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Maylis de Kerangal, Cuidar dos Vivos

por Inês Pedrosa, em 04.09.17

Maylis.jpg

 

  " O rosto de Sean no fundo do ecrã – esses olhos rasgados sob pálpebras índias – ilumina-se no seu telefone. Marianne, ligaste-me. Desfaz-se imediatamente em lágrimas – química da dor –, incapaz de articular uma palavra enquanto ele pronuncia de novo: Marianne? Marianne? Ele julgaria sem dúvida que o eco do mar no estreito da doca lhe dificultava a escuta, atribuiria sem dúvida às interferências a baba, o ranho, as lágrimas enquanto ela mordia as costas da mão, tetanizada pelo horror que lhe inspirava bruscamente esta voz tão amada, familiar como só uma voz sabe ser mas que de repente se tornava estrangeira, abominavelmente estrangeira, porque surgida de um espaço-tempo em que o acidente de Simon nunca tivera lugar, um mundo intacto situado a anos-luz deste café vazio; e agora destoava, aquela voz, desorquestrava o mundo, dilacerava-lhe o cérebro: era a voz da vida de antes. Marianne ouve este homem que a chama e chora, percorrida pela emoção que sentimos às vezes diante do que, no tempo, sobreviveu incólume, e desencadeia a dor dos impossíveis retornos  – um dia ela precisaria de saber em que sentido se escoa o tempo, se é linear ou traça os círculos rápidos de um hula-hoop, se forma anéis, se se enrola como a nervura de uma concha, se pode assumir a forma desse tubo que enrola a onda, aspira o mar e o universo inteiro no  seu reverso sombrio, sim, ela precisaria de compreender de que é feito o tempo que passa. Marianne aperta o telefone na mão: medo de falar, medo de destruir a voz de Sean, medo de que nunca mais possa voltar a ouvi-la tal como ela é, que nunca mais possa experimentar esse tempo desaparecido em que Simon não estava numa situação irreversível, quando todavia sabe que deve pôr fim ao anacronismo daquela voz para a reimplantar ali, no presente do drama, sabe que tem de o fazer, e quando finalmente consegue exprimir-se, não é nem concreta, nem precisa, mas incoerente, tanto que, perdendo a calma, porque tomado também ele pelo terror – acontecera qualquer coisa, qualquer coisa de grave –, Sean começa a perguntar-lhe, atormentado, é o Simon? o que se passa com o Simon? no surf? um acidente, onde? O rosto recorta-se-lhe na textura sonora, tão preciso como na foto do fundo do ecrã. Imagina que ele podia deduzir um afogamento, corrige-se, os monossílabos tornam-se frases que a pouco e pouco se organizam e formam um sentido, e pouco depois diz-lhe tudo o que sabe, por ordem, fechando os olhos e apertando o aparelho contra o esterno ao som do grito de Sean. Em seguida, controlando-se, explica-lhe a toda a velocidade que sim, o prognóstico vital de Simon é complicado, está em coma mas vivo, e Sean, por sua vez desfigurado, como ela desfigurado, responde vou já, estarei aí em dois minutos, onde estás? – e a sua voz é agora trânsfuga, reuniu-se a Marianne, atravessou a membrana frágil que separa os felizes dos condenados: espera por mim."

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1 comentário

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De Vlad, o Emborcador a 04.09.2017 às 08:01

Entre os felizes e os condenados, separa-os, apenas, a espera.

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