Manchester United. No Barcelona ele deu-se bem devido às constantes correcções e incentivos de Puyol, um jogador muito intenso, focado e um verdadeiro líder da defesa. Entre Ramos e Piqué a Espanha não tem líderes e isso viu-se ontem.

 

Como escrevi acima, há a tentação de classificar esta Holanda como um regresso da laranja mecânica, mas isso ignora as lacunas ainda existentes. A verdade é que uma equipa jogando em 4-3-3 (por oposição ao 4-2-3-1) poderá causar-lhes grandes problemas, para isso bastando ter um médio defensivo único que dê cobertura à defesa (e mantenha o olho em Sneijder), laterais e não sejam a única fonte de largura no ataque e alas que não permitam aos laterais ofensivos holandeses que subam. Um simples desenho táctico deste tipo poderia causar muitos problemas aos holandeses. Uma equipa que segue este tipo de desenho é, por exemplo, Portugal.

 

Já a Espanha tem que resistir (e irá fazê-lo) ao canto da sereia de abandonar o tiki-taka. O sistema não deixou de ser bom, apenas deixou de ter à sua disposição o seu expoente máximo: Xavi. A opção terá de passar por trocar o guarda-redes (Casillas continua a ser excepcional, mas não está em forma) dando oportunidade a de Gea; jogar com Cazorla e Pedro e fazer sair Xavi e Costa, dando o lugar de falso 9 a Silva e fazendo Iniesta ir para o meio. Se o fizerem e se conseguirem ultrapassar psicologicamente a humilhação (del Bosque estará já a trabalhar nisso), a Espanha ainda poderá regressar e oferecer-nos um belo duelo no grupo.

 

Diego Costa: é um bom jogador com enorme personalidade e certamente que não estará arrependido. Mas é óbvio que depois de uma época a jogar no sistema de Simeone, não poderá ser a primeira opção para o tiki-taka espanhol. Terá de ser usado como suplente de impacto. Ainda não vimos tudo dele no mundial.

 

Olho no Chile: se conseguirem ter eficácia na concretização terão excelentes hipóteses de vencer o grupo.

 

*- troquei o título. O outro era esquisito.

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5 comentários

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De Pedro Correia a 14.06.2014 às 22:03

João: há um aspecto que não tenho visto abordado e me parece fundamental. Refiro-me à motivação. Estes jogadores espanhóis ganharam tudo: são campeões mundiais e bicampeões europeus.
Mesmo que nenhum deles admita, têm um défice de motivação. Del Bosque devia ter apresentado uma selecção renovada pensando nisso. Novos jogadores, novos patamares de ambição. É agora o momento, está dado o pretexto com esta derrota copiosa: injectar sangue novo na 'roja'.
Por vezes é necessário acontecer uma derrota destas para se perceber que é tempo de mudar. Scolari percebeu isso do primeiro para o segundo jogo de Portugal no Euro-2004.
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De João André a 14.06.2014 às 23:50

É verdade Pedro, por isso referi que a Espanha estaria menos sedenta de glória. Do onze inicial apenas Diego Costa e Azpilicueta não ganharam ainda nada com a Espanha. Já deveria ter feito entrar alguns outros jogadores, com mais fome de vitórias e de títulos. Isco, por exemplo, teria oferecido outras alternativas.

O caso de Portugal era diferente, mas compreendo a tua comparação. No caso de Scolari, no entanto, ele teve de se render a uma evidência que era clara há muito tempo (Portugal teve uma preparação miserável na altura), especialmente no que dizia respeito a fazer entrar no onze os jogadores do Porto. O caso de del Bosque é o de ser fiel aos jogadores que lhe têm dado garantias e ganharam muito. No caso de Scolari foi mesmo teimosia (uma das razões para eu não gostar dele).
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De Anónimo Desconhecido a 14.06.2014 às 22:36

Parabéns, é bom ler um comentário lúcido sobre futebol, com opiniões bem sustentadas, sem ressabiamentos escondidos nem complexos mal resolvidos, é muito raro ler-se disto, obrigado !
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De João André a 14.06.2014 às 23:51

Obrigado e esteja à vontade. Eu chego-me um bocadinho aqui para o lado no sofé. Sente-se.
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De cristof a 15.06.2014 às 08:30

A patifaria que fizeram ao Mourinho no Real doeu-lhe mas a verdade vai surgir nem que seja tarde de mais. O Casilhas foi o pivot desse movimento,mas nãovoltam a ter um treinador como ele.

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