Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Há sempre alguém que diz não

por Pedro Correia, em 08.08.17

156711[1].jpg

 

1

Nicolás Maduro, confrontado com sondagens  cada vez mais negativas e um parlamento dominado pelas forças da oposição, lembrou-se de rasgar a Constituição mandada elaborar pelo seu antecessor, Hugo Chávez, e que vigorava apenas há 18 anos. Convocou por decreto uma Assembleia Constituinte sem prazo de vigência para esvaziar de funções a Assembleia Nacional e silenciar o que restava das vozes discordantes nos órgãos políticos de Caracas.

Foi uma autêntica farsa eleitoral, ocorrida num cenário sangrento, com dez mortos confirmados só nesse fim de semana e a capital venezuelana transformada numa cidade sob custódia militar. Sem debates, sem verdadeira campanha, com o recolher obrigatório imposto nas ruas por millhares de polícias armados até aos dentes, milícias paramilitares e até membros das forças armadas contendo o menor sinal de protesto. Com os círculos eleitorais desenhados de forma a que as regiões do interior, mais facilmente domáveis, faziam eleger quase tantos representantes como as grandes metrópoles, onde se concentra a maioria da população e o essencial da oposição. E um terço dos 545 lugares reservados à "constituinte" ocupados desde logo por putativos representantes de segmentos económicos e sociais, todos pró-governo, ao jeito da defunta Câmara Corporativa salazarista.

 

2

Nesse dia ocorreu a mais grosseira fraude eleitoral de que há memória este século em toda a América Latina. A tal ponto que a própria empresa internacional responsável pelo sistema eleitoral venezuelano denunciou publicamente a manipulação de pelo menos um milhão de votos, anunciados pelo regime mas afinal nunca entrados nas urnas. E a própria procuradora-geral da República, designada para esse cargo durante a vigência do mandato de Chávez, em 2007, anunciou a abertura de um rigoroso inquérito para apurar a extensão da fraude, recusando validar os resultados.

Pagou por isso: chamaram-lhe "traidora" e, apesar de o seu mandato só terminar por lei em 2021, tornou-se de imediato um alvo a abater. Desde logo, viu o inquérito às eleições invalidado pelo Supremo Tribunal, que nunca proferiu qualquer acórdão desfavorável a Maduro e é integralmente composto por um séquito de fiéis ao sucessor de Chávez, alguns dos quais nunca foram magistrados. Começando pelo presidente Maikel Moreno, ex-quadro da polícia política (a Sebin, equivalente à tenebrosa Stasi da antiga Alemanha comunista) que esteve dois anos preso pelo assassínio de uma mulher. Facto nada irrelevante, mesmo num país onde em 2016 se registaram 28.479 homicídios, 98% mantidos impunes.

A investigação à fraude, obviamente, nunca se fará.

 

3

Os crimes violentos em Caracas, a segunda cidade mais perigosa do planeta, tornaram-se parte integrante da paisagem urbana - agravando um quotidiano afectado pela persistente falta de víveres e de medicamentos. São como "uma epidemia fora de controlo", como a descreve uma jornalista do El País. Mas Maduro e a clique militar que o sustenta no poder parecem exclusivamente preocupados em dar combate a quem lhes faça frente.

Não admira, por isso, que mal foi anunciada a contabilidade oficial de votos a Sebin tenha detido dois dos principais resistentes à fúria repressora do regime: Leopoldo LópezAntonio Ledezma foi retirados à força de suas casas pouco após a meia-noite, contrariando as leis vigentes no país, e conduzidos ao sinistro presídio militar de Ramo Verde, onde se concentra a maioria dos cerca de 600 presos políticos do país.

Luisa Ortega, a corajosa procuradora-geral, foi  destituída pela amestrada Constituinte logo no primeiro dia dos trabalhos, "por unanimidade e aclamação", ao estilo da velha União Soviética. Sem inquirição prévia, sem processo, sem o exercício de qualquer contraditório. Acusam-na, absurdamente, de "cumplicidade com a insurreição armada" num país onde todas as armas estão em poder do aparelho repressivo do Estado ou das máfias do crime.

Autarcas eleitos por voto directo são hoje perseguidos pelo obediente Supremo apenas pelo facto de pertencerem a partidos da oposição. Como Ramón Muchacho, alcaide de Chacao, recém-condenado a 15 meses de prisão e destituição de funções públicas. Que "crime" cometeu? "Não acatou a proibição de encerrar ruas durante manifestações contra o Governo." É o quarto autarca opositor condenado nas últimas semanas, após Gustavo Marcano (de Lechería), Alfredo Ramos (de Iribarren), Carlos García (de Mérida) e José Barreras (de Cabudare).

Um cenário kafkiano que teve como única vantagem retirar os últimos vestígios de postiço verniz democrático a Maduro, agora convertido sem rodeios em ditador. Ameaça retirar a imunidade parlamentar aos deputados da oposição na Assembleia Nacional, agora esvaziada de poderes. Profere contínuas ameaças ao que resta da comunicação social independente. Manda encercerar juízes que ousaram desafiá-lo.

 

4

Já ninguém se preocupa sequer em ocultar o quadro de nepotismo, bem evidente no facto de a mulher de Maduro, Cilia Flores, o filho do casal - Nicolasito Maduro, de apenas 27 anos - e o ajudante de campo do Presidente figurarem entre os 545 constituintes. É um regime que se fecha em círculos cada vez mais concêntricos, incapaz de conviver com opiniões adversas.

Ser jornalista na Venezuela é arriscar a vida. Dois dias após a consumação da farsa eleitoral, um jornalista do diário independente El Nuevo País, José Daniel Hernández Sequera, foi encontrado morto. Outro jovem jornalista, Miguel Castillo, foi assassinado em Maio enquanto cobria uma acção de protesto, enquanto os directores do El Nuevo País  e da revista Zeta eram detidos sem culpa formada. "Maduro faz tudo para silenciar as vozes independentes nos media", denuncia a organização internacional Repórteres Sem Fronteiras.

Ser jovem na Venezuela é perigoso quando se protesta contra o regime. A Procuradoria-Geral da República definiu o perfil médio dos 109 mortos em manifestações entre 1 de Abril e 27 de Julho: estudantes do sexo masculino com 27 anos. A mesma idade de Nicolasito, já em pleno tirocínio para um dia suceder ao pai.

 

5

Ser venezuelano no país de Maduro é estar condenado à emigração por motivos políticos e sociais. A rede de organizações católicas da América Latina e Caraíbas para as Migrações e Refugiados acaba de denunciar um êxodo “sem precedentes” da população venezuelana para países vizinhos.

Ser cidadão de corpo inteiro na Venezuela, nos dias que correm, requer desassombro moral e coragem física. Segundo a ONU, o regime pratica a tortura e recorre ao "uso generalizado e sistemático de força excessiva" para dobrar quem protesta.

E no entanto na Venezuela de hoje, tal como no Portugal salazarista e em tantos outros países que estiveram e estão ainda submetidos a ditaduras, há felizmente sempre alguém que resiste. Há sempre alguém que diz não.

Autoria e outros dados (tags, etc)


12 comentários

Sem imagem de perfil

De Luis almeida a 08.08.2017 às 23:02

Quantas pessoas morreram em manifestações contra Salazar?
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 08.08.2017 às 23:08

Os tempos são outros, o escrutínio é outro, a exigência cívica transnacional é outra também. De qualquer modo, esgrimir estatísticas é sempre a pior forma de debater estes temas. Um morto nestas circunstâncias já é de mais.
Sem imagem de perfil

De César Sobral a 09.08.2017 às 10:09

Algumas. Como também no Tarrafal, mas ficava tudo no segredo dos Deuses...
Lembre-se de uma coisa : Não há ditaduras boas, ponto final.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 09.08.2017 às 10:22

Não há ditadura boas, concordo. O Tarrafal da Venezuela chama-se Ramo Verde.
Sem imagem de perfil

De Luis almeida a 09.08.2017 às 18:53

Quantas pessoas morreram no Tarrafal?
Sem imagem de perfil

De Vigia Coelhos a 09.08.2017 às 11:41

Não havia manifestações contra o botas, como tem havido na Venezuela. Mesmo assim morreram dezenas de pessoas ao longo dos compridos 48 anos de "estado novo".
Estado esse, que alguns paf's hoje querem reedificar.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 09.08.2017 às 11:46

127 mortos em quatro meses de manifestações severamente reprimidas. E largas centenas atirados para os cárceres de Ramo Verde - símbolo sinistro da ditadura venezuelana. Por delito de opinião.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 09.08.2017 às 21:53

Incluindo os mortos na guerra colonial?
Sem imagem de perfil

De Luis almeida a 09.08.2017 às 18:51

Nasci em 1971.
É verdade que Álvaro Cunhal tirou o curso de direito na prisão?
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 09.08.2017 às 22:15

O que tem o seu ano de nascimento a ver com o curso do Cunhal num texto sobre a Venezuela? Confesso: é areia de mais para a minha camioneta.
Sem imagem de perfil

De Luis Almeida a 09.08.2017 às 23:37

Peço desculpa, apenas referi a minha data de nascimento para salientar que não tenho recordação de como era viver no estado novo,por isso faço perguntas.
Gosto dos seus posts, mas como acabou com uma comparação entre o que passa agora na Venezuela e o estado novo apenas fiz perguntas para ver se há comparação possível .
Também sei que são um bocadinho provocatórias .
Mas não fico nada esclarecido quando juntam a guerra no ultramar com o Tarrafal.
Acabo este comentário a dizer mais uma vez que gosto de ler os seus posts independentemente de concordar ou não com eles.
Obrigado pela sua atenção.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 09.08.2017 às 23:43

Ah, agora entendi melhor a sua observação. Fez bem em detalhar: não tinha ficado muito perceptível.
Fica à consideração de quem queira responder.

Comentar post





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D