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Je vous salue, Daesh

por Diogo Noivo, em 11.02.16

Quando uma acção de violência gera efeitos psicológicos desproporcionados face aos danos materiais que provoca adquire peculiaridades próprias daquilo que se designa por terrorismo. Este preceito, enunciado por Raymond Aron em Paix et guerre entre la nations, deve ser entendido em conjunto com outro: é objectivo declarado de todas as organizações terroristas forçar o Estado a abdicar da sua superioridade política e moral. Por outras palavras, um dos propósitos da acção terrorista é o de obrigar o Estado visado a prescindir dos valores e procedimentos nos quais se funda e, dessa forma, faze-lo descer ao nível de quem comete actos terroristas. A adopção de medidas restritivas de liberdades individuais, bem como descontinuar princípios estruturantes de um Estado de Direito Democrático, jogam directamente a favor daqueles que, através da violência terrorista, procuram alterar o nosso modo de vida.

O Governo de François Hollande tem dado provas inequívocas de não entender isto e tudo o resto. À imposição de um Estado de Emergência, cuja necessidade ainda está por demonstrar, junta-se agora uma revisão constitucional para retirar a nacionalidade a terroristas. Se o princípio é errado e favorece a propaganda jihadista, torna-se preocupante quando a redacção da norma poderá prestar-se a interpretações extensivas, dando ao governo de turno uma discricionariedade tremenda. Ou seja, Hollande cede à pressão psicológica do terror e pouco a pouco vai abrindo mão da superioridade política e moral do Estado. Tudo o que não se deve fazer.

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7 comentários

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De Luís Lavoura a 11.02.2016 às 10:01

Excelente post. Estou totalmente de acordo.
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De João de Brito a 11.02.2016 às 10:55

"Quando uma acção de violência gera efeitos psicológicos desproporcionados face aos danos materiais que provoca adquire peculiaridades próprias daquilo que se designa por terrorismo."

Gera efeitos psicológicos... e/ou uma reação de violência acrescida, acrescentaria eu.
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De T a 11.02.2016 às 11:04

"superioridade política e moral do Estado"

Ela só existe se o Estado sobreviver. O Estado não está a fazer mais que reagir aos ataques e desafios que por via da subversão está sujeito, a erosão provocada pelos constantes atentados (de todas as formas e feitios), o aproveitamento na luta pelo poder, a emergência das facções anti-sistema fazem com que todas as armas sejam armas válidas para a sua manutenção.
Depois, vistas bem as coisas, é nesse limbo de virtuais superioridades "morais" e dos grandes valores, que os terroristas, nascem, evoluem e se movem (como nunca se moveram no passado) devidamente escudados por quem agita as bandeiras do perigo do Estado-todo-poderoso sem perceber do paradoxo que esse apontar dedo inaugura.

O Estado para ser Estado tem de ser todo-poderoso , daí que reserva para si o monopólio do uso da força e de outros meios de coacção e protecção. Estes que estão vedados aos restantes cidadãos não podem ser deixados à mercê de forças alheias à sociedade e ao Estado só porque "valores", que desde a emergência desta emergência, estão em perigo.

É tudo uma questão de escolha e prioridades, fechamos os olhos e fingimos que está tudo bem, ou invocamos a especial condição dos dias de hoje e damos uma luta sem tréguas a quem nos quer destruir.
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De Diogo Noivo a 11.02.2016 às 11:17

Temo que o assunto seja menos linear, T. Para usar a sua expressão, os terroristas nascem, crescem e movem-se também em Estados como o Egipto de Mubarak, a Tunísia de Ben Ali, a Líbia de Khaddafi, no caos Iraquiano e Sírio, entre outros locais mal frequentados. Seria aliás interessante perceber em que tipo de caldo político e social os terroristas mais “nascem, evoluem e se movem”.

E é o “estado todo-poderoso” do qual fala que se encontra num limbo: entre a democracia e o autoritarismo pretendido por quem ataca. Como é evidente, recusar medidas securitárias não equivale a fechar os olhos. É esse maniqueísmo que rapidamente corrói os princípios e valores nos quais se fundam os nossos Estados de Direito Democráticos.
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De T a 11.02.2016 às 11:41

Curiosamente, esse maniqueísmo dá para os dois lados, não é um exclusivo.

O que corroí os Estados actuais é esta minoria ruidosa que exige um Estado enorme que se apropria de todas as vertentes da sociedade mas quando este os tenta realmente proteger e tomar medidas que estando ao seu alcance e serem do seu propósito, são tidas como nefastas e perigosas. O Estado e os seus instrumentos visam a sua manutenção e sobrevivência. Esta pode começar com pequenos actos subversivos, à guerra convencional ao aos próprios cidadãos serem sequestrados pela retórica.

Quando se fala em corroer gostava de saber em que Estados ocidentais essa corrosão existiu ao ponto destes desaparecerem? Há algum exemplo? Será que foi mesmo pelos motivos que aponta? O que me parece é que se os Estados não tomam medidas duras, sérias e excepcionais - nestas e noutras situações inopinadas - aí sim vão correr o risco de se tornar irrelevantes, de serem substituídos por outros sistemas aparentemente mais capazes, fornecendo respostas aos anseios e preocupações dos seus cidadãos. Como deve calcular, exemplos desses existem muitos na história e sabemos bem como terminam. Os cidadãos esperam respostas - pelo menos a maioria deles - quando estas não surgem, eles irão procurar a quem as quer responder.

Os mesmos que acusam os Estados e as medidas que tomam de totalitários, lamento, mas são os mesmos que não entendem que a ultima vez que lutamos e ganhámos contra o totalitarismo que nos invadiu, tivemos de usar TODAS as armas ao nosso alcance, foi feio e doloroso, mas como é que teria sido travado de outra forma? Será que hoje era possível, não creio sinceramente.
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De cristof a 11.02.2016 às 16:23

O Holandinho estava com a popularidade e 7% e agora já vai em 22%; parvo como ele se tem mostrado, não é inverosímil que esteja a explorar o efeito mediatico das palhaçadas.
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De lucklucky a 12.02.2016 às 11:38

Porque é que o principio de tirar a nacionalidade a jihadistas é errado?

"favorece a propaganda jihadista"
Nunca hei-de entender porque é que muita gente diz coisas destas. Dá ideia que é uma frase feita para se sentirem bem e nunca pensaram num assunto.

Não percebem que tudo o que fizerem ou não fizerem favorece a propaganda jihadista?
Não percebem que numa guerra todas as acções e inacções têm sempre custos e que só o balanço entre as duas é que pode determinar a validade, e tal no meio de muita incerteza e factores desconhecidos?

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