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Hoje é tudo mais clean

por Teresa Ribeiro, em 11.12.16

 

29.jpg

 

Não foi assim há tanto tempo, mas as cenas que a minha memória privilegiou dos meus primeiros tempos de estágio parecem saídas de um filme de época. Éramos talvez 50 num open space desconfortável de um edifício de traça industrial onde no piso térreo funcionava uma gráfica. Habituei-me desde os primeiros dias às excentricidades de alguns colegas. O Afonso, que antes de sair prendia com um cadeado a cadeira à secretária, o Vítor, que adorava pontapear com as suas botas da tropa os fundos metálicos das secretárias, fazendo ribombar pela redacção a expressão das suas frequentes fúrias, o Zé, que espantava a neura disparando fósforos acesos para o tecto (convém aqui explicar que o chão não tinha alcatifa).

Visto à distância parece o cenário de uma casa de doidos e no entanto aquele era um padrão tido como normal no meu meio profissional. Essa cultura que tolerava excessos e extravagâncias, acolhendo sem censura as peculiaridades de cada um, era, de resto, coisa antiga. O que então testemunhei foi o pálido resquício da loucura dos tempos em que os jornais se faziam madrugada fora e os turnos de fecho se rematavam com uns copos em noites de boémia.

Que antiga me sinto por ainda ter, fugazmente, entrevisto esse mundo. Reconheço que nesses tempos não havia o mesmo profissionalismo. Àquela garridice também se somava muito amadorismo, mas a alegria era incomparável. A alegria e a descontracção. Hoje quem toleraria ruidosas explosões de mau humor ou brincadeiras ridículas com fósforos no local de trabalho?

Com phones nas orelhas e olhos no ecrã do computador, podemos até atropelar velhinhas para acalmar os nervos sem ninguém perceber. De facto podemos ver, ouvir e fazer tudo o que quisermos sem arriscar uma nota dissonante para o exterior. E assim é tudo mais clean.

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9 comentários

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De Jeremias a 11.12.2016 às 11:21

Tempos em que as coisas valiam pela utilidade que tinham. Hoje elas valem por si mesmas independentemente da sua inutilidade. É nos dias que correm ponto assente ter sido para o sábado o homem feito.
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De lucklucky a 12.12.2016 às 07:54

É tudo mais igual, é tudo mais socialista, é tudo menos liberdade.

Se o regime fosse de Direita a autora diria que é tudo mais cinzento...em vez de "clean"...
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De Teresa Ribeiro a 12.12.2016 às 11:03

Este regime não é de esquerda nem de direita, Lucky. É o que se pode arranjar.
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De lucklucky a 13.12.2016 às 08:13

Com o Estado a controlar mais de 50% da economia, só pode ser fascista ou socialista com eleições.

"É o que se pode arranjar."

Uma conservadora.
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De Luís Lavoura a 12.12.2016 às 10:32

Interessante era também que, ao que parece, nestes open space era permitido fumar. Ou seja, para além das outras idiossincracias da personalidade dos colegas de trabalho, também se tinha que apanhar com o pivete que eles emitiam.
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De Teresa Ribeiro a 12.12.2016 às 11:07

Era como diz, Lavoura. Demasiada poluição humana.
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De alexandra g. a 12.12.2016 às 17:02

Teresa,
para lá do factor 'clean', existe ainda aquela hierarquia vertical, até entre colegas (por baixas que tenham sido as classificações de licenciatura/mestrado/seja lá o que for).

desemprego os dias num local projectado de raíz para que se sinta o exterior, mas onde existem duas únicas janelas, as propriamente ditas, a hierarquia é vertical, a solenidade, total. No momento em que tomei a decisão de sair (passaram quase 2 anos), desatei a ser eu, soltando impropérios (calma, sou educada q.b. :), asneirando, lançando as minhas gargalhadas-sonoras-imagem-de-marca. Aos poucos, tem resultado (e ninguém desconhece o quanto quero sair): a aproximação, a pequena confidência, a grande confidência, o riso, são quase gerais (existem sempre os trastes que cultivam com denodo a aparência integral, carnavalesca, desumana, asséptica :)

______
p.s. - thanks for this

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