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Gestão de um falhanço

por José António Abreu, em 17.10.16

A estratégia do governo para a economia falhou rotundamente. É o próprio governo a reconhecê-lo, no orçamento para 2017, ao abandonar a via do consumo interno (prevê-se que o consumo privado aumente 1,5% e que o consumo público caia 1,2%) pela das exportações (previsão de aumento de 4,2%). Ou seja: Costa e o PS tomaram o poder após uma derrota eleitoral para, um ano decorrido, começarem a admitir a validade das opções do governo PSD-CDS. Infelizmente para o país, esta correcção de rota significa pouco: muitas medidas, já implementadas ou a implementar, servem de lastro a uma estratégia coerente e com um mínimo de hipóteses de sucesso. Não estamos somente perante um ano desperdiçado (um ano crucial, com o BCE a ajudar na frente da dívida pública) mas também perante a destruição de um ambiente favorável, que este governo nunca conseguirá recuperar - até porque, de forma a agradar às clientelas e aos parceiros da «geringonça», continua a introduzir medidas erradas e a evitar reformas necessárias. Na prática, o PS encontra-se entalado entre, por um lado, as pressões de Bruxelas, dos mercados (seria este orçamento igual se não fosse necessário convencer a DBRS?) e do BCE (onde se desespera ao ver a forma como vários governos aproveitaram a política monetária para adiar reformas) e, por outro, as pressões do PCP, do Bloco e das promessas irrealistas que Costa fez em 2015, com suporte técnico de Centeno, Galamba, Trigo Pereira, etc.

Mas a situação do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda é ainda mais difícil. Todos sabemos por que motivo o PCP aceitou integrar a «geringonça»: não podia autorizar a cedência a privados da gestão dos serviços públicos de transportes, pois isso representaria abdicar de toda a sua capacidade reivindicativa. Quanto ao Bloco, acossado pelo Livre, viu uma oportunidade para retirar PSD e CDS do governo e amarrar o PS às suas políticas. Há um ano, PCP e Bloco ainda conseguiram impor medidas relevantes a António Costa. Hoje, essa capacidade desvaneceu-se. Sendo o ónus de derrubar o governo demasiado pesado, aceitam tudo o que Costa está disponível para lhes dar. Neste orçamento, ele permitiu-se deixá-los a papaguear e a gesticular enquanto ia até à China; no regresso, como faria a qualquer arrumador de veículos, deu-lhes os trocos que tinha no bolso. Catarina e Jerónimo passarão semanas a queixar-se de que não estamos perante um orçamento de esquerda, mas aprová-lo-ão. E, não obstante a sobrevivência da sobretaxa de IRS e a inexistência de aumentos salariais na função pública, a CGTP permanecerá fora das ruas. «Assim se vê a força do PC», o velho slogan comunista, é hoje uma punchline.

Se, nos finais de 2015, ainda existia alguma margem para a dúvida, agora tal já não acontece. O orçamento para 2017 demonstra à saciedade que o governo de Portugal se encontra integralmente assente em interesses pessoais e partidários de curto prazo. Convicções genuínas e visão de futuro não existem ou são irrelevantes. Enquanto isto, o país aguarda, afundando-se devagar. Algo que os portugueses, atávicos no seu complexo de inferioridade mas também no medo em relação a toda e qualquer mudança comportando risco, parecem achar bem.

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12 comentários

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De jo a 17.10.2016 às 20:22

Temos que ver que o anterior governo acertou sempre as metas do orçamento. Até as diretas como o valor do défice do crescimento previsto e da dívida..
Ao terceiro orçamento retificativo e por excesso, mas andou lá perto... Ou talvez não!
Mas no caso desse governo não foi uma oportunidade perdida. Fizeram-se magníficos negócios nas privatizações e na proteção da banca.
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De José António Abreu a 18.10.2016 às 08:21

O anterior governo e a troika foram demasiado optimistas nas previsões de queda do PIB? Com certeza.
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/5086691.html
Que o anterior governo manteve uma linha coerente na reconquista da confiança dos investidores e no apoio às empresas exportadoras? Com certeza.
Este dá uma no cravo e outra na ferradura. Um excelente método para fazer asneira.
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De Vento a 17.10.2016 às 22:41

Eu bem sabia que o JAA havia de me dar razão sobre a quebra das exportações, sobre o défice (ainda que pessoalmente preferisse um défice entre os 2,7% e os 2,9%), sobre redistribuição do rendimento e também sobre o consumo interno.
Claro está que a um ser divino como eu bastaria aguardar para que o tempo revelasse o que eu sabia viria a acontecer.

Na linha da complementaridade que é habitual estabelecer sobre o que pretende dizer, refiro: quer o JAA dizer que não fosse o consumo interno que sobreveio com as disponibilidades geradas no OE de 2016 hoje Portugal estava numa encalacrada tremenda e que, findo o esgotamento da lengalenga do PSD/CDS sobre a esquizofrénica ideia do actual governo em baixar o défice ao nível a que se encontrará, proporcionaria ainda mais lenha ao discurso da oposição que se veio a revelar vazio e descabido de qualquer ciência quer política quer económica.

Contudo, ao omitir a paralisação da refinaria de Sines para manutenção, e a consequente quebra nas exportações dos produtos petrolíferos, assim como a quebra temporária na Autoeuropa, como um dos factores adicionais que contribuiu para tal décalage entre consumo interno versus exportações, quer o amigo JAA dizer que é ridículo que o OE 2017 aloque estes factores produtivos, solvidas as razões que originaram a quebra em 2016, como contributos para o aumento das exportações.
A realidade, a seu tempo, mostrar-lhe-á que um ser divino é sempre capaz de antecipar um crescimento nas exportações também por via da normalidade produtiva das referidas empresas.
Por favor, registe para memória futura este comentário.

Não obstante, registe também o seguinte e adiciona à referida memória anteriormente exposta: o aumento do consumo interno em 2017 será superior a 1,5%. E este consumo far-se-á sentir também pelo inevitável aumento de créditos às famílias que o sector financeiro registará. Logo, a quebra do consumo público é uma evidente acção que visa evitar o endividamento do estado ou das empresas do estado para contrariar eventuais deslizes nos valores estimados de emissão de dívida para 2017 bem como proporcionará a melhoria do saldo primário estimado que associado ao crescimento do PIB NOMINAL ajudará a baixar a dívida na percentagem também estimada, isto é, de 1,4%.
Adicionalmente, como o turismo, mesmo o interno, conta para as contas da exportação não se estranhe que o efeito da explosão por simpatia, associado ao excelente ano turístico que como ser divino que sou afirmei vir a ocorrer em 2016, se traduza não só na consolidação dos números já registados como também os supere.

Dito isto, e muito bem dito como compete a um ser como eu, verifico que o bom amigo e companheiro de reflexões JAA nestas ondas da economia faz um desvio para a retórica política tentando chamar a sua preciosa dama para um lugar que não lhe está destinado. O PSD de Passos está arrumado e o CDS quer ganhar alguns lugares que a este lhe pertencem.
Portanto, em 2017 assistiremos inevitavelmente à tentativa de desvio de votantes do PSD para o CDS, e esta luta desgastará ainda mais o que resta do PSD.
Não obstante, Cristas nem com o discurso sobre os "velhinhos" irá longe. Porque os "velhinhos" sabem quem é daltónico em matéria de cores nas linhas ditas vermelhas.
Entre o vermelho e o rubro o povo quer é chama.
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De José António Abreu a 18.10.2016 às 08:22

Eu poderia escrever "António Costa é uma besta" que ainda assim você começaria o seu comentário garantindo que eu acabara de lhe dar razão.
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De Vento a 18.10.2016 às 12:16

Quer o JAA dizer que no país das maravilhas quem prova aos seus opositores que estão errados e são cegos é besta.
Então, Costa é uma besta. Fiquei na dúvida se havia de colocar as aspas ou não. Deixo isso ao seu critério.
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De sampy a 17.10.2016 às 23:14

A excelência do pensamento comunista, segundo Tiago Saraiva (ver post acima deste):
Durante anos, o Estado descurou a manutenção das escolas - uma pouca-vergonha.
Depois, o Estado criou a Parque Escolar - e foi uma pouca-vergonha.
A solução para isto? Reintegrar tudo no Estado.
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De José António Abreu a 18.10.2016 às 08:35

A solução para os problemas do Estado passa sempre por mais Estado. Neste caso, talvez por empresas de construção civil e gabinetes de arquitectura públicos. Aliás, como se sabe, as empresas privadas têm todas equipas de construção e manutenção de edifícios para evitar terem de recorrer a serviços externos. ;)

(De qualquer modo, e ainda que às vezes ele demore um bocadinho a aprovar os comentários, é melhor discutir o assunto lá no texto do Tiago. Desta vez eu entrei no jogo mas, por regra, prefiro evitar fogo cruzado entre posts.)
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De sampy a 18.10.2016 às 11:36

Quis apenas aproveitar a ocasião para destacar como a teoria da roda quadrada continua bem viva no PC. Há que admirar o seu recentemente descoberto estoicismo na arte de engolir sapos, mas os resultados da previsivel indigestão vão ser lindos de se ver.
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De do norte e do país a 18.10.2016 às 11:00

Neste momento é inegável que 2016 foi mais um ano perdido.

A conversa é sempre a mesma, arranjam um inimigo que não o era e depois dizem que tinham razão. Mas não resolvem os problemas de fundo.

Sob a conversa da justiça social, o País está mais pobre.

Em 2015 com austeridade a economia cresceu mais do que em 2016 sem austeridade.

Demitam-se!
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De Adam a 18.10.2016 às 21:34

Já pensou que isso terá sido por causa da recessão dos anos anteriores?

Chega um momento em que não dá para cair mais, e o crescimento é mais evidente no tempo pós-recessão.
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De Fernando S a 19.10.2016 às 14:01

Estamos ainda no "tempo pós-recessão" (e supostamente "pós-austeridade") e o crescimento é metade do que era em 2015 !....

Mas quem andou nos últimos anos a dizer que poderiamos crescer MAIS no "tempo novo" foram aqueles que agora governam !!!
Afinal, no que é que ficamos ??!!....

Já agora, os "iluminados" que anunciaram que era possivel o pais crescer muito mais com um novo governo e uma outra politica (sem austeridade) são os mesmos que a partir de 2011 previram uma "espiral recessiva" que levaria a uma explosão do desemprego e a um novo resgate !...
Lembrar que em 2013 a economia inverteu e recomeçou a crescer e que em 2014 o pais deixou de precisar de um resgate e passou a financiar-se normalmente nos mercados !...
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De do norte e do país a 20.10.2016 às 20:51

Faço minhas as palavras do caro Fernando S. Óbvio.

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