Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Inverter Pessoa

por João André, em 06.05.16

Reflectindo sobre o post do Pedro, náo posso deixar de pensar que este acordo ortográfico é de facto a verdadeira geringonça do país. Não pela vertente técnica ou científica, sobre a qual não tenho competência para me pronunciar, mas pela vertente política.

 

À partida nada tenho contra uma reforma que elimine as vogais mudas da nossa ortografia. Qualquer reforma que torne a ortografia mais fonética simplificaria a língua sem que a tornasse menos subtil e rica. Não consigo pronunciar-me sobre as dificuldades ou objecções científicas de tal hipotética reforma (o Pedro avança algumas com os casos «Egito"/egípcio, "caráter"/característica ou "setor"/sectorial»), mas é difícil argumentar que uma completa opção pela simplificação da escrita não seria preferível. Pessoalmente teria dificuldade em a adoptar (tal como não adoto esta), pura e simplesmente porque aprendi a escrever a minha língua de uma determinada forma e demorará tempo até que pudesse escrever de forma natural de outra (da mesma forma que muita gente continuou a escrever pharmácia até ao fim da sua vida). As futuras gerações, no entanto, não teriam os mesmos problemas.

 

Só que essa seria uma reforma que teria de ter um aval científico. Na França, a língua é regulamentada por um organismo estatal (ou mandatado pelo Estado, como no passado a Académie Française). Na Alemanha é o Conselho para a Ortografia Alemã que assume o manto de guardiã da língua (ou, pelo menos, da sua ortografia). Em ambos os casos, as reformas promulgadas no passado foram contestadas e alvo de críticas (como provavelmente qualquer reforma o seria). No caso da reforma alemã de 1996, alguns dos aspectos mais polémicos foram retirados após oposição de vários agentes (nomeadamente o - deveria escrever a? - prestigiado Frankfurter Allgemeine Zeitung). Na França, as novas regras receberam oposição mas não foram, em geral, impostas e foi considerado que ambas as versões seriam correctas. A implementação das regras ficou a cargo de cada indivíduo ou organização, sendo as novas regras apenas recomendadas para funcionários públicos.

 

Já o Inglês segue o percurso oposto. É uma língua onde não há uma organização central que regule o seu uso e aplicação e que, como tal, se torna muito mais orgânica e fluida. Poderá dizer-se que neste caso a âncora da língua são as publicações mais veneradas, como o Diccionário da Língua Inglesa de Samuel Johnson, A História do Declínio e Queda do Império Romano de Edward Gibbon, as obras de William Shakespeare ou, fundamental, a Bíblia do Rei James (exemplos que já vi referidos no passado - outros poderiam ser citados). A partir daqui é possível encontrar variações na ortografia entre diversos países (o uso do "s" em Inglaterra e o "z" nos EUA, nomes terminados em "ough" em Inglaterra passam a terminar em "o" nos EUA, etc) mas também diferenças enormes na pronúncia de sons escritos da mesma forma em palavras diferentes ("ough", por exemplo em "tough" e "thorough", é o meu caso preferido).

 

Poderia argumentar-se que a penetração do Inglês demonstra a importância de não acorrentar a língua e a manter plástica, mas eu não subscrevo este ponto. Vejo o domínio do Inglês como o resultado das actuais situações geopolítica, geoestratégica e geoeconómica. No passado o Inglês já tinha demonstrava esta plasticidade e no entanto o domínio de línguas como o italiano, alemão ou françês demonstraram que a importância segue mais linhas sociais que normas (ou ausência delas) científicas.

 

Há ainda no Inglês um risco: ao permitir a sua evolução independente, não demorará a que o Inglês nos EUA seja ininteligível para os ingleses e vice versa (em muitos casos os norte-americanos já demonstram dificuldades em compreender os nativos do Reuno Unido). Mesmo dentro de um país tão vasto como os EUA, a evolução da língua poderá levar ao surgimento de não só dialectos como de línguas distintas.

 

Seja como for, isso estará no futuro. Para um estrangeiro, aprender uma língua como o Inglês é facilitado pela flexibilidade que eliminou elementos mais complexos. Já a normalização da língua como com o Alemão ou Francês, conforta quem a aprenda, por não se defrontar tão facilmente com múltiplas variações.

 

Em qualquer dos caso, há no entanto uma definição clara em favor da auscultação da audiência a quem a reforma (ou sua ausência) se destina. O Alemão e Francês surgiram de esforços escolásticos claros e permitiram ajustes e períodos de ajustamento. O Inglês nunca perdeu o seu carácter transiente e informal.

 

Impôr uma reforma administrativa sem grande lógica ou coerência científica (é o que percebo em relação a este acordo) e não admitir um período de nojo para a sua implementação e teste é o maior pecado que qualquer Estado pode cometer em relação à sua Língua. Pessoa escreveu que a sua pátria era a Língua Portuguesa: o Estado quer inverter a relação, tornando o Estado a pátria do portuguès. Isto, mais que a reforma em si, é o que me move contra o acordo.

Autoria e outros dados (tags, etc)


21 comentários

Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 06.05.2016 às 12:13

Mas o Estado admitiu um enorme período de nojo! A reforma foi feita e anunciada há uma data de anos mas só há um par deles é que se tornou oficial. Houve imenso tempo para as pessoas aprenderem a nova ortografia. E, mesmo agora, continua a haver quem não escreva nela.
Portanto, houve (e continua a haver) amplo período de nojo. Não sei que mais nojo pode o João André pedir!
Imagem de perfil

De João André a 06.05.2016 às 12:42

Em termos formais é verdade Luís, mas a reforma não começou a ser implementada de forma suave. Foi aprovada e deixada como abandonada até chegar o momento em que foi imposta em alguns círculos e oposta noutros.
Sem imagem de perfil

De Costa a 06.05.2016 às 13:30

Esta reforma, sobretudo - mesmo que "humildemente" nos não pronunciemos sobre questões de ciência - falha estrondosamente nos seus objectivos.

Não uniformiza: o país com, por longuíssima margem, maior número de habitantes que alegadamente falam português, manda-a às urtigas e evolui paulatina e, parece, orgulhosamente, para uma língua própria (o caso parece bem mais evidente do que aquele - EUA - que invoca).

Não uniformiza, novamente: não o faz, não o poderá realisticamente fazer, salvo cenário de pesadelo, na sintaxe e no vocabulário.

Não simplifica: introduz ainda mais facultatividades e ambiguidades do que aquelas que se poderiam apontar à anterior ortografia (o caso "para", basta para questionar o mérito de toda a "reforma").

É cientificamente indefensável: acabo por suscitar este aspecto, apenas para remeter para os muitos exemplos que Pedro Correia - e outros, aqui e noutros lugares - tem apresentado.

Aliás eu não tenho que ser médico para me aperceber de que estou doente. Não tenho que ser engenheiro ou mecânico para me aperceber de que o motor do meu carro funciona mal. O mero bom senso autoriza-nos, dentro de limites de bom senso, a opinar sobre aspectos que académica ou profissionalmente não dominamos. E aqui esses limites bastam para constatar o absurdo de tudo isto.

"Isto" que só não é absurdo se visto sob critérios inconfessáveis, ou menos ligados à normal e saudável evolução de uma língua. Só perante esses critérios fará sentido. Tal como apenas uma militância cega à realidade (ou vivendo noutra) e fanatizada o poderá defender.

Costa

Sem imagem de perfil

De Costa a 06.05.2016 às 15:01


"Não simplifica: introduz ainda mais facultatividades e ambiguidades do que aquelas que se poderiam apontar à anterior ortografia (o caso "para", basta para questionar o mérito de toda a "reforma")."

Peço desculpa: a ortografia que erradamente qualifico de "anterior" é na verdade a legitimamente actual. É que a somar a tudo o resto que de mau se pode invocar a pretexto da aberração ortográfica, há também a clamorosa violação da ordem jurídica portuguesa pela qual se pretende firmar a sua vigência.

Essa gente, toda ela, desde os primórdios da questão, tão cheia de si e da intocabilidade do estado (não o escreverei com "E" maiúsculo), não se deu nem se dá ao trabalho de formalmente cumprir o necessário para legitimar - formalmente que fosse, apenas - a coisa. E, salvo meia-dúzia de abencerragens (assim parecem ser tomados, pela turba), ninguém se perturba minimamente com a coisa.

Tão avançado é o patamar civilizacional português que o que deveria ser uma sempre presente questão de cidadania : quem policia o polícia?, não ocupa minimamente os espíritos (a não ser talvez na mais estrita lei penal e pergunto-me se no melhor sentido; mas é todo um outro tema).

Costa
Imagem de perfil

De João André a 06.05.2016 às 20:30

Assino por baixo em tudo.

Apenas uma clarificação: como não entendo quase nada de línguas (fora o saber falar uma ou outra), também não sei onde termina o meu conhecimento e começa a minha ignorância. Por isso prefiro não me pronunciar sobre méritos científicos e simplesmente adoptar uma atitude como que sobre a Arte: gosto ou não gosto. E deste não gosto, embora alguns dos objectivos não me incomodem em si mesmos.
Sem imagem de perfil

De Ana C. Leonardo a 07.05.2016 às 10:00

Absolutamente de acordo! Como Nação, nada nos orgulharia mais reconhecer o "brasiliano" como uma novilíngua do Português europeu... E, caro J.A., não é necessário ser perito ou proficiente na língua para reconhecer a mediocridade do AO90 - basta ser utilizador! A ceifa que imprime ao étimo (latino, grego) é motivo suficiente para rejeitá-lo! Como deveria ter sido, também e desde logo, a reforma de 1911! Que maleita é que teria vindo ao mundo se tivéssemos continuado a escrever "Pharmácia"? Que maleita é que teria vindo ao mundo se tivéssemos continuado a escrever "sciência"? Por certo, poucos seriam aqueles que hoje não identificariam "sciência" com "consciência"! A simplificação do instrumento linguístico (seja ele qual for, e de que forma seja feita - por decreto ou por via popular) só traduz a ignorância colectiva de um povo.
A.C.Leo
Imagem de perfil

De João André a 09.05.2016 às 13:36

Nada teria contra "pharmácia". O departamento de engenharia química onde estudei situava-se inicialmente num edifício ainda hoje conhecido como "Laboratório Chímico" e afectuosamente chamado de "o chímico" (e pronunciado com o "ch" como hoje, não com o som de "quí").

A mim faz-me menos diferença como são as palavras escritas do que a forma como qualquer mudança me influenciará a vida. Mudanças pouco lógicas - para mim - e que se tornem obrigatórias serão mais problemáticas. Já para os meus filhos não farão qualquer diferença.
Sem imagem de perfil

De M. S. a 06.05.2016 às 12:51

Caro João André:
Sempre ouvi da parte dos defensores do Aborto Ortográfico dois argumentos:
1.º - É preciso eliminar as consoantes que não se lêem;
2.º - Este Aborto Ortográfico unifica a Língua.
Ora, é precisamente por ter feito o contrário do que se apregoou que estou contra ele.
Propôs-se eliminar as consoantes que não se lêem, mas só o fez em relação a algumas (ainda por cima usando critérios que ferem os mais elementares princípios da genealogia da Língua), o que gerou uma confusão generalizada.
Mesmo entre os seguidores acríticos, os que são mais papistas do que o Papa, que optaram por escrever na nova forma mesmo antes de o dito estar implementado oficialmente, umas vezes escrevem correctamente outras não, normalmente vai tudo a eito e cortam as consoantes que se mantiveram.
A desunião ortográfica resultante é de tal ordem que Maria Regina Rocha contabilizou a sua dimensão num artigo todos os que opinam sem conhecimento de causa deviam ler (http://www.publico.pt/opiniao/jornal/a-falsa-unidade-ortografica-25921941);
Quanto à coerência estamos conversados - propôs soluções diferentes para situações semelhantes - umas vezes escreve-se de uma maneira, outras de outra, apenas porque sim, porque este Aborto Ortográfico é uma manta de retalhos muito mal tecida.
Acrescento outra questão externa ao dito, mas que sobre ela vale a pena reflectir.
Portugal não tinha em 1990 (quando o governo do inefável Cavaco o concebeu politicamente) e, especialmente, em 2008 (quando o governo do desclassificado Sócrates de má memória o ratificou), coisas muito mais importantes com que se preocupar do que com a (unificação?) da grafia da Língua.
Por exemplo, o crescimento da economia que, desde a entrada na CEE e, especialmente, desde a entrada no euro, foi piorando a olhos vistos, tornando o país insustentável, de que só poderia resultar, inevitavelmente, cada vez mais dívida.

Imagem de perfil

De João André a 06.05.2016 às 20:35

Três aspectos:
1) não disse que o AO cumpre qualquer dos objectivos referidos.
2) Sobre a incoerência não escrevi porque prefiro não o fazer. Não sei quando meterei o pé na poça por ser uma área do saber que não domino minimamente.
3) Não gosto do argumento do "não tinham coisas mais importantes que fazer"? Um Governo, seja ele qual for e liderado por quem for, tem muitas coisas para fazer. Algumas importantes e outras menos importantes. Também tem muita gente a trabalhar. E não vejo porque razão dois secretários de Estado, na Cultura e Educação, não se poderiam ocupar com estes assuntos (independentemente daquilo que decidissem). Não se pode dizer que contribuam muito para redefinir a política fiscal do país, não é verdade?
Sem imagem de perfil

De Octávio dos Santos a 06.05.2016 às 13:35

O AO é por si só um nojo; não tem de haver um período do dito para o tornar menos do que é, para o tornar mais «aceitável». Aliás, nenhum período seria suficientemente longo para tal; não interessa quanto «tempo de adaptação» existe se há uma vontade colectiva predominante que se recusa a «adaptar-se» a algo. Malaca Casteleiro e outros «acordistas» colaboracionistas haviam previsto que, por esta altura, o «aborto pornortográfico» já nem seria um tema controverso e estaria perfeitamente consolidado. Nisso enganaram-se espeCtacularmente, tal como em outros aspeCtos.
Sem imagem de perfil

De V. a 06.05.2016 às 15:11

Eu sou a favor das consoantes mudas e da manutenção das referências etimológica — a aprendizagem é uma progrssão para categorias abstractas de conhecimento e portanto a banalização da língua pela oralidade (o triunfo da quantidade sobre a qualidade) é sempre um movimento contrário à função da aprendizagem e do ensino. Tudo o mais é política e jacobinismo.

O mesmo jacobinismo que tudo tem feito para confundir Portugal com a República e com o Estado. Não é por acaso que os funcionários públicos foram instruídos para colocar "República Portuguesa" no campo da "nacionalidade". Reparem neste pormenores da próxima vez que forem preencher papelhinhos para pagar prebendas ao vosso estadozinho (vosso, não me revejo nisso).
Imagem de perfil

De João André a 06.05.2016 às 20:40

Eu não voto a favor ou contra nada. Adoptarei ortografias que se me entranhem facilmente. Imagino-me a escrever "adotado" em vez de "adoptado", mas não me vejo a escrever "Egito", em parte porque quase pronuncio o "p".

É indiferente. Não se vota nisto de forma directa. Se o tema for suficientemente importante para si, pode votar em partidos que queiam abolir o AO. Caso contrário vote de acordo com aquilo que prefira. O que ainda não vi (pelo menos com expressão) é um pedido de referendo sobre o assunto. Talvez não seja importante o suficiente, goste-se ou não.

PS - o Estado é também seu, se é dele cidadão. Goste ou não. É isso a democracia. Se não o quer, pode sempre tentar emigrar e depois pedir outra nacionalidade. Felizmente Portugal é livre para isso (não o recomendo, no entanto).
Sem imagem de perfil

De V. a 07.05.2016 às 00:53

Isso de votar é uma treta, adianta pouco. O referendo ao AO vem sendo reclamado há muito tempo e é importante mas o PS só deixa fazer os referendos que sabe de antemão que vai ganhar. Este tema é mais importante do que 99% do que é legislado porque é o que não é efémero. Noto no seu pensamento a ideia de que se não é expresso não é importante, mas isso é o que nos tem acontecido e o que nos trouxe ao nada em que estamos: parece que só existe o que é sugerido pelos jornalistas da sic e a sua bagagenzinha intelectual (bastante snob, aliás). Mas Portugal é precisamente o contrário. Temos o espaço cívico do país ocupado e infestado pela política e pelas causazinhas de esquerda e pelo Estado e a iniciativa privada e indivdual (onde está a riqueza e a critividade) são permanente castigadas por galambas e futebóis e "autarcas". Autarcas, fucking LOL. Obrigado pelos conselhos mas isso é para quem tem esperança: eu prefiro o raciocínio.
Imagem de perfil

De João André a 09.05.2016 às 13:51

A importância de qualquer tema é altamente dependente de quem o avalia. Há alguns que serão importantes para praticamente toda a gente. Outros para quase ninguém. Não sei quantas pessoas considerariam este tema mais importante que 99% dos outros, mas talvez haja relativamente poucos. Isto não quer dizer que o seu ponto de vista não tem validade, apenas que talvez não haja muita gente a partilhá-lo.

De resto, culpar o PS faz pouco sentido. O PSD e o CDS/PP estiveram no governo e não mudaram nada. Os partidos não chamados PS são neste momento maioria no governo e não me parece que estejam numa de revogar o AO. A importância legislativa que se lhe dá é relativamente reduzida (correcta ou erradamente é outra discussão).

Não vejo SIC há muito tempo. Nem TVI. Mesmo RTP muito pouco. Aliás, quase não vejo televisão, mesmo onde vivo. Não sei o que noticiam, para dizer a verdade.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 06.05.2016 às 16:05

É um bom ângulo de análise, João. Original e estimulante. No essencial estamos de acordo.
E neste caso é isso que me interessa: somar em vez de subtrair.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 06.05.2016 às 17:48

Nunca compreendi tamanha e tão prolongada polémica a respeito do AO.
O AO não tem qualquer relevância linguística.
Não justifica, por isso, tanta paixão, seja ela a favor ou contra.
A indiferença seria o mais adequado.
Porque o AO ortográfico não passa de uma mera questão de política económica.
Imagem de perfil

De João Campos a 06.05.2016 às 20:29

Acho - é uma percepção, apenas, nada factual - que estás enganado num ponto, Mais do que as "actuais situações geopolítica, geoestratégica e geoeconómica", houve algo nos últimos 20 anos que tornou o inglês numa autêntica língua franca: a Internet (mais as TIC em geral), com a indústria do entretenimento nas suas variadas formas a acompanhar. Nenhum outro idioma consegue competir neste domínio, e duvido que venha a conseguir (a dada altura a coisa torna-se difícil quebrar o ciclo).

Se fores perguntar a malta da minha idade (30) ou mais nova cá em Portugal, se calhar ficarias surpreendido (ou não) por ouvir muitos dizer que aprenderam inglês à custa da Internet e dos videojogos, até porque o ensino público é uma bosta no que toca às línguas. Olha, nem vou mais longe: o meu inglês escrito aprendi-o à custa do esforço de leitura de ficção científica e de novelizações de jogos que jogava/jogo (Magic); o falado veio de cinco anos a jogar World of Warcraft, com três sessões semanais de quatro horas (pelo menos) a conversar através de VoiP com malta de sítios tão diversos como Madrid, Manchester, Reykjavik, Estrasburgo, Estocolmo ou a minha aldeia no Alentejo. O actual emprego que tenho devo-o ao meu inglês escrito e falado, pelo que alguma coisa deve ter corrido bem por aqui.

Com o francês tenho a experiência oposta - sem outros incentivos, sempre me fiquei por aquilo que aprendia (ou que não aprendia) na escola. Curiosamente, sendo do interior rural como sou, ainda venho do tempo do Ensino Básico Mediatizado (vulgo Tele-escola), onde se começava no quinto ano com Francês - dito de outra forma, estudei o idioma do quinto ao décimo-primeiro ano (sete anos, mais um do que Inglês), e nunca tive uma nota abaixo de 16. Ainda assim, não falo francês, não escrevo francês, e só entendo francês se o estiver a ouvir em câmara lenta ou se me der para rever pela milésima vez o "Amélie"; (um dos meus filmes preferidos, já agora).

(espero que o comentário não venha repetido, já que isto deu erro na publicação)
Imagem de perfil

De João André a 09.05.2016 às 14:07

Tens razão João, não o contesto. A internet foi fundamental. Só que não lhe atribuo a razão para o domínio do inglês, antes a considero uma plataforma de disseminação da língua por ter sido criada e dominada num ambiente de domínio dos países de língua inglesa. A internet resulta como sabes da Arpanet, que vinha do departamento de defesa dos EUA. I Tim Berners-Lee, que inventou a world wide web, era inglês e estava baseado no CERN, que como comunidade científica que é, usa(va) já o inglês como língua fundamental.

Se a internet tivesse surgido nos anos 20 ou 30 do século XX, provavelmente teria disseminado o alemão. Em 1870 possivelmente o francês. Neste momento é o inglês. Como escreves, será muito difícil de quebrar a sua hegemonia. Isso significa que quando o inglês deixar de ser usado como língua franca (daquia 50, 100 ou 1000 anos), provavelmente existirá outra plataforma que a promova.

O meu inglês vem em grande parte do que aprendi na escola (deu-me as bases) e foi polido (como contigo) com filmes, livros, contacto com outras pessoas. O meu francês vem da escola e do pouco contacto que tive com outras fontes. Hoje é a minha pior língua (entre as que afirmo dominar minimamente).

Aprender línguas é outra discussão. Não gosto de entrar nas experiências pessoais porque vai parecer que me estou a gabar (e estarei), mas fui aprendendo as línguas que sei (também parte da razão da posição que tenho hoje) graças a estudo, contacto e jeito. Nem toda a gente tem a mesma oportunidade ou talento.

PS - o Amélie é girinho, mas não me impressiona muito. Parece-me muito sobrevalorizado. Vejo-o como um balão: colorido mas cheio de ar, sem verdadeira consistência. É (para mim) quase como um livro de Paulo Coelho, mas felizmente com uma maravilhosa banda sonora (essa ouço-a frequentemente).
Imagem de perfil

De João Campos a 09.05.2016 às 20:31

As línguas aprendem-se com contacto e prática, ganhe ela que forma ganhar. E hoje em dia, na falta de uma vida física no estrangeiro, dá sempre para arranjar uma "half-life" virtual lá fora.

O Tim Berners-Lee é um dos meus heróis. Sempre que leio/ouço mais um panegírico ao Steve Jobs dou por mim a pensar nele: quando falecer, só meia dúzia de geeks obscuros lhe vai fazer os obituários que merece.

(Gosto muito do "Amélie", mas daquele ano ainda gosto mais do "No Man's Land", que muito apropriadamente venceu o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Antes de ver o filme, lembro-me de me questionar: que raio de filme pode ultrapassar o "Amélie"? Depois vi o "No Man's Land" e percebi: certo, é este raio de filme.)

Sem imagem de perfil

De JC a 07.05.2016 às 04:14

"françês", "Diccionário", "impôr"?? Vá lá, que se bata no acordo, mas que se bata sem dar tiros nos pés.
Imagem de perfil

De João André a 09.05.2016 às 13:55

"françês" - distracção por escrever num teclado não português e que me levou a cometer um erro que não cometia há uns 30 anos.

"impôr" - asneira de "emigra".

"distracção" - erro a dactilografar por não reler o texto (olho apenas para o teclado).

reparei também que na primeira linha escrevi "náo" em vez de "não". mais uma vez questão de teclado diferente do habitual.

Não são desculpas, apenas explicações. Peço desculpa pelos erros, que está correctíssimo em apontar.
Abraço.

Comentar post





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D