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IPO. Pediatria. Falemos disto (agora já) sem medos

por Marta Spínola, em 04.02.15

Em dia de luta contra, deixo isto. E um abraço a todos, não só a quem luta, a quem tem alguém próximo que luta, não só aos mais pequenos, a todos, porque todos o tememos de uma forma ou outra e devemos luitar contra o cancro.

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Eu - como tanta gente - pensei muitas vezes o que seria a pediatria num sítio como o IPO. Todos queremos distância de tal sítio - do IPO todo, não só da pediatria - por todos os motivos e mais algum, se a pudermos ter. Nunca tinha lá entrado, nunca tive de lá ir. 

Ouvi muitas vezes e provavelmente também o terei dito que a ala pediátrica devia ser dura, que voluntariado sim mas ali não. Falamos muito, nós. 

O ano passado dei comigo a ir ao IPO com uma criança de pouco mais de um ano, a Carlota. Acompanhei dias de análises, consultas e exames e várias horas de espera de resultados, quer no Hospital de Dia quer no piso do Serviço de Pediatria. Vi crianças em tratamento, umas pacientemente à espera do fim, outras mais agitadas. Vi pais mais resistentes que outros, vi pais permitirem-se um desabafo lá fora para aguentar mais um pouco junto dos filhos. 

Testemunhei como o pessoal é dedicado e orientado para as crianças, vi os doutores palhaços acocorados cantar para a Carlota enquanto ela comia e não sabiamos se a sopa ía ficar ou voar no minuto a seguir. Não é um mundo de que se queira fazer parte, mas estando lá as coisas são feitas para que seja o nosso mundinho enquanto for necessário. E bem. E é.

Não, nunca me "fez impressão", no dia em que entrei pela primeira vez no Hospital de Dia o drama da minha cabeça foi-se. Não por não ser dramático o que lá se passa, naturalmente que é, mas o meu drama e o de tanta gente estava deslocado, não era por ali.

Vi muitas crianças, muitas. Uma que fosse já era demais, mas vi várias. E foi ao ver estas crianças que percebi como quando dizemos que não éramos capazes não podíamos estar mais longe da verdade. Eu acredito que muita gente não fosse capaz de ali estar, respeito a resistência de cada um. Mas passa-se a porta e não é sobre nós, passa a ser sobre eles. Comigo foi automático, sem esforço. Entrei e ali contavam só aquelas crianças, eu não, não as impressões, não os dramas de conversas ditas sem saber na pele sobre as coisas. Eu poderia eventualmente ajudar no que pudesse e não atrapalhar. A Carlota e os outros meninos é que importavam ali dentro.

Outra coisa de que as pessoas têm receio é de ver crianças em sofrimento. É claro que haverá níveis e casos para tudo, é claro que em pediatria há pré-adolescentes e é bem diferente com eles, sentem tudo de outra forma e torna-se mais duro nesses casos, admito. Mas muitas das crianças que vi temiam as "picas" - viam um enfermeiro e de beicinho queixavam-se "não... tu dás pica" (e o meu coração desfazia-se mais um bocadinho) ou de tirar adesivos, do repelão na pele. Isto comoveu-me de uma maneira que não sei explicar, problemas tão piores as levavam ali mas os medos delas são muitas vezes estes. A verdadeira e mais pura inocência. A mesmo inocência que as faz pedir aos pais para irem mais cedo e poderem ir brincar no Lions antes das análises, exames e tratamentos. 

O meu fantasma de fazer voluntariado num lugar assim foi-se. Não seria fácil, não tenho essa ilusão, mas hoje sei que teria a força que um dia achei não ter. Eles não choram o que lhes aconteceu, quem sou eu para me sentir fraca perante isso?

 

Originalmente publicado aqui.

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11 comentários

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De Luís Lavoura a 04.02.2015 às 13:19

Penso que depende de qual seja o IPO (há 3 no país, creio - Lisboa, Porto e Coimbra).

O meu filho mais novo já lá esteve, no ano passado, no de Lisboa. É uma maravilha (o piso de pediatria). Muito bem decorado, muito alegre, ótimas instalações. A comida é que não era lá grande coisa. Na Unidade de Transplante de Medula sim, a comida era boa.

E não creio que as crianças sofram muito. Até aos dez anos de idade, elas não percebem o que é um cancro. E, não sabendo, não sofrem. O sofrimento é para os adultos, que sabem que o cancro é letal. Para as crianças, creio que nem é muito duro.
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De Marta Spínola a 04.02.2015 às 14:56

No caso é o de Lisboa, sim.
É mais ou menos esse o propósito do meu post. Sofrer sofrem, mas é à maneira e escala delas.
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De Luís Lavoura a 04.02.2015 às 15:07

Já que a Marta foi lá ajudante, deixe-me fazer-lhe o seguinte reparo. A minha mulher observou lá que tanto as enfermeiras como, sobretudo, as ajudantes passavam a vida a dar doces às crianças cancerosas. Ora, segundo consta, os doces são muito bons para o desenvolvimento do cancro. Uma pessoa cancerosa deve abster-se totalmente de doces. Dar doces às crianças cancerosas não será, se esta teoria fôr verdadeira, nada conveniente.
E não é demasiadamente difícil. O meu filho parou totalmente de comer doces desde que teve o cancro. Nunca mais comeu praticamente um único doce, nem nada que leve açúcar. E vive bem assim.
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De Marta Spínola a 04.02.2015 às 17:39

Eu não fui lá ajudante, acompanhei uma pessoa com cancro, uma criança. Não tenho qualquer ligação ao IPO.
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De Cristina Torrão a 04.02.2015 às 18:38

As crianças sofrem mais do que o que se pensa. Mas também depende dos adultos à volta delas. Se eles mostrarem coragem, otimismo, segurança, elas sentem-se seguras. Claro que não é fácil (para os adultos).

As crianças também detestam ver os pais sofrer. Se notam que eles sofrem por causa delas, tentam acalmá-los. Um miúdo nosso vizinho, quando teve leucemia e via a mãe aflita, costumava dizer-lhe: "não te afljas, mamã! Nós vamos conseguir!" Ele tinha consciência de que podia morrer, mas não aguentava ver a mãe sofrer.

E depois digam que elas não sofrem...
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De ana sofia a 04.02.2015 às 17:50

Oh Luis, as crianças podem nao saber exactamente o que é um cancro mas garanto-lhe que serem retirados do seu ambiente familiar, passarem por quimio, ficarem mal dispostos, verem os seus companheiros de cama piorarem, nao poderem ter uma vida dita normal e sentirem a familia preocupada afecta-os e por mais circo cardinali que o ambiente seja, é claro que nao achem tudo uma alegria e sofrem tal e qual um ser humano porque, vai-se a ver e são um. mesmo antes dos 10 anos (surpresa).
Quanto aos doces do comentário seguinte, meu deus, deixe os putos terem um mimo de vez em quando, fosse todo o mal do mundo um mimo no fim de um dia a sofrer.
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De Luís Lavoura a 04.02.2015 às 18:16

Ana Sofia, eu tive um filho com cancro portanto não precisa de me ensinar sobre o sofrimento dele.
Quanto aos doces, é um mimo claro, mas, tanto quanto se julga, ajudam fortemente o desenvolvimento do cancro. Você vai dar às crianças algo que lhes faz mal? Olhe, eu não dou ao meu filho canceroso quaisquer doces, pelo menos até ter a certeza de que o cancro passou (um período de 5 anos). E ele não se queixa nada. Aprendeu que os doces fazem mal e por isso ele mesmo rejeita comê-los. Não custa assim tanto educar uma criança!
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De Com sua licença a 04.02.2015 às 14:38

Passe a referência, costumo contribuir para a Acreditar e para a Operação Nariz Vermelho - e há várias outras organizações de gente corajosa que dão alegria a essas crianças, como por exemplo a Makeawish.
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De Marta Spínola a 04.02.2015 às 14:57

Claro, e ainda bem que há essas instituições. Na imagem estão (ou deviam estar, não me aparece disponível) os doutores palhaços.
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De lucklucky a 04.02.2015 às 17:38

"Mas passa-se a porta e não é sobre nós, passa a ser sobre eles."

É isto.

Para mim uma das coisas mais chocantes no cancro é como os doentes podem parecer curados, alegres num dia e inconscientes no outro, é quase como se a doença estivesse a gozar conosco.
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De JdB a 04.02.2015 às 21:50

Sensibiliza-me sempre ver um texto sobre a pediatria do IPO (de Lisboa, principalmente) porque tenho memórias suficientes para viver com elas até ao fim da minha vida. Memórias tristes, mas que me deram um sentido para a vida.
As crianças sofrem, sim. Não sabem o que é um cancro, mas sabem o que é estar inchadas, perder o cabelo, levar "picas", estarem afastadas do ambiente familiar, serem gozadas na escola, sentirem-se mal fisicamente.
É por isso que acho o comentário do Luís Lavoura (que me merece respeito pelo caso próprio que relata) surpreendente. Como se o sofrimento que as crianças sentem dependesse apenas do conhecimento que têm da doença.
No dia em que ouvimos uma criança de sete anos a dizer que não quer morrer talvez percebamos que elas sofrem, têm angústias.
Foi por isso, também, que eu me juntei à Acreditar. É sobre eles que falamos, é para eles que actuamos.

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