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#micromachismo

por Diogo Noivo, em 11.01.18

Estava prestes a sair de um edifício de escritórios onde tivera uma reunião. Foi há mais ou menos dois anos, em Madrid. Ao abrir a porta para a rua reparei que atrás de mim vinha uma mulher, uma rapariga nos seus trintas. Fiz o que aprendi com a minha avó e que, por força do hábito, faço hoje de maneira instintiva: um breve compasso de espera, segurando a porta para que a rapariga saísse primeiro. Talvez seja um anacronismo, mas fui ensinado que até o maior canalha, se deseja ser homem, está obrigado a um conjunto de gestos e deferências para com o sexo oposto, um dos quais ceder sempre a passagem. Foi o que fiz naquele momento. E nunca fui olhado com tanto desprezo. A rapariga perguntou-me se eu a achava incapaz de abrir a porta sozinha. Fiquei sem resposta, coisa que me sucede pouco. Perante o meu silêncio, acusou-me de “micro-machismo”.

Nunca tinha ouvido falar em tal coisa. Em conversas posteriores com amigas, percebi que o assunto é sério ao ponto de existirem jornais espanhóis de referência que, nas suas páginas web, têm blogues dedicados às micro agressões perpetradas pelos homens, pequenas violências quotidianas que, segundo dizem, são causa e consequência de uma sociedade machista. Segundo a doutrina, abrir a porta a uma senhora configura um abuso do tipo.

 

É inegável que existem abusos de poder e agressões sobre as mulheres. É evidente que existe uma cultura machista que resulta muitas vezes em diferenças salariais gritantes, no desequilíbrio de oportunidades de progressão na carreira, na impunidade de quem assedia sexualmente uma mulher. Não há duas formas de olhar para isto: as mulheres são vítimas de violência física e verbal, algo que é tão abjecto como inadmissível. É, pois, fundamental e prioritário denunciar estes abusos, tal como é imprescindível que a censura do machismo nas suas diferentes expressões aconteça tanto no plano jurídico como no plano social.

 

Dito isto, creio que o resultado final desejado é o da paridade. Ou seja, a abolição de toda e qualquer forma de discriminação com base no género. Substituir um mundo onde as mulheres vivem em medo constante por outro onde os homens, pelo simples facto de sê-lo, devem temer consequências não é mais do que um ciclo absurdo onde apenas se permutam os sujeitos de discriminação. Ódio é ódio.

Assim, na qualidade de abridor de portas em série, agradeço a Catherine Deneuve e às demais co-signatárias de uma carta que procura repor a normalidade no debate. Afinal de contas, nos dias de hoje, como homem, dificilmente poderei advogar que “não é machismo que um homem seja cavalheiro”.

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19 comentários

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De Vlad, o Emborcador a 11.01.2018 às 11:40

Se mu acusassem de micro-machismo responderia, sem pejo, que sou um abridor de portas, nato....tau.....
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De JgMenos a 11.01.2018 às 11:43

Sempre que se fala em paridade o pressuposto é a igualdade, essa ilusiva aberração bio-psicológica.
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De Anónimo a 11.01.2018 às 18:17

Aberração é haver mentalidades como a sua no século XXI.
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De Nuno a 11.01.2018 às 12:14

O que essa palerma não compreende, é que se o Diogo tivesse feito o mesmo a um homem (porque de idade mais avançada, porque carregava qualquer coisa pesada, porque falava ao telemóvel e tinha as mãos ocupadas, porque o Diogo se esquecera de qualquer coisa e decidira naquele momento voltar atrás sem lhe atirar a porta à cara, ou por outro motivo qualquer) esse banal gesto de simpatia não seria encarado como uma ofensa 99% das vezes.

Quem em tudo quer ver maldade, em tudo a encontra.
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De Anónimo a 11.01.2018 às 12:32

Igualdade entre homem e mulher já existe no mundo ocidental. A Terceira Onda do Feminismo é um movimento de supremacia das mulheres e nao de igualdade ou paridade.
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De Vlad, o Emborcador a 11.01.2018 às 13:19

Claro que existe. Sobretudo nos salários
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De Anti-misóginos a 11.01.2018 às 15:33

O Anónimo andou a ver demasiados vídeos de Youtubers de extrema-direita.
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De Vlad, o Emborcador a 11.01.2018 às 17:37

Ele sabe lá o que é o YouTube. Deve ainda ler o Diário da Manhã
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De Anónimo a 11.01.2018 às 13:05

Quando usa tags como "feminazismo" perde a razão. Será assim tão difícil desobedecer à lei de Godwin?
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De Anónimo a 11.01.2018 às 13:18

Eu, como suponho muitos, dou passagem à minha muito idosa mãe, à minha grávida nora, à minha mulher e minha filha, ás minhas vizinhas adolescentes, aos meus vizinhos carregados com as compras do supermercado.
Creio que o comentário acima sobre quem vê ou não maldade em tudo, é muito bem observado.
Em primeiro lugar questões de educação.
António Cabral
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De Vlad, o Emborcador a 11.01.2018 às 14:33

É porteiro?
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De Luís Lavoura a 11.01.2018 às 14:38

A gaja de trinta anos, como não tem um filho a quem tenha que pôr a sopa na mesa, porque graças a Deus vive bem alimentada e sem nada com que se preocupar, ocupa-se com estas taradices do micro-macho.
É isto e os women studies nas universidades norte-americanas.
Fez bem o Diogo em ficar calado. Melhor ainda teria sido balbuciar umas palavras em português. Calma, descontração e estupidez natural são necessárias.
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De Anónimo a 11.01.2018 às 18:23

O Luís parece-me o típico exemplo do macho latino misógino. Subentende-se pelo seu comentário que acha que as mulheres deviam era estar na cozinha a parir (sim, na cozinha, nada de ser em hospitais que isso é uma modernice). Só faltou mesmo defender o Salazar.
Menciona ainda as "universidades norte-americanas" quando essas mesmas universidades autorizam que escumalha anti-feminista e neo-nazi organize palestras por lá em nome de um falso conceito de liberdade de expressão. Mas sobre isso o Luís não fala. Já para não falar de que o presidente desse país é um porco misógino que admitiu apalpar mulheres sem o consentimento das mesmas.
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De Anónimo a 11.01.2018 às 15:25

Para mim é claro que o "cavalheirismo" que descreve, que apenas tem deferência (como por exemplo no abrir de portas) para com as mulheres, é uma forma de machismo (mesmo que de tipo paternalista). As mulheres até lhe podem achar graça, mas não deixa de ser machismo. Se fosse apenas boa educação, não se dirigia exclusivamente às mulheres. Se se dirige apenas às mulheres (e já agora, a todas as mulheres, lendo-se a todo o género feminino), é discriminatório, logo neste caso, é machismo. A quem é que isto não parece claro?
Lá porque esse comportamento lhe foi incutido "por educação", meu caro Diogo, não quer dizer que não possa olhar para ele com objectividade, e não o possa considerar machista...
Filipa
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De Nuno a 11.01.2018 às 16:10

Está a assumir que se dirige apenas às mulheres. O que do escrito do Diogo até será razoável assumir. Mas o Diogo não o escreveu (nem disse) há dois anos em Madrid. E se não fez cara de troglodita, como imagino que não tenha feito, a mulher em causa não tem forma de o saber. Logo, se o Diogo foi micro-machista na sua acção, a mulher em causa foi simplesmente rude na sua reacção.

O que me leva à conclusão: houve uma pessoa que tentou ser simpática, e falhou; houve outra que tentou ser pedante, e conseguiu.

Até acho muito bem que defenda que não lhe abram a porta Filipa, mas há limites de bom senso para a forma como o demonstra.
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De Luís Lavoura a 11.01.2018 às 17:07

Não é machismo, é que, se o homem deixa a mulher passar à frente dela, fica com ocasião de, indo atrás dela, espreitar-lhe o rabo.
As mulheres são mais interessantes vistas de trás do que de frente...
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De Vlad, o Emborcador a 11.01.2018 às 22:25

Isso só se aplica nas escadas. Nas escadas o homem deve ir à frente...foi o que li na Crónica!
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De Anónimo a 12.01.2018 às 09:50

Já o Luís não é interessante visto de ângulo nenhum.
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De Anónimo a 11.01.2018 às 15:31

Repito, é só uma questão de educação!
AC

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