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Helmut Kohl (1930-2017)

por Luís Menezes Leitão, em 16.06.17

Depois de Bismarck, Helmut Kohl é seguramente o maior estadista da história alemã. Recebeu um país dividido em dois pela cortina de ferro, com a metade ocidental ainda a expiar a culpa do nazismo, e começou pacientemente a reerguer a Alemanha. Primeiro declarou que a Alemanha ia abandonar a tradicional expiação colectiva, indicando o seu próprio caso pessoal: "Eu tinha 15 anos quando a guerra acabou. Não tenho culpa nenhuma do que se passou lá". Depois foi o primeiro a exigir, após a queda do Muro de Berlim, a imediata reunificação da Alemanha. Enquanto os outros políticos alemães falavam nessa possibilidade como um cenário a longo prazo, e os restantes países europeus o viam como um simples cenário de pesadelo, Kohl exigia uma reunificação imediata. Para a obter, pagou tudo o que lhe pediram por ela. Primeiro, aceitou converter o marco DDR numa paridade 1:1 com o Deutsche Mark, o que fez aumentar enormemente o custo da reunificação. Depois aceitou abandonar o próprio marco a troco do euro, o preço que os parceiros europeus lhe pediram para não se oporem à reunificação, julgando que assim controlavam a Alemanha. Mas o homem que quando atravessou pela primeira vez o muro, proclamou perante a porta de Brandenburgo: "Este é o dia mais feliz da minha vida!", tudo aceitou para devolver à Alemanha o lugar que entendia lhe ser devido na Europa. O estado actual do seu país demonstra bem como ganhou a aposta.

 

Mas Helmut Kohl não era apenas grande em dimensão política, era-o também no excesso de peso que o atormentava, o que encarava com bonomia. Era obrigado a passar as férias de Verão numa clínica de emagrecimento e ao longo do ano ia vestindo fatos de dois tamanhos, um para a altura em que tinha saído da clínica, e outro para quando se aproximava a altura de lá regressar. O seu apetite incontrolável levou a uma história curiosa: Uma vez o seu adversário político Oskar Lafontaine foi atacado por uma louca que o tentou degolar, só por milímetros não lhe atingindo a carótida. Kohl foi informado dessa notícia quando acabava de sair do restaurante onde jantara. A perturbação foi tanta que teve uma quebra de tensão. Como resolveu o problema? Voltou para o restaurante e jantou outra vez.

 

Ironicamente, comentava-se sobre ele que era preferível ter um chanceler alemão que acordava de noite com vontade de assaltar o frigorífico do que de invadir os países vizinhos. Mas essa petite histoire não ficará para a História. Essa só recordará o homem que, através da reunificação alemã, inscreveu o seu nome em letras de ouro na História da Alemanha.

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6 comentários

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De Einstürzende Neubauten a 16.06.2017 às 21:35

Kohl sobre Bismarck tinha a vantagem de ser um democrata.
Respeitando a opinião expressa, penso que Kohl não se compara com Konrad Adenauer, nem que seja pelo facto de Kohl se ter visto envolvido com donativos não declarados de vários milhões de marcos que o ex-chanceler confessou ter recebido entre 1993 e 1998 e que se recusou a divulgar a origem, invocando ter dado a sua palavra de honra ao misterioso doador.

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De Pedro Correia a 16.06.2017 às 22:25

Justa e merecida evocação de um dos maiores governantes europeus da segunda metade do século XX. Um homem que, como é habitual, foi muito criticado e até ridicularizado pelos contemporâneos. O tempo deu-lhe razão em tudo. É a diferença entre um estadista e um político comum: este governa a pensar na eleição seguinte, enquanto o estadista pensa na geração seguinte. Kohl era um estadista.
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De Costa a 17.06.2017 às 15:22

Estadistas. Espécie manifestamente extinta. Por estes dias vingam os venais de legislatura. Uma sólida estirpe. E se assim se revela é porque agrada aos eleitores.

Eleitores culturalmente nulos, moralmente tão venais - podendo - como os eleitos, e assentes no doce berço dos direitos adquiridos.

Já não haverá estadistas, é de temer. Já não há povos de que emanem estadistas, é certo.

Costa
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De Vento a 16.06.2017 às 23:25

Morreu o missionário mas não terminou a missão. Khol não terá sido um acaso no contexto da queda do muro. Lech Walesa, Gorbachev e João Paulo II são os homens por detrás do mito.
Kohl, após a queda de Schmidt com o voto de (des)confiança, nada de diferente poderia ter feito.
Todavia é a pedra de toque da democracia cristã europeia. Por onde anda ela agora?
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De JS a 17.06.2017 às 14:31

" ... acordava de noite com vontade de assaltar o frigorífico do que de invadir os países vizinhos....". Exacto.

O problema de todos os outros Países europeus, hoje em dia, não é o "re-"unificador da Alemanha.

O problema -já insolúvel- de todos os outros Países europeus, hoje em dia, é esta "unificação" da europa. Muito pouco democraticamente imposta, mas muito propagandeada como boa e indespensável(!) ... por alguns que têm interesse numa, nesta, "União Europeia", hiper-centralizada.
Quer a nível central -incluído os alegres funcionários da "europa"- quer a nível local, os políticos ansiosos pelo seu prato de lentilhas.

Qualquer semelhança entre as Alemanhas "de H. Khol", e os países da Europa "de Junckers" & Cia, é delírio patológico que muitos estão e vão pagar bem caro.
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De Serafim f Santos a 18.06.2017 às 12:20

Grande homem

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