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Hábitos de trabalho e família

por João André, em 08.04.14

Henrique assinou no Expresso um texto onde avança como razão para a baixa natalidade em Portugal o facto de os portugueses começarem a trabalhar, segundo ele, a «meio da manhã» em comparação com alemães e holandeses. Tivesse ele referido suecos, finlandeses ou japoneses e os meus comentários seriam menores. Trabalhando e vivendo eu em ambos os países, tenho maior familiaridade e decido comentar.

 

O primeiro ponto é simples: independentemente da hora a que se começa a trabalhar, o dia tem o mesmo número de horas em todos os países: 24 (talvez não na Coreia do Norte ou Venezuela, países de prodígios). Isso significa que se se trabalharem o mesmo número de horas sobra o mesmo tempo para a família. Deixemos no entanto este ponto de lado e olhemos para o resto dos argumentos que demonstram como a comparação é forçada.

 

O primeiro ponto é a geografia. Quem estiver interessado em ver as horas de nascer do sol nos três países pode usar este site. Seja como for, em países onde o sol nasce mais cedo(mais a Alemanha, menos a Holanda), é normal que se comece a trabalhar mais cedo.

 

Quanto ao hábito de chegar e começar a trabalhar de imediato, não sei onde trabalhou Raposo, mas não foi nas empresas onde eu ou os meus amigos trabalharam. Na Holanda o dia começa invariavelmente com o café e tem interrupções a meio da manhã e da tarde para outro (tudo entre 15 a 30 minutos). Os alemães começam também com um café mas mais curto. Compensam isto com um almoço mais longo que o de meia hora dos holandeses.

 

Onde Raposo tem alguma razão é na insistência da vida familiar. Há pressão da parte dos empregadores para não se trabalhar demais. Isso está ligado à pressão que recebem dos sindicatos e das regras dos contratos colectivos de trabalho. Os horários não são um objectivo em si, mas o resultado da influência dos sindicatos. Talvez Raposo pudesse dedicar um pouco mais de atenção a este aspecto. Seja como for, a maior parte dos meus colegas chegam ao escritório entre as 8 e as 8 e meia. Muitos fazem-no mais tarde.

 

E a razão para isso são os horários de jardins de infância e creches. É aqui que os horários são feitos. Se uma creche aceitar crianças até às 9, o trabalhador não terá incentivo para começar mais cedo. Se a criança tiver de chegar até às 8, então a coisa pia mais fino. O mesmo se passa com a hora de ir buscar os filhos.

 

E falta então a protecção às famílias que querem ter filhos. Na Alemanha e Holanda há (em modelos diferentes) protecção de emprego para os pais durante 2 a 3 anos após o nascimento. Isso ajuda a planear o crescimento da família. Por outro lado há maior pressão social para que as mães se mantenham em casa para cuidar dos filhos.

 

Como uma amiga minha referiu em resposta a estas  minhas objecções ao texto de Henrique Raposo, «resume-se tudo a isto: não sei em que país vive Raposo, mas não é em Portugal». No fundo trata-se de mais uma das inúmeras variações do famoso lá fora.

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26 comentários

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De lucklucky a 08.04.2014 às 12:27

Continuam os argumentos sobre dinheiro quando o dinheiro tem muito pouco que ver com a baixa natalidade. Se assim fosse nunca ninguém teria tido filhos no passado, nem os pobres teriam hoje.

São os custos não o dinheiro.
Custos morais, auto estima, tempo.

O aumento de custos nasceu da evolução da cultura, da sua valorização da perfeição, da necessidade de certeza e segurança para se fazer um filho.
A cultura tornou os filhos demasiado caros.

E a percepção do risco.

Com a cultura que hoje temos ninguém teria filhos hoje se a probabilidade de uma criança morrer - ou a mãe -fosse a mesma que há 100 anos atrás.
O medo seria terrível.

É bom e é mau. Mas mais mau que bom.
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De João André a 08.04.2014 às 13:18

A palavra dinheiro não aparece uma única vez no post. Você tem estes comentários arquivados no computador e escreve-os quando lhe parece que o post aflora o assunto? Dá-se ao trabalho de ler?

Tenha as opiniões que quiser, mas faça-nos a todos um favor: se não tem um comentário relevante, então fique quietinho.
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De lucklucky a 09.04.2014 às 10:51

É verdade que não referiu directamente o dinheiro, logo aceito a critica, mas parece que não notou que nem foi isso o essencial do que escrevi.
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De Vento a 08.04.2014 às 12:53

João,

várias reflexões importa fazer sobre esta situação:

Há serviços em que o horário 9H00 to 17H00 é importante cumprir, em particular os serviços públicos e privados em que se exige uma resposta oportuna às necessidades das empresas e daqueles para quem são dirigidos;

Há outros serviços/actividades em que as exigências das mesmas obrigam a uma flexibilização do calendário.

Henrique Raposo não deixa de ter razão quando aponta o facto do solteirão disponível, que veste e despe a camisola a qualquer hora, o gajo porreirão que se entrega até não mais se poder entregar, ser o modelo geral do tecido empresarial português que não respeita os compromissos dos trabalhadores e pensa que eles devem ser uma espécie de bobi treinado a responder a qualquer assobio.
Por este motivo que vai referido ninguém se espante que os trabalhadores portugueses, qualquer que seja a sua actividade e responsabilidade hierárquica, se sinta no dever e obrigação de calendarizar o seu tempo de acordo com a norma existente.
Em Portugal damo-nos conta que a lei que nos víncula é o hábito.





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De João André a 08.04.2014 às 13:29

Vento, não quis entrar em especificidades porque o post tornar-se-ia excessivamente longo. Em defesa de Raposo seria fácil colocar os horários das fábricas, onde os trabalhadores por estas bandas começam a laborar às 7 ou 8 (e não entre as 7 e as 8). Mas isso é também o caso em Portugal (fiz isso numa fábrica durante um ano). O caso dos serviços é importante: não faz sentido estarem em funcionamento se a maior parte dos utentes não os utiliza (tem de levar filhos à escola, tem de chegar ao trabalho, etc). O termo "nine to five" é internacional precisamente porque se aplica à maior parte dos países.

O caso do trabalhador solteirão não é exclusivo português. É típico de sociedades onde se motiva o sucesso e a palavra "sucesso" é avanaçada por todo o lado. A maior diferença é que em Portugal há o medo de se perder um emprego caso não se trabalhe esse extra enquanto que na Alemanha ou Holanda isso não se passa (tanto). Mas garanto: há muitos holandeses e alemães jovens que, no início da carreira, julgam que têm que trabalhar 50 horas por dia. Além disso a energia que têm por ser mais jovens também os deixa mais predispostos a fazê-lo.
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De Vento a 08.04.2014 às 13:55

João,

não se trata de dender ou apoiar Raposo. Os serviços a que me referia não têm de estar de acordo com estas situaçãoes, são as pessoas que têm de se adaptar a essa realidade: Se não podem ir mandem alguém por eles a esses serviços. Se não têm alguém para fazer isso adaptem-se ao horário, fazendo.

Uma unidade de produção, assim como os fornecedores de matéria prima dessa unidade, têm de estar preparados para responder às necessidades nesse horário; e caso a demanda suba, no caso da produção, coloquem turnos nocturnos.
Mas há outras actividades em que o horário é para jogar para o lixo (quer no que respeita à hora de entrada quer à hora de saída).

Henrique Raposo tem o horário de sua reflexão talhado no modelo do funcionário público, mas o que existe já não é só o funcionalismo público, e no funcionalismo público nem tudo é igual. Não obstante, continuo a dizer que o trabalhador não pode ser uma espécie de bobi para responder a toda e qualquer êxigência. Tem de se criar compensações que permitam uma harmonia externa.
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De João André a 08.04.2014 às 17:41

Concordo com (quase) todos os aspectos. Em relação aos horários dos serviços, e sem eu ter qualquer solução mágica, deveria haver alguma forma de facilitar o acesso aos mesmos.

Quanto ao bobi, apenas aquilo que quero ressalvar: mesmo sendo certo que Portugal é de facto pior que a maioria dos outros países, o bobi português tem família no estrangeiro.
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De Luís Lavoura a 08.04.2014 às 13:07

Não compreendo por que motivos o Expresso (jornal que não leio) convida um idiota como o Henrique para ter lá uma coluna semanal, nem compreendo por que motivos todas as outras pessoas acham importante comentar os textos do idiota, em vez de os negligenciarem como merecido.
Provavelmente porque Portugal é um país de idiotas.
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De João André a 08.04.2014 às 13:20

Não iria ao ponto de lhe chamar idiota, mas certamente que Raposo está alienado do mundo onde vive.

Quanto à escolha do Expresso, é a mesma que a do DN em ter César das Neves. Têm opiniões atrozes que atraem estes comentários. O único erro, como indica, é meu: decidi comentar e dar importância àquilo. Foi de ter visto o texto enfiado no FB.
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De Costa a 08.04.2014 às 17:08

Ou, no caso do DN, certo "senador da democracia" que nem é Deus, nem é imune ao entorpecer das faculdades, próprio em regra da idade avançada e no seu caso bem exacerbado. Porque não há-de Henrique Raposo escrever e ser comentado, louvado ou criticado (pelo menos suscita discussões potencialmente interessantes)? Por não ter cartão do partido certo?

Costa
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De Manuel Guimarães a 08.04.2014 às 16:02

Luís Lavoura,

Se não lê o Expresso, porque é que se interessa com os textos do Henrique Raposo? Isso é a sua incessante mania de comentar tudo ou é só idiotice da sua parte?

Caro João André,

Dados os nossos horários um tanto ou quanto erráticos, em que raramente saímos a horas, não acha o horário "9 to 5" insuficientes ou mal estabelecidos, tendo em conta as necessidades de quem procura/precisa de um serviço público? Sempre me fez imensa confusão fecharem quando a restante população está a sair do trabalho!
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De João André a 08.04.2014 às 17:46

Por um lado eu tenho vontade de dizer o mesmo, por outro pergunto porque razão haveriam essas pessoas de ter que trabalhar noutros horários que fossem menos convenientes para si. Aqui tenho uma vantagem simples na Alemanha e Holanda: sempre que preciso de tratar de algum assunto tiro esse tempo. Não tiro um dia, não tiro umas horas. Simplesmente chego mais tarde, saio mais cedo, interrompo a meio. Nas profissões que o permitem, trabalho a partir de casa nesse dia (já o fiz quando tive de esperar por alguém que me viesse arranjar algo em casa, por exemplo). Nas profissões que trabalham por turnos isso é mais complicado, mas assumo que troquem com colegas de forma a poderem tratar dos seus assuntos.

Em Portugal lá tem que se perder a tarde ou a manhã ou o dia, pedindo autorização até quando o dia é deduzido às férias. Isso incomoda-me muito mais que o "9 às 5" (até porque 9 às 5 é atendimento e muitas vezes ainda têm que trabalhar para tratar da administração).
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De Manuel Guimaraes a 09.04.2014 às 09:26

"Por um lado eu tenho vontade de dizer o mesmo, por outro pergunto porque razão haveriam essas pessoas de ter que trabalhar noutros horários que fossem menos convenientes para si."
Porque quem faz serviço público fá-lo em prol do público para quem trabalha e das suas necessidades, não para a sua própria conveniência. Creio que muitas vezes nos esquecemos de quem trabalha para quem...

Quanto ao resto, estou inteiramente de acordo. A nossa rigidez laboral é absurda, mas é quase cultural! Há aquela mania das pessoas ficarem até mais tarde a trabalhar, só porque sim.
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De Luís Lavoura a 08.04.2014 às 17:49

Não me interessam os textos do sr Raposo nem sei por que motivos devam eles interessar especialmente a seja quem fôr (ao fim e ao cabo, o sr Raposo é apenas um de entre muitos portugueses, e as suas opiniões não são especialmente válidas nem especialmente bem informadas). O que me faz confusão é, precisamente, tanta gente falar deles. Por que se debate tanto as opiniões do sr Raposo em vez de debater múltiplas outras opiniões que por aí aparecem?
Parece que toda a gente neste país lê o Expresso e gravita em torno das opiniões que lá aparecem, por mais tolas que elas sejam!
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De Luna a 08.04.2014 às 13:13

Não esquecer que na Holanda a maior das mães passa a trabalhar part-time, ou apenas 4 dias por semana, e muitas vezes o pai também, para poupar na creche, e a criança ir só 3 dias por semana. E recebem crianças até às 9h e fecham às 18h (bem vi colegas meus aflitos quando se atrasavam para chegar antes da creche fechar).
Não esquecer também que na Holanda as únicas pessoas que saem do trabalho após as 17h (ou na loucura as 18h) são os estranjeiros. E sim, há pelo menos 1h30 horas de pausa diárias: pelas 10h30 o coffee break da manhã, às 12h30 o almoço, às 15h30 o coffee break da tarde, aos quais todos comparecem.
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De João André a 08.04.2014 às 13:23

Obrigado pela descrição extra. Essa é também a experiência que eu tenho. Não quis ser exaustivo para não tornar o post excessivamente longo, mas tinha essa explicação numa primeira versão. Só para esclarecer quem não conheça o sistema: após o nascimento, os pais têm direito a dois anos de trabalho a 80%. Podem escolher a opção referida de trabalhar 4 dias por semana ou simplesmente comprimir todos os dias de uma vez e ter direito a uns 4 meses extra (não pagos). A maior parte, como indica, opta pelo trabalho a 80% para poupar na creche.
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De Manuel Guimarães a 08.04.2014 às 16:05

Não fazia a mínima ideia desse caso. Realmente, dessa forma, os futuros pais têm mais armas à sua disposição para poderem efectivamente sê-lo.
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De João André a 08.04.2014 às 17:47

No caso alemão há ainda mais, mas é mais complexo, pelo que ainda não o percebi bem.
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De Carlos Duarte a 08.04.2014 às 15:20

Caro João André,

Tirando os pontos que referiu, considero que o texto do Henrique Raposo (bolas fora) foca o essencial: em Portugal descuramos a vida familiar em função da profissional, não por imposição do próprio, mas porque culturalmente ainda achamos bem que o "bom" trabalhador é o que trabalha até tarde e sem horários (mesmo que passe o dia todo no Facebook). Mais uma vez - e esta generalização faço-a sem qualquer receito - damos mais importância à aparência que à realidade.

Trabalhei (seja em enquadramento académico ou profissional puro) em três países: Portugal, Alemanha e Reino Unido e digo-lhe que, dos três, o que funciona melhor é a Alemanha. Porque as coisas são feitas a tempo e horas, porque são planeadas e, mais do que isso, porque o que se pede às pessoas é que façam o seu trabalho, no tempo que lhes é alocado. Se um trabalhador necessita de ficar a "fazer horas", alguma coisa está mal ou com o trabalho ou com o trabalhador. Não é uma situação normal e muito menos algo de desejável.
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De João André a 08.04.2014 às 17:50

Concedo: a mentalidade portuguesa é a do trabalhador humilde e respeitador (sic) do chefe que faz o que o mandam com prejuízo da sua vida privada.

Desses países a Alemanha será aquele que tem sindicatos mais poderosos. Daí essa possibilidade de defender os trabalhadores (até de si mesmos). O planeamento é de facto fundamental, mas os alemães fazem frequentemente mais horas. Aquilo que ainda hoje me impressiona neles é a capacidade que têm de ligar e desligar do trabalho e de permanecerem num estado de "ligado" sem grandes interrupções. É algo que tenho muitas dificuldades em reproduzir.
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De Carlos Duarte a 08.04.2014 às 18:15

Tive, há uns tempos, uma conversa com o responsável pela Sonae Indústria na Europa e falou-se dos sindicatos alemães. Ele, na altura, disse-me que era extremamente útil as comissões de trabalhores (que, na Alemanha, são muitas vezes mais relevantes que os sindicatos "clássicos") terem um assento na Administração, pois obrigava os trabalhadores a co-responsabilizarem-se pelas decisões, i.e., podem ganhar mais MAS têm de ter ganhos de productividade correspondentes. Cá, com o modelo de oposição sindicatos-patrões, não funciona. Em vez de se verem como partes distintas, com alguns interesses discordantes, mas com o principal interesse comum (a sobrevivência / crescimento da empresa), vêm-se como inimigos.
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De Trigueiros a 11.04.2014 às 16:05

Já digo há muito tempo que os sindicatos são um dos grandes problemas em Portugal.

Em vez de serem uma alavanca de crescimento, podendo ser influentes nas tomadas de decisão do governo e das empresas, preferem ser rolhas e deixar que tudo seja feito da pior maneira sendo arrastados para o debate demagógico que existe há muito tempo em Portugal.
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De Trigueiros a 08.04.2014 às 15:20

Em Portugal e da minha experiência, o pessoal que sai a horas é mal visto :(. Odeio ter que dizer isto mas o Raposo não deixa de ter um pouco de razão.
Mas, como me disse um dia um colega de trabalho "aquele que não sai a horas ou tem trabalho a mais ou é incompetente".
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De João André a 08.04.2014 às 17:50

Como escrevi acima, concedo que assim é. Mas também tem toda a razão no seu segundo parágrafo.
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De Miguel a 09.04.2014 às 12:39

Fico sempre espantado quando vejo alguém a escrever uma reacção a um dos textos ignorantes do Raposo, o tipo misógino que disse umas bacoradas hás umas semanas atrás que até deixaram o embaixador da polónia envergonhado em nosso nome:

http:/ www.lizbona.msz.gov.pl pt /actualidades/a_reaccao_do_sr__embaixador_ao_texto_publicado_nas_paginas_do_expresso

Quanto à nossa terrível indisciplina laboral, eu tenho a minha experiência, e se calhar não vale grande coisa pois conheço apenas o meio dos call-centers , mas no meu local de trabalho temos de estar todos logados às consolas à hora exacta, prontos para atender chamadas, até porque existe um programa que contabiliza o número de minutos que estivemos logados durante o dia, e se nos atrasarmos por meros segundos, eles são descontados no salário.

Também não podemos pôr a consola no descanso quando queremos, porque existe outro programa, gerido por um supervisor, que indica quando alguém está no descanso. É claro que às vezes há motivos válidos, mas se essa pessoa se esticar, o supervisor vai logo perguntar porque não está a atender chamadas.

Quanto às pausas, temos duas, de 15 minutos cada, para quem faz 8 horas. E ninguém sai da sala quando lhe apetece. Os tempos são geridos e o número de pessoas em pausa também, porque não se pode ter metade dos comunicadores a beber café enquanto há chamadas em espera. Às vezes são tantas que apenas pode ir 1 pessoa a pausa de cada vez, o que torna a conversa junto ao bebedouro num solilóquio.

Quanto a perder tempo na internet e Facebook , todos os computadores têm um programa (já vamos em três) que bloqueia o acesso aos mesmos. Até as portas usb estão bloqueadas, pelo que ninguém pode passar, por exemplo, um vídeo ou música para o computador para se entreter nas horas em que a supervisão baixa a guarda. E apesar de trabalhar no apoio a um serviço de televisão, o televisor da sala nunca está a passar filmes ou programas, nem sequer o noticiário. Está, isso sim, a mostrar o número de chamadas em espera, o número de chamadas em curso, o número de comunicadores em descanso e por aí fora. Só pontualmente podemos aceder a canais, por motivos de despistes técnicos.

A única benesse, se é que pode ser considerada tal coisa, é que assim que a hora de saída chega, paramos e vamos embora. Como começamos a trabalhar na hora exacta, também fazemos questão de não dar mais tempo da nossa vida à empresa. Nem sempre é possível, é claro, se a chamada for longa, mas há manhas para gerir o tempo de uma para que ela termine mesmo em cima da hora de saída de forma a não nos cair outra em cima.

Raramente nos pedem para ficarmos mais tempo, salvo quando alguém lixa um servidor numa parte do país ou uma actualização do sistema informático deixa os técnicos às aranhas, então lá vamos nós apagar fogos, com 50 chamadas em espera. É claro que nos pagam horas extraordinárias por isso, a miséria que são; mas também não nos podemos recusar pois no mês seguinte poderíamos ser despedidos por sermos 'difíceis' ou 'pouco produtivos,' a beleza dos contratos precários mensalmente renováveis. Mas como disse, é raro fazermos horas a mais.

Alongo-me em detalhes apenas para poder concluir com o seguinte: gostava de saber que empresas são essas onde se pode entrar à hora que se quer, às três pancadas, como se fossem donos do sítio; ondem podem fazer pausas longas sem que um superior os chame à atenção, como se trabalhassem sem qualquer supervisão; onde podem 'escolher' trabalhar mais tarde, como se isso não dependesse do chefe concordar ou não; onde tal comportamento não produzisse, ao fim de um ou dois meses, uma carta da ETT a informar o trabalhador de que iam dispensar dos seus serviços. Realmente, gostava de saber que empresas são essas onde os trabalhadores pelos vistos estão na mó de cima, fazem dos chefes gato sapato e andam pelos escritórios como se fossem barões que vão lá fazer um favorzinho. Gostava de saber onde fica esse mundo, pois não é o que eu e os à minha volta, entre os 20 e os 30 anos e noutras empresas, conhecemos, onde tudo é gerido metricamente e anda-se na linha porque há sempre formações a admitir pessoal novo e qualquer um pode ir para a rua na próxima fornada de 'dispensados.'

Gostava de conhecer esse paraíso laboral e arranjar lá emprego.
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De Life Inc a 10.04.2014 às 13:47

O Sr. Henrique Raposo já tem um repertório alargado de textos sobre a natalidade e não posso dizer que concorde com algum deles.

Embora atualmente trabalhe por conta própria, trabalhei muitos anos em gabinetes de arquitetura em que sair à hora era sinónimo de pouco amor à camisola. Do mesmo modo, era tolerável chegar depois da hora de entrada porque partia-se do princípio que a pessoa tinha estado a trabalhar até tarde. Ora eu nunca entrei depois da hora, entrava sempre mais cedo e raramente saí depois da hora. Um bom profissional sabe gerir o tempo de modo a cumprir todas as tarefas que tem a seu cargo. Embora tenha sido chamada à atenção algumas vezes, sempre fiz questão de ressalvar que tinha uma vida para além da arquitetura.

Após o nascimento da minha filha e após ter sido despedida ainda grávida, optei por trabalhar como freelancer. Só assim poderia usufruir dos primeiros meses e gerir o meu horário de modo a conciliar profissão e família. Na empresa onde trabalhava anteriormente nunca houve uma política familiar, pelo contrário. As mulheres sofriam represálias por terem de ir a consultas com os filhos, raramente tiravam a licença de maternidade e nem pensar em faltar porque os filhos estavam doentes.

Enquanto mulher, já me senti várias vezes descriminada em entrevistas quando me perguntavam se tinha planos de ser mãe. Tenho a certeza que fui excluída de muitas oportunidades por ter afirmado que sim.

Precisamos efetivamente de proteção à família, de apoios concretos e práticos que saiam do papel. E embora nos possamos basear no "lá de fora" temos mesmo é de nos concentrar em arranjar um modelo que funcione no nosso país e que impulsione a natalidade.

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