Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Independências

por José António Abreu, em 10.11.14

catalunha.jpg

Seja qual for a posição que se tenha em relação à independência da Catalunha e à validade dos referendos em processos deste género (em especial, como o Pedro Correia salientou por alturas do realizado na Escócia, quando uma maioria pouco expressiva influenciada por uma realidade conjuntural pode forçar uma escolha sem retorno), convém não confundir as coisas: o que se passou ontem não foi um referendo; foi uma manifestação dos independentistas, a que mais de 60% dos potenciais votantes decidiu não comparecer. O governo de Madrid deve certamente reflectir sobre o facto de quase dois milhões de catalães se revelarem a favor da independência total e aceitar que o assunto tem raízes históricas demasiado profundas para ser empurrado para debaixo do tapete por via de preceitos constitucionais (se as Constituições tendem a garantir status quos frequentemente pouco saudáveis, usadas como grilhetas tornam-se obscenas) mas os independentistas deveriam fazer o mesmo sobre o facto, complementar e não menos significativo, de existirem cerca de quatro milhões que ou não se expressaram ou o fizeram defendendo alguma forma de ligação a Espanha. Desde logo, aceitando que decisões irreversíveis baseadas em questões de identidade cultural velhas de séculos não devem ser tomadas apressadamente, em época de crise económica - ou a questão da identidade cultural parecerá apenas um pretexto para conseguir mais dinheiro para a região; uma jardinice, digamos.

Autoria e outros dados (tags, etc)


14 comentários

Sem imagem de perfil

De Concordo... a 10.11.2014 às 15:41

Concordo, absolutamente.

E, como já tem sido apontado, os independentistas catalães odeiam é estar a "ajudar" regiões mais deprimidas de Espanha, coisa que, quando se trata de Angela Merkel e de paises europeus em dificuldades, é motivo da mais desregrada adjectivação.
Imagem de perfil

De José António Abreu a 11.11.2014 às 18:23

Nem mais. Tal como muitos portugueses do continente acham que a Alemanha tem obrigação de ajudar financeiramente Portugal mas torcem o nariz quando se trata de ajudar financeiramente a Madeira.
Imagem de perfil

De cristof a 10.11.2014 às 16:18

Pelos ecos que chegam das trapalhadas do sr Rajoy não admira os 25% do Podemos. A Espanha merece mais como governo.
Imagem de perfil

De José António Abreu a 11.11.2014 às 18:19

Que merece mais, de acordo. Quanto ao Podemos, veremos...
Sem imagem de perfil

De Vento a 10.11.2014 às 16:42

Não compreendi muito bem essa de que "mais de 60% dos potenciais votantes decidiu não comparecer".
Se aceitam para efeitos de estatística e projecções amostras infimamente menores, qual o motivo de os 2 milhões não poderem ser um indicativo concreto que a independência é desejada?

Não me pronuncio sobre a independência, mas pretender comparar a questão catalã a uma jardinice é o mesmo que ignorar que o referendo na Escócia só perturbou os Ingleses por causa do petróleo que só lhes pertence enquanto a Escócia desejar a "Union Jack".
Imagem de perfil

De José António Abreu a 11.11.2014 às 18:17

Não estou a comparar o pseudo-referendo a uma jardinice - estou a dizer que, se os independentistas não aceitarem um processo que, tanto quanto possível, afaste questões conjunturais de uma votação a sério, tudo parecerá apenas uma forma de reclamar mais dinheiro para a região. Note-se como, muito embora as tendências independentistas nunca tenham desaparecido, não se assistia a este frenesi nos tempos de bonança.

Quanto à representatividade, é evidente que, como escrevi, há mais de milhão e meio de catalães que, neste momento, desejam a independência. Mas os restantes não tinham qualquer incentivo para ir votar: sabiam que era inútil fazê-lo num 'espectáculo' sem qualquer valor legal organizado pelos independentistas. Numa analogia grosseira, se o PCP ou o BE decidirem fazer um pseudo-referendo sobre a permanência no euro ou na UE, eu também não me darei ao trabalho de ir votar, apesar de ter opinião sobre o assunto, que nunca me absteria de dar num referendo a sério.
Sem imagem de perfil

De Carlos Duarte a 10.11.2014 às 16:46

Caro José Abreu,

Peço desculpa, mas a sua análise não colhe.

Diz que quase 60% dos votantes resolveu não comparecer. É verdade. Mas quase 30% não compareceu nas últimas legislativas regionais. Mais, se somar os votos dos partidos que defendem a independência nas regionais de 2012, tiveram uma votação inferior ao sim deste referendo.

Os números aqui são simples: mais de 1/3 dos votantes registados na Catalunha foram votar num referendo "a feijões" e escolheram independência plena. Foram mais os votos nesta opção que na soma dos partidos independentistas nas últimas eleições legislativas regionais. Não me parece crível considerar que TODOS os independentistas foram votar neste referendo e todos os nãos (tirando uns 4,5% que foram, de facto, votar) ficaram em casa MAS que irão ser mobilizados num referendo a sério.

A questão aqui é um pouco como a britânica: se a opção, num referendo a sério, for as mesmas que neste a fingir (independência total, maior autonomia, manter as coisas como estão), acredito que o caminho moderado vença. Se forem confrontados, como foram os escoceses, com um sim ou não, arriscam-se a sustos (como a britânica).
Imagem de perfil

De José António Abreu a 11.11.2014 às 18:44

Transcrevo parte da resposta que dei ao comentador anterior:
"É evidente que, como escrevi, há mais de milhão e meio de catalães que, neste momento, desejam a independência. Mas os restantes não tinham qualquer incentivo para ir votar: sabiam que era inútil fazê-lo num 'espectáculo' sem qualquer valor legal organizado pelos independentistas. Numa analogia grosseira, se o PCP ou o BE decidirem fazer um pseudo-referendo sobre a permanência no euro ou na UE, eu também não me darei ao trabalho de ir votar, apesar de ter opinião sobre o assunto, que nunca me absteria de dar num referendo a sério."

Quanto à questão da independência, nada no meu texto se lhe opõe, se essa for a vontade real dos catalães (tenho uma costela conservadora que não gosta de mudanças excessivas sem razões bem claras mas outra liberal que acha que as pessoas devem ser livres de se organizarem como bem entenderem). E penso mesmo que teimosias excessivas por parte de Madrid podem gerar resultados contraproducentes. Mas parece-me fundamental que o processo seja elaborado com calma, tenha discussão ampla e, de preferência, não ocorra em altura de crise das finanças locais. Talvez se devesse começar pela definição de um calendário com passos como a realização de um referendo nacional sobre a possibilidade das regiões poderem decidir sozinhas se querem ser independentes, com eventual revisão constitucional a seguir (se não tiver de ser realizada antes - não conheço bem a constituição espanhola) e, por fim, o - ou os - referendos regionais. Tudo isto provavelmente demoraria um par de anos mas, após séculos de integração, não me parece excessivo.
Sem imagem de perfil

De MP a 10.11.2014 às 17:46

A história da Catalunha está bem recheada de factos e lutas a reclamar pela independência. Esta votação foi mais um degrau que o povo escalou, de forma pacífica. Há uns senhores em Madrid que dizem que a votação não vale, que é ilegal e inútil. Há juízes vinculados ao PP que validam as opções do Governo PP contra o Governo da Catalunha. Há, em Portugal, uma onda na comunicação social - comentadores, blogs - que de algum modo alinha com as teses de Madrid. O que me espanta é como esses mesmos comentadores reconheceram legitimidade na intendência do Kosovo, reconheceram legitimidade nas manifestações do que chamaram "primavera árabe", reconheceram legitimidade às manifestações da Ucrânia e agora vêm objectar a um referendo limpo ou, o que é ainda pior, insinuar que não passa por se obter mais uns trocos para o Governo catalão. Estranho, não é?
Imagem de perfil

De José António Abreu a 11.11.2014 às 18:45

MP: para me poupar trabalho, faça-me o favor de ler a minha resposta aos dois comentadores anteriores.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 10.11.2014 às 17:52

Muito bem, José António. Subscrevo. A Catalunha, que nunca foi uma nação independente, goza hoje de ampla autonomia - maior do que a da Escócia e muito maior do que a Córsega, por exemplo - em quase todos as áreas da governação.
Num mundo cada vez mais interdependente, defender a "independência" - como já aqui escrevi - é de algum modo ambicionar um estatuto equivalente ao da Coreia do Norte, provavelmente o único estado realmente independente do planeta.
De qualquer modo, há dois caminhos para lá chegar.
Primeiro: o da legalidade constitucional - e aqui a Constituição de 1978, sufragada em referendo por todas as regiões de Espanha incluindo a Catalunha, é taxativa ao não permitir a consulta sobre este tema apenas a uma parte do povo espanhol. Referendos da treta, como o deste domingo, não contam para este campeonato.
Segundo: o da ruptura constitucional - e aqui os nacionalistas teriam de assumir, sem paninhos quentes e com todos os riscos que essa opção comporta, uma declaração unilateral de independência em conflito aberto com o Estado espanhol.
Acontece que não há declarações de independência quando apenas metade da população, no máximo, aspira a tal objectivo. A independência ou é um projecto colectivo ou não é nada.
Acresce que a força política maioritária na Catalunha - a Convergência e União, lesada por inúmeros escândalos de corrupção nos últimos meses, nomeadamente os que afectam o seu ex-líder carismático, Jordi Pujol, que governou a região durante 23 anos - não inclui a independência na sua declaração de princípios nem a defendeu abertamente no seu programa eleitoral das últimas eleições autonómicas, realizadas em Novembro de 2012.
Com nacionalistas a meia haste como estes não corremos o risco de ver a Península Ibérica balcanizada. O que é, convém dizer, uma boa notícia para Portugal. A última coisa de que precisaríamos era da implosão do Estado espanhol, cindido por efeito de uma espécie de guerra civil de baixa intensidade, numa espécie de réplica dos Balcãs.
Porquê? Desde logo, convém recordar, porque a Espanha é de longe o nosso principal parceiro comercial - e uma constipação por lá pode contribuir para uma pneumonia aqui. Os amigos escolhem-se, os vizinhos não.
Sem imagem de perfil

De Vento a 10.11.2014 às 19:25

Essa última parte também se torna incompreensível. A Jugoslávia também era uma confederação e ninguém se opôs à balcanização da mesma.

A Alemanha só foi Alemanha com Bismark contrariando a hegemonia austríaca.

Quero dizer que a unidade não significa necessariamente hostilizações de parte a parte. O que está em causa é o facto de se reconhecer que a Espanha é um país de nações; e porque não nações unidas e independentes? Qual é o contra-senso?

O UK encontra-se na mesma situação. Porque não o contrário?

Não vejo nenhuma contrariedade para Portugal a existência de nações unidas e independentes em Espanha e com isto manter a importância social e económica da Península Ibérica.

Sem imagem de perfil

De Luis Lavoura a 11.11.2014 às 12:43

A independencia dos Estados Unidos da America tambem se originou numa maioria pouco expressiva apoiada numa situacao conjuntural. Apesar disso, continua a ser muito celebrada.
Imagem de perfil

De José António Abreu a 11.11.2014 às 18:59

A independência dos Estados Unidos parece-me tão natural quanto a das restantes colónias das várias potências colonizadoras, em especial aquelas situadas a milhares de quilómetros da 'base' (creio que pouca gente estranharia se na Polinésia francesa houvesse gente a desejar a independência - e que até fosse a maioria da população). Ainda por cima ocorreu numa época em que as potências colonizadoras não se sentavam a discutir estas questões com os colonizados e em que os mecanismos de participação popular eram muito inferiores aos actuais. Dito isto, nada no meu texto vai no sentido de negar a possibilidade dos catalães decidirem se querem ser independentes. Mas terá de ser através de uma decisão maioritária ou, como o Pedro Correia refere acima e no texto que publicou hoje, através de uma declaração unilateral de independência por parte de uns quantos e logo se verá se têm apoio popular.

Comentar post





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D