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Monos

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.05.14

Paulo Rangel, cabeça-de-lista da coligação PSD/CDS-PP às eleições europeias, sendo um homem bem formado, sério, culto e inteligente, na hora das pré-campanhas e campanhas eleitorais perde facilmente o estribo. Quando abre a boca em campanha revela a sua face desconhecida e tudo serve para ganhar votos. Numa das suas tiradas de antologia, em Almada, há pouco mais de um mês, em 10 de Abril pp., disse impante que a lista de candidatos do PS era formada pelos "rostos do despesismo" de Guterres e Sócrates. Acrescentou que as políticas dos antecessores do excelso e impoluto Passos Coelho tinham conduzido o País à bancarrota, mas injustamente não incluiu nesse número aquela espécie de executivo, inspiradora de séries do tipo "morangos com açucar", da dupla maravilha Barroso/Santana Lopes. Rangel lamentou-se que tivesse recaído sobre o seu partido e o parceiro de coligação o ónus de rectificarem esse despesismo. Eu também lamento. O problema é que Rangel e os seus pares quando dizem estas coisas riem muito, em especial os meninos das jotas. Riem e batem palmas com o ar mais ignorante e glutão que se adeqúe ao momento.

Pois bem, esta manhã, ao ler o Público deparo com uma desenvolvida notícia, de página inteira (a 18), pela qual eu e os portugueses ficámos agora a saber que o comboio entre o Porto e Vigo transporta 26 passageiros por dia, e que em nove meses acumula prejuízos de 1,2 milhões de euros. Em Agosto de 2013, mês de maior procura, teve uma média de 57 passageiros. A taxa de ocupação de cada automotora é de 12%, sim, leram bem, doze por cento, e o serviço - de acumulação de prejuízos, creio - foi criado por decisão conjunta dos governos do Sr. Coelho e do Sr. Rajoy. Gente séria, portanto, que procedeu à sua inauguração em Julho de 2013. Um marco da retoma em pleno consulado da troika

O presidente da CP, numa manifestação extrema de solidariedade para com quem deu tudo o que tinha, e o que não tinha, ao governo do Sr. Coelho, diz que a criação do serviço se deveu a um "impulso" do ex-ministro da Economia do Governo PSD/CDS-PP.

Enfim, para quem, como aquele rapazola que queria responsabilizar criminalmente os responsáveis dos anteriores governos, esta será uma boa oportunidade para começar a pedir já responsabilidades. A começar pelo Sr. Coelho dos discursos em Quarteira, no "calçadão".

Em primeiro lugar, no lugar dele, eu começaria por pedir os estudos económicos e de mercado que suportaram a decisão. Sim de mercado, porque nestas coisas, tal como na Saúde e na Educação, o mercado é que deve mandar. Depois, aproveitaria a embalagem para lhe perguntar como é que numa altura de tantos cortes em serviços essenciais, depois de aumentar impostos, diminuir funcionários públicos, alargar horários de trabalho e de acusar os antecessores de despesismo e irrealismo, o Sr. Coelho se dá ao luxo de derreter tantos milhões num serviço ferroviário que transporta 26 passageiros por dia! Melhor só me lembro mesmo daquela coisa que o bom do Isaltino fez em Oeiras e que chega a circular sem nenhum passageiro. Ou dos resultados de empresas por onde alguns andaram aos 40 anos a fazer o estágio para "estadistas".

Não sei a quem é que Paulo Rangel e os meninos da JSD irão imputar os custos deste serviço da linha Porto-Vigo, que pelos vistos agora ninguém tem coragem (ou melhor, tomates, num vernáculo que os leitores me perdoarão mas todos entendem) de encerrar já.

O descalabro que a linha Porto-Vigo evidencia é que, uma vez mais, o problema não é só político. É um problema de gestão, é certo, mas mais de decência. Ou de falta dela, por parte de quem, desde os tempos do cavaquismo, inaugurou este ciclo que teima em persistir. A qualidade de quem decide, de quem acusa e de quem gere, vem ao de cima nestes momentos. Qualquer que seja o partido em questão.

Não sei se Rangel será agora capaz, como uma pessoa decente faria, de criticar com a mesma veemência esta situação e de acusar o seu primeiro-ministro de despesismo e de irresponsabilidade. Ou se Nuno Melo proporá uma comissão parlamentar de inquérito, daquelas que a actual maioria estimula sob o impulso da JSD para deslustrarem a actividade parlamentar e desqualificarem os seus próprios deputados. 

Os custos deste descalabro da linha Porto-Vigo são ainda mais graves porque desencadeados numa altura de imposição de profundos sacrifícios e de cortes em áreas sensíveis. Conjugados com um aumento brutal de impostos e uma política de cortes destinada a alimentar lobbies e camarilhas produzidas pelas desregulação dos mercados, devem ser imputados, e já, a quem ainda está na cadeira do poder e já se conhecem os resultados.

A responsabilização, tal como a justiça, deve ser rigorosa e feita em tempo útil. Imputar os louros por mais este feito aos mesmos de sempre parecer-me-ia excessivo. Está na hora de começar a medalhar quem em tão pouco tempo e perante condições tão adversas já produz rebentos desta dimensão. Bastaram nove meses para se ver a excelência da gestão, da preparação e, já agora, do "impulso". Agora imaginem o que seria se não estivéssemos sob a tutela da troika. Falar não custa, pois não, Dr. Rangel?

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10 comentários

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De Militante Apartidário a 19.05.2014 às 16:58

Entretanto os jotas do Tozé das 80 medidas vão decerto pedir um inquérito ao valor pelo qual se consegue leiloar o Atlântida, assim como às mais-valias que proporciona o aeroporto de Beja e etc etc.
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De Anónimo a 19.05.2014 às 22:34

Se vamos por aí, vamos ver, outras asneiras do PSD. Desbaratar dinheiros vindos da CEE, arrancar oliveiras, videiras e quem o fizesse recebia dinheiro pelo lindo serviço que prestava ao país..........e o BPN outra coisa linda e o BBP ... Pelo que percebi, fala-se de prejuízos no presente e com o governo mentor em exercício.
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De Apartidário a 20.05.2014 às 08:20

BPN é caso de polícia, não de governos, e tanto PSD como PS estão nele metidos até às orelhas.
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De Luís Lavoura a 19.05.2014 às 17:27

Pois, e o Cavaco há dias disse que seria bom haver uma linha aérea direta entre Lisboa e Xangai. Infelizmente para ele mas felizmente para nós, estas opiniões dele são inócuas porque não pode dar ordens à TAP para inaugurar linhas aéreas. Porque a TAP, felizmente, já se rege pelo mercado.
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De Costa a 19.05.2014 às 17:45

Não contesto que culpas no (perene) desastre nacional em que fomos lançados existem por todo o tal "arco de governação". Só assim entendo - nesses silêncios para além da retórica demagógica sonora mas fundamentalmente inócua da praxe - que cada um desses partidos não tenha já aniquilado o outro política e judicialmente (sim, essa criminalização que, parece, tanto lhe repugna). PS e PSD, estes pelo menos, vivem num estado de Mutually Assured Destruction , numa Guerra Fria à Portuguesa que lhes é muito conveniente, mais não seja porque os empregos de alta qualidade da sua gente, que é o que verdadeiramente interessa, de tal dependem.

Posto isto, o descalabro da ferrovia em Portugal, se foi diligentemente iniciado no cavaquismo, foi entusiasticamente seguido nos subsequentes "ismos" " afectos ao PS. Para quem só o parolo deslumbramento novo-rico do TGV interessava. O dia chegaria (chegará?) em que o TGV seria pomposamente inaugurado por um qualquer primeiro-ministro do PS enquanto toda a restante rede ferroviária vegetaria, caso não tivesse ainda sido encerrada, na mais arruinada indigência.

O caso do "Celta", antes de se condenar liminarmente esse serviço, deve ser visto com um - generoso - grão de sal (e a notícia do Público até dá umas pistas): de que serve um serviço ferroviário que é impedido (!) de embarcar ou desembarcar passageiros nas paragens intermédias que faz? E que, possivelmente, tem até - é, parece, prática longe de inédita na CP, um horário descaradamente desajustado face às necessidades do mercado (o mercado, cá está)? Como se a aposta fosse forçar o comboio a não resultar - e não será essa a aposta, de facto e objectivamente (é que o transporte ferroviário resulta, com naturais evoluções, fracassos e sucessos, em todo o lado; em Portugal quase nunca...)? - para com tal respaldo, e lamentando compungidamente a uma vez mais demonstrada incapacidade e desajuste da ferrovia, dar o negócio de mão beijada a quem, em Portugal, manda no transporte terrestre: as empresas de camionagem e, triunfando sobre tudo e todos, as construtoras de obras públicas.

É que se o Celta não serve nem pode ser modificado passando a servir, e tem que ser encerrado, então, por elementar coerência, encerremos já tantos quilómetros de auto-estrada absolutamente ruinosos.

Ou, já agora, esse monumental crime económico, ecológico, paisagístico e mesmo perante a história da engenharia em Portugal que é o nefando plano nacional de barragens.

Costa
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De Sérgio de Almeida Correia a 20.05.2014 às 02:53

Caro leitor Costa,
Como evidentemente percebeu o meu ponto não que é proibir que haja serviços deficitários. Alguns sempre terão de ser desde que sejam essenciais para a prestação de alguns serviços à comunidade. Mas tem de haver critério e coerência coisa que não houve quando se tratou de criticar os outros. Como se "essa gente" fosse melhor, mais bem formada ou com melhores pergaminhos do que os antecessores para poder "entrar a matar" e tudo destruir, o bom e o péssimo, tudo por igual.
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De rmg a 19.05.2014 às 20:13


Não aprecio o Sr. Coelho nem o Sr. Rajoy mas acho que do PS ao PCP - para além dos inevitáveis auto-denominados movimentos de utentes que nunca o utilizam - toda a gente meteu a colher , tanto de um lado da fronteira como do outro :

http://pt.wikipedia.org/wiki/Celta_(servi%C3%A7o_ferrovi%C3%A1rio)



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De Carlos Cunha a 19.05.2014 às 20:38

meu caro, na visão do anterior ministro da economia, cujo nome não me ocorre agora, esta linha tinha como objectivo criar mais uma via para aproximar o norte do país e a galiza e facilitar os negócios entre estas regiões de gente empreendedora, e não emcher o comboio de passageiros.
portanto aqui o resultado da cp com a exploração desta linha pouco interessa só por si, tendo que ser avaliada em conjunto com o desenvolvimento dos negócios e já proporcionou desde a sua abertura e que certamente terá sido significativo (acredito que o anterior ministro da economia, responsável pela criação desta linha e cujo nome agora não me ocorre, não tardará a publicar um livro com esses resultados certamente fabulosos).
porque é necessário ter em conta que certamente muitos destes (poucos) passageiros, que fazem esta viagem directa de comboio de cerca de 130 km em 3 horas, se não tivessem este meio de deslocação não fariam esta viagem, e portanto a economia está já a ganhar mesmo com tão poucos passageiros.
e também deve ser tido em conta a quantidade de pastéis de nata, de bolinhos de bacalhau, de francesinhas, de mac_couratos e sei lá que mais, que se podem exportar / expedir para a espanha através desta linha (já alguém contabilizou isso? aposto que não).
portanto nem sempre as coisas que aparecem são o que são que parecem, como diria o tal anterior ministro da economia cujo nome não me ocorre.
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De matias a 19.05.2014 às 23:45

O público utiliza pouco o comboio e é preciso mudar isso, já que o comboio é o transporte mais económico e muito menos poluente do que o carro.

Houve dois países em que o caminho de ferro diminuiu de importância: Portugal e Brasil. Nenhum deles se recomenda.
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De Sérgio de Almeida Correia a 20.05.2014 às 02:56

Inteiramente de acordo. E para quem gosta de andar de comboio ainda faz mais sentido.

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