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Jornalixo científico e reflexos sociais

por João André, em 05.09.17

Há uns tempos surgiu um artigo no Independent que andou a dar a volta por Facebook e alguns blogs. O artigo do Independent, que tinha por título "Atheists are less open-minded than religious people, study claims" citava o estudo de um investigador da Université Catholique de Louvain onde este apresentava os resultados da análise das posições de pessoas religiosas e não religiosas a afirmações que analisavam a sua abertura de espírito.

 

O primeiro aspecto que na altura me incomodou foi a forma como os comentários ao partilhar a notícia do Independent (ou subsequentes) pareceram incidir apenas sobre o título da notícia, dando como adquirido que os ateus são simplesmente menos tolerantes que pessoas religiosas, assim, sem quaisquer outras considerações. As pessoas religiosas apresentaram a notícia como prova que são mais tolerantes e as não religiosas atacaram o estudo sem notar mais do que o facto de sair de uma universidade católica, como se a origem fosse automaticamente desqualificadora de rigor.

 

Em qualquer dos casos é pena. Primeiro porque o título da notícia equipara pessoas "não crentes" a "ateus" (algo que o título do artigo também faz). Depois porque qualquer conclusão retirada do artigo do independent é abusiva, dado que o artigo em si é curto, pouco informativo sobre o estudo e não apresenta as devidas ressalvas que qualquer estudo científico de qualidade deve apresentar.

 

A mais importante destas é o facto de o artigo salientar que é um estudo preliminar e que a amostra é pequena (por exemplo: os prticipantes que se declararam como ateus ou agnósticos constituíam 60% da amostra - dificilmente corresponde à realidade de qualquer sociedade moderna, por muito secular que seja. Por outro lado, os resultados indicaram que em certos indicadores, os não crentes demonstravam menos abertura de espírito a outros conceitos e noutros demonstravam mais. Ou seja, comportavam-se tal e qual os crentes: nalguns aspectos são mais dogmáticos e noutros menos. Aquilo que o artigo terá trazido de forma mais clara é precisamente o facto que os não crentes não são sempre mais tolerantes. Isto deveria ser óbvio, mas é também para isso (para provar ou contrariar a sabedoria "popular") que a ciência existe. [outras leituras sobre o artigo/notícia].

 

O que o artigo do Independent demonstra novamente em relação aos jornais é como estes estão mal equipados para tratar os assuntos científicos. Não os compreendem, lêem o essencial, fazem meia dúzia de perguntas de algibeira aos autores (quando fazem) e escrevem as conclusões mais sensacionalistas de que forem capazes. Aquilo que a disseminação do artigo vem provar, por outro lado, é que os consumidores destas "notícias" por via das redes sociais aceitam a primeira linha do cabeçalho do post, não lêem o que têm em frente, não compreendem o que lêem se o fizerem e que quando criticam o fazem através do preconceito mais à mão (neste caso: "os ateus são obviamente intolerantes" ou "tinha que ser de uma universidade católica").

 

No fundo, isto não passa do mesmo ciclo que refere o Pedro. Jornalixo, apenas aplicado à Ciência.

 

[Pequena nota: refiro o nome francês da universidade porque há duas universidades belgas que seriam traduzidas da mesma forma, a referida acima e a Katholieke Universiteit Leuven. No passado eram uma e a mesma universidade e apenas se separaram por idiomas em 1968. Penso que ainda existem sinergias entre elas, especialmente no que diz respeito a bibliotecas, administração e algumas iniciativas, mas para todos os efeitos são universidades diferentes]

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16 comentários

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De Vlad, o Emborcador a 05.09.2017 às 14:26

Mais que a verdade o que conta é a bomba da notícia. Depois logo se vê. São como aquelas sobre o índice de confiança do consumidor português. Sempre gostava de saber em que dias e a que horas fazem esses malditos inquéritos. Se numa segunda-feira pela manhã ou num sábado pela noite, depois de embarcado um belo tinto duriense....ou se à saída do Conde Ferreira....
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De João André a 07.09.2017 às 12:55

Depois do tinto eu tenho a certeza que Jesus Cristo não só existe como joga futebol no Desportivo Almagrense...
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De Pedro Correia a 05.09.2017 às 15:50

Fizeste muito bem em abordar este tema, sobretudo por este ângulo específico, João. Diria que é um assunto quase inesgotável. E é fundamental contribuirmos para separar as águas. Porque o bom e o mau, o excelente e o péssimo, andam por estes dias demasiado confundidos. O pior é que muita gente não dispõe sequer das ferramentas intelectuais indispensáveis para separar o trigo do joio.
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De João André a 07.09.2017 às 12:58

Para dizer a verdade Pedro, a falta de ferramentas intelectuais não me incomoda muito. Toda a gente é ignorante em relação à vasta maioria dos assuntos. E as pessoas que não são inteligentes não têm culpa disso.

Aborrece-me antes duas coisas:
1. que haja preguiça em ler e pensar criticamente;
2. que as conclusões saiam quase instantâneamente ao sabor dos pré-conceitos.

Nisto a ciência ajuda, mas apenas se bem ensinada. E mesmo assim, como bem referes, é apenas uma ferramenta intelectual. Ainda tem que ser usada.
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De Vento a 05.09.2017 às 16:15

Li com atenção também os links. A questão fundamental que me parece realçar divide-se em 2 aspectos:
- Existe uma religiosidade comum ao Homem, e todos também se enganam na dimensão desse conhecimento que aspiram;

- As questões de natureza dogmática são transversais ao Homem, mas dão-lhes nomes diversos e usam diversos argumentos para justificar o que não Sabem.

Por último, a ciência não é competente para determinar as realidades que não se vêem. Esta não tem nem autoridade nem Conhecimento para se pronunciar a favor ou contra. Só pode dizer: Há factos que ultrapassam o que conhecemos.
Por outro lado, os religiosos, ou crentes, só têm uma tarefa a demonstrar nesta problemática: testemunhar. Como qualquer testemunho, pode ser aceite ou não.
Concluindo:
"Na verdade, os cristãos têm uma antropologia própria, inspirada pelo Antigo e pelo Novo Testamento e meditada ao longo dos milénios por gerações de crentes, têm um anúncio preciso a viver e a transmitir no tocante à sexualidade, mas não se esquecem que esta última continua a ser um enigma (incluindo para a ciência, acrescento eu), tal como a morte e o sofrimento (ainda que não haja "céu" sem sofrimento, acrescento também eu). (...) Sim, nem sequer o discurso cristão sabe elucidar plenamente a presença de zonas misteriosas na sexualidade de cada um porque, como observava o grande filósofo Paul Ricoeur, «o eros é irredutível ao logos»."
Enzo Bianchi in Para uma Ética Partilhada

O grande problema que ocorre em torno dos grandes confrontos desta civilização reside no facto dos "cientistas" e "pedagogos", tal como também os da comissão para a igualdade do género, já saberem tudo, apoderando-se do Nirvana.
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De João Marques a 06.09.2017 às 00:24

"a ciência não é competente para determinar as realidades que não se vêem"

ou tem um "e" em excesso ou esta é a cereja no topo do bolo de imbecilidade ali lavrado.
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De Vento a 06.09.2017 às 12:30

Fez bem em corrigir. Acontece. A velocidade da escrita leva a isto.
Mas a amostra de que a imbecilidade impera está na forma como se pretende corrigir, apesar do que vai lavrado fazer entender o contexto.
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De João André a 07.09.2017 às 13:04

Primeira falácia: os bons cientistas não "sabem tudo". Serão os primeiros a dizer o contrário. Alguns comportam-se de forma arrogante, mas isso infelizmente é igual ao que se vê no restante da população humana.

Segundo: a ciência não pode provar nem desprovar a religião nem a fé. Primeiro porque não há instrumentos para o fazer (apenas se pode provar definitivamente que algo existe, algo que não existe é uma conversa diferente) e segundo porque seria um objectivo onde os marcos se movem (vide o argumento de Deus ser omnipotente e poder não querer que a sua existência seja provada, assim o impedindo).

O artigo não se debruça sobre a existência de algo transcendente, antes sobre as certezas, a abertura de espírito e o perfil de crentes e não crentes. A discussão sobre existência de Deus é para mim fútil.
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De Vento a 07.09.2017 às 14:16

Como referi, eu também li os links de seu post. O meu comentário insere-se no contexto geral. Mas vamos agora às afirmações que coloca.
O que refere sobre os cientistas não saberem tudo também eu o disse. Por isto mesmo eu coloquei entre aspas cientistas e pedagogos. São os vaidosos, também os da comissão para a igualdade do género, o alvo de meu comentário.

Sim, o objectivo da ciência não é desconstruir as estruturas fundamentais que regem as sociedades, ainda que imbecilmente alguns tentem fazer. Portanto, a ciência, tal como a religião, tem como tarefa buscar o que não conhece, e colocar a verdade que vai encontrando ao serviço do Homem. E levar as verdades que vai encontrando significa minimizar-lhe a cruz, o sofrimento. Mas, mais importante ainda, estabelecer relações harmoniosas nas relações humanas.
Por outro lado ainda, o "céu" é uma condição que o Homem atinge. Como tal, é nas suas opções que se determina o inferno e o paraíso, que aqui se inicia.

De Deus só se pode dizer o que não é. Afirmar-se Deus como algo resultante das equações intelectuais de cada um seria revelar um Homem e não Deus. A existência de Deus é sobrenatural. Se não está limitado pelas leis naturais, não há motivo para que esteja limitado pelo tempo. Se não está limitado pelo tempo, existe no passado, no presente e no futuro. É esta também a antropologia cristã.
Como tal, Ele pode existir antes do Big Bang. Para a tradição judaico-cristã , as palavras iniciais do Génesis «No princípio, Deus criou o céu e a terra» são inteiramente compatíveis com o Big Bang.

Como tal, a Sua existência prova-se na transformação que opera no Homem. E estas transformações também são acompanhadas de signos, isto é, de sinais. Estes sinais a ciência constata-os, porque os vê operados através de testemunhos fidedignos que ela mesma acompanhou, mas não os esclarece. Portanto, a sua posição face ao fenómeno deve ser de modéstia.

Concluindo, escrevi sobre as verdades que se vão encontrando. Mas não posso esquecer de afirmar que a Verdade não é uma fórmula, uma filosofia, uma equação. A Verdade é uma Pessoa, Jesus. É n´Este e pela acção do Espírito, o prometido do Pai que vai ao encontro em Pentecostes - e continua a vir ao nosso encontro, assim o desejemos - de homens e mulheres aterrorizados e enclausurados numa sala, que se operou a maior transformação social que o mundo conheceu.
Não obstante, quando o Homem esquece que é "húmus", isto é, que depende desse mesmo Espírito para dar vida ao "barro" (que é sinónimo de fragilidade) de que é formado, a desordem acontece.
Neste contexto, a ciência é uma mera ferramenta similar a outras tantas ferramentas que o Homem usa para tornar o mundo melhor. Uma das ferramentas dos religiosos é também a oração colocada ao serviço de todos, pois Deus quando envia chuva ela cai sobre justos e injustos. Se assim o faz, e escrevi metaforicamente, é porque ninguém está excluído desta proposta da construção do Reino, que aqui se faz.
Não é com abortos, com matanças, com subversões educacionais de género, com a destruição dos aspectos substantivos que regem a sociedade, a família, entre outros, que esse Reino acontecerá.
A igualdade, na diversidade, é por inerência um atributo do cristianismo.
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De Teresa Ribeiro a 05.09.2017 às 16:16

Todos os dias somos bombardeados com notícias sensacionalistas cujo teor é caucionado por "estudos". É o jornalixo a travestir-se de jornalismo sério apoiado em fake science. Uma aberração!
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De João André a 07.09.2017 às 13:05

O pior é que os jornalistas não compreendem o que lêem nesses estudos e depois "concluem" algo que nos estudos é apenas uma indicação em condições muito restritas. Enfim...
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De João André a 07.09.2017 às 13:05

E, esqueci-me, os jornalistas depois procuram o "contraditório", como se uma opinião diferente em ciência fosse algo ligado apenas a achismos.
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De João Marques a 05.09.2017 às 18:19

Estes "estudos científicos", muito mais que conteúdo, servem de referência, eles próprios objectos microscópicos sob a lupa de sociólogos, para aferir o declínio das "tradicionais fontes de informação fiáveis", vergadas à leitura diagonal da web, ao pensamento irreflectido, à vulgaridade de tudo que nos é espetado à frente dos olhos.

Não são ciência e, ainda pior, não são jornalismo.

Qualquer pessoa minimamente exposta ao método científico (e todos os cursos radicam no método) compreende o que é uma amostra representativa e o que é pensamento lógico, ainda que não domine o tema em questão.
As fraudes são mais fáceis de identificar que aquilo que eu gostaria - pelo que isso indica a respeito da intencionalidade da "comunicação social publicitária".
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De João André a 07.09.2017 às 13:07

Há tempos cheguei a ler que alguns 25% (cito de memória) dos artigos científicos não eram reproduzíveis por uma ou outra razão. Habitualmente por falta de clareza nos métodos mas mais frequentemente porque tinha feito escolhas selectivas dos resultados para melhor "pintar" as conclusões.

Se os cientistas já o fazem, os jornalistas que nem sequer compreendem o que lêem apenas irão agravar o problema.
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De JPT a 06.09.2017 às 16:31

Não é preciso qualquer estudo científico para se atingir essa conclusão acerca de pessoas que afirmam, categoricamente, que não existe algo que, por definição, é transcendente; que, invariavelmente, qualificam de "primitivos" aqueles que crêem nessa possibilidade; e que imputam todas as maleitas da humanidade a instituições que enquadraram todas as civilizações conhecidas e transmitiram praticamente todos os preceitos éticos que nos norteiam. Ao contrário da postura agnóstica do homem céptico e racional, o ateísmo é apenas mais uma forma de militância religiosa, mas sem o consolo que a crença no divino oferece (daí o ar permanentemente mal-disposto dos Dawkins e Hitchens desta vida).
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De João André a 07.09.2017 às 13:17

Quando falamos de pessoas com "certezas" não nos cingimos aos ateus. Conheci suficientes crentes com igual posição dogmática sobre a sua crença. Em número superior aos ateus que fizeram o mesmo - habitualmente porque há muito mais crentes que ateus.

Note-se o caso do anúncio "ateu" de alguns anos atrás no Reino Unido. Um grupo (de que fazia parte Dawkins) queria escrever nos autocarros: "There's no God. Now stop worrying and enjoy life". Fizeram-nos mudar isso para "There's probably no God". No entanto, se alguma campanha fizer referência explícita à existência de Deus (por exemplo: "Jesus salva"), já não são obrigados ao "provavelmente".

Ao contrário do que a maioria dos crentes afirma, a sua crença não está sob ataque dos ateus (ou sequer agnósticos). O que há é um aumento destes dois grupos e os crentes, no passado numa posição de completa supremacia sobre as "almas", sentem-se ameaçados. E depois acusam ateus de os atacar, de os reprimir e de terem "certezas" (chegando ao ponto de misturar "crença na não existência" com "não crença na existência").

Os ateus são tão dogmáticos como os crentes e provavelmente na mesma percepção, apenas tendo forma diferente de perceber essa crença. Se se perguntar a um físico ateu a sua opinião sobre fantasmas, é muito provável que receba uma resposta categórica na direcção da não existência dos mesmos (fantasmas...). O mesmo provavelmente acontecerá se alguém perguntar a um católico qual a sua opinião sobre a divindade de Maomé.

Dawkins é simultaneamente bom e mau para a sociedade. Bom porque abre o debate, mas mau porque, perante a fama que recebeu, depois acaba por o fechar. Dawkins vê o ateísmo como uma rejeição da religião. Para mim o ateísmo não mais é que uma ausência de crença em Deus. Dawkins é, para mim, anti-teísta, algo que eu não consigo ser, por muito que afaste a religião (ou outra Fé) da minha vida privada.

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