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Manobras de diversão

por José Navarro de Andrade, em 16.07.17

É um sintoma do espantoso subdesenvolvimento cultural português, exercido pela classes que se dizem letradas e atentas, que todos os problemas se discutam reduzindo-se a questões polí­ticas e, pior, abaixados à  politiquice do jogo partidário. É o velho aforismo: quando se tem um martelo, todos os problemas são pregos.

O caso da compra da TVI-PRISA pela PT-Altice, demonstra tragicamente os equí­vocos de semelhante tacanhez. Num desplante, mas nada despropositado para quem tem interesses corporativos a defender, o Senhor Primeiro Ministro António Costa colocou as interrogações a esta operação nos termos que mais lhe convêm. Dado o tom, foi logo a banda bradar grande charivari à porta da ERC, um organismo de momento letá¡rgico, mas de génese e funções ignóbeis (qualificação que terei todo o prazer em esmiuçar em circunstâncias mais alargadas).

E no entanto os grandes dilemas criados pelas intenções da PT-Altice colocam-se num plano muití­ssimo mais determinante, influente e alarmante, do que de a preocupação e conveniência táctica de saber quem ficará a mandar no alinhamento dos telejornais - "It's economics, stupid."

Era esperado que se a PT-Altice abocanhasse a TVI-PRISA, como numa queda em dominó, a NOS se fizesse à  SIC-IMPRESA. Postas as coisas em movimento a questão fundamental é só uma:

Como será a paisagem audiovisual portuguesa?

Decorrem imediatamente daqui dois assombros:

  1. Em que outro paí­s europeu (ou mesmo mundial) CINCO indústrias (a televisão aberta, a televisão por cabo, a Internet, as comunicações móveis e as comunicações fixas) ficam agregadas numa empresa? E se a NOS executar os seus propósitos acrescentem-se MAIS TRÊS: a exibição cinematográfica e a distribuição cinematográfica. E os direitos de futebol.
  2. Que liberdade de mercado, económica, comercial e de escolha se antevêem quando tantas áreas industriais de tamanha dimensão e incidência se limitam a um duopólio?

Enquanto a discussão não enveredar por este caminho é poeira nos olhos. Boa sorte.

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10 comentários

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De Vento a 16.07.2017 às 13:51

A questão é mesmo política e de concentrar nas mãos do Estado a capacidade de controlar a informação. A título de exemplo, alguns países árabes e outros fazem pressão sobre o Catar para que a televisão Al Jazeera deixe de transmitir. A liberdade de imprensa assusta o poder político.
Temos assistido a esta limitação, controlo e triagem de informação por parte do poder político, controlado em particular pelo sector financeiro, de maneira mais flagrante no mundo ocidental a partir de 2009. O exemplo mais marcante que se pode usar é o do candidato Trump nos EUA, hoje presidente por ter sabido direccionar o seu eleitorado alvo e ter contornado com eficácia a campanha contra ele movida pela mainstream media.
O exemplo americano é o da Europa.

O negócio da Altice nada mais nada menos é que um negócio para expansão, e não de concentração.
Ao Estado compete regular, proporcionando que sobre todas essas plataformas possam surgir conteúdos e empresas produtoras e fornecedoras de conteúdos direccionados para as mais diversas expressões e interesses culturais, dando também acesso à transmissão da informação política e outras informações de que se considerem relevantes para o interesse do público. Mas já não mais por dimensão da representatividade e sim em relação de igualdade.

Não compete ao Estado limitar ou favorecer a expansão das empresas como também não compete ao Estado delapidar o seu próprio património, como tem vindo a ocorrer ao longo do tempo com os governos do Bloco Central (EDP, GALP, CTT, PT, REN...) e até mesmo no favorecimento através de PPP´s.
Portugal não possui dimensão no mercado das comunicações para empresas de dimensão; e é natural que estas vejam em áreas paralelas a sua expansão e rentabilização.
O governo PS-PCP-BE se se opuser a esta expansão só revela que não pretende regular e sim concentrar poder.
É chegado o momento de terminar com as conversas em família que este governo também pretende dar continuidade.
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De José Navarro de Andrade a 16.07.2017 às 14:47

Caro "Vento" lamento não poder tratá-lo pelo nome, mas ainda assim o seu comentário merece resposta.
Olhar para os "mass media" como "comunicação social" e os órgãos deste campo como "órgãos de informação" é uma peculiaridade portuguesa e uma extraordinária limitação.
As questões fundamentais vão muito além da questão política e dos problemas da informação, por mais pungentes e antecipáveis que estes possam ser. E creio mesmo que coloca-los na frente e no centro do problema é observar a árvore para esquecer a floresta.
Concentrar em duas empresas verticalizadas indústrias inteiras que em todo o lado são competitivas entre si e umas com as outras, levanta problemas para além da imaginação. Por exemplo: que mercado publicitário haverá quando todos os meios estão na mão de dois fornecedores? Qual a perspectiva para o desenvolvimento comercial da produção audiovisual portuguesa se da net à free Tv tudo tem os mesmos donos?
Imagina-se um país, os EUA por exemplo, em que AOL, o Google, a Verizon, a Warner Bros. e a CBS, fossem a mesma companhia? E que só competisse com outra igualmente integrada?
Isto para não discutir a questão de que o "gajo" que fique a mandar, mande em tudo. No final fica é mais fácil para o Sr. Jerónimo de Sousa nacionalizar tudo num só lance.
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De Vento a 16.07.2017 às 17:03

José, o que aborda disse-o eu de outra forma. Quando afirmei que a questão era e é política estava a referir-me à exacta medida em que ela tem vindo a ser abordada, mas não fiz a apologia de que essa devesse ser a perspectiva.
Portanto, tendo em conta a realidade vivida ao longo da última década no mundo ocidental a questão é mesmo política.
Já a questão que aponta sobre o lençol do mercado publicitário, o José certamente não esquecerá que este mercado sempre esteve nas mãos de meia dúzia de órgãos. O mercado destes não será abalado, pois a sua receita maior é a oferta de qualidade e dos seus conteúdos. Há órgãos de informação populares, e concertam suas estratégias de desenvolvimento e manutenção de mercado nos conteúdos. Não vejo que com o advento dos novos meios de comunicação alguma vez os mercados destes tivessem sido ameaçados. Não obstante dificuldades que tivessem atravessado.
A questão que pretendo sublinhar é que o mercado ganha-se com aquilo que se lhe oferece, é necessário demarcar uma área do lençol completo para direccionar a oferta. A única questão que pode determinar o sucesso ou insucesso é a capacidade financeira e o tempo que se leva para conquistar essa fatia. Ainda assim, já abordarei o tema mais à frente, o acesso hoje proporcionado não só encurta esse tempo como também diminui o orçamento necessário no investimento para atingir esse(s) alvo(s).

Portugal não tem e nunca teve dimensão para um lençol assim tão alargado. Desde os anos 80 que Portugal tem vindo a observar o estouro de agências de publicidade e a consequente rotatividade de novos órgãos quer de comunicação quer de informação, em particular na vertente escrita. Paralelamente assistiu-se a uma variável na forma de publicitar, quer na questão do produto quer na questão institucional. O marketing digital ofereceu a liberalização e democratização no acesso à divulgação, e está em crescendo e mais barato.

Tudo isto para voltar ao ponto que subjaz no meu comentário, em termos gerais: o poder político tem medo de perder o controlo sobre a informação. Para presumir ter algum controlo sobre isto prostitui-se a interesses particulares. Sublinho, a mainstream media no mundo ocidental é controlada pelo sector financeiro directa e indirectamente, e este controlo permitiu-lhe obter dividendos políticos, pois não só colocava como fazia cair políticos. Este poder acabou.

Com o advento do fenómeno Trump constatou-se com estupefacção no mundo político e do poder da informação que quer a comunicação quer a informação tinha migrado para outras plataformas. E é através da constatação deste novo poder, verdadeiramente democrático, popular e liberal, pois permite o acesso a qualquer um informar, opinar e comunicar o que pretende, que hoje se concentram todos os receios. Uns usam e abusam do fantasma do terrorismo para limitar esta democraticidade, outros fingem que regulam para poder concentrar em suas mãos um poder de manipulação, e outros ainda pretendem aceder a estas plataformas para rentabilizar o seu negócio em termos das ofertas e projectos que tenham em carteira.

Em resumo, a PT-Altice concentraria a sua actividade se já estivesse no negócio da TV e da rádio. Como não está, ela simplesmente expande-se. E não pode haver nenhum governo que possa impedir uma empresa de voar até onde lhe é possível.
Américo Amorim dizia: "Temos de depender de todos, mas nunca de alguém em particular."
Concluindo, a questão é mesmo política.
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De Vento a 16.07.2017 às 17:32

Permita ainda acrescentar algo ao meu anterior comentário/resposta. O que ainda não compreendi é o porquê de tanto interesse na TVI por parte do poder político nos últimos anos. Não basta a RTP como canal público?
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De tric.Lebanon a 16.07.2017 às 15:14

quando é que o Ministério Publico investiga a máfia da Altice !!???
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De sampy a 16.07.2017 às 22:32

Certamente logo que termine a investigação sobre o polvo Sócrates-Granadeiro-Bava-Salgado-Lula. Lá para o ano 2369...
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De am a 16.07.2017 às 18:13

A RTP - não pertence ao duopolio e nem por isso deixa de ser diabólica!

Há alguma diferença de "isenção" jornalista ente ao RTP e as "duopolitas"?

Há... e muita _ - A "neopolina" é paga pela malta! ( e não é pouco)

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De Bernardo a 16.07.2017 às 19:00

RTP
É em tudo melhor, refiro só esta; metade do tempo em publicidade
Bernardo
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De Luís Lavoura a 17.07.2017 às 09:38

se limitam a um duopólio

E a Vodafone?

Não é duopólio. Além da Altice e da Nos, há a Vodafone.
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De Anónimo a 17.07.2017 às 10:40

Eis uma boa razão para gostarmos muito da Altice:
"O bilionário Patrick Drahi, o presidente da Altice, a empresa que neste ano adquiriu a PT Portugal, assume sem papas na língua que não gosta de pagar salários aos seus trabalhadores. “Pago o mínimo possível”, destaca o franco-israelita."
Assim é que é poupar, e bem precisamos de gente poupada.

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