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França e o futuro da UE

por José António Abreu, em 28.11.16

nomeação de François Fillon como candidato do centro-direita às eleições presidenciais francesas abre perspectivas interessantes. Se, como tudo parece indicar, for ele a defrontar Marine Le Pen na segunda volta, não apenas a eleição de Le Pen ficará quase impossível (por muito que a faceta social-conservadora de Fillon desagrade à esquerda «progressista», ele constituirá sempre um mal menor) como, qualquer que seja o vencedor, ficam garantidas mudanças fundamentais na política francesa – e, por arrasto, na europeia. É sabido que uma vitória de Le Pen conduziria a França para fora do euro e da UE, provocando o colapso desta. Mas uma vitória de Fillon garantirá uma alteração fundamental no balanço de forças entre os países que defendem e aplicam reformas estruturais e os países que, na prática, se lhe opõem. Fillon defende cortes no Estado e uma economia baseada na iniciativa privada e nas exportações. Num país como França, não é líquido que consiga fazer tudo o que pretende. No mínimo, enfrentará enorme contestação dos grupos que se alimentam do Estado. Mas terá o peso da estagnação francesa a seu favor (muita gente sabe que algo tem de ser feito) e uma legitimidade dupla: a conferida pela eleições e a decorrente da clareza, verdadeiramente admirável, com que tem exposto as suas ideias. Ora uma França reformista (honestamente, parece um oxímoro) estará muito mais alinhada com a Alemanha e tornará a União Europeia muito menos condescendente para com países que preferem ir arrastando os pés. Convinha que estes se preparassem – para qualquer dos cenários.

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15 comentários

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De Luís Lavoura a 28.11.2016 às 14:00

Eu percebo pouco de política francesa, mas questiono:
1) O presidente da república, seja Fillon ou outro qualquer, tem assim tanto poder em França? Penso que as leis francesas são aprovadas por uma assembleia sobre a qual o presidente não tem poder. Fillon não poderá alterar as leis da França à sua vontade.
2) Uma vitória de Le Pen conduziria a França para fora da UE? Isso não me parece possível. Com quem faria comércio uma França fora da UE? Se o comércio da Inglaterra fora da UE é difícil, como seria o da França? Pura e simplesmente, não seria. É impossível tirar a França da UE.
3) Não me parece líquido que Fillon vença Le Pen. Fillon é demasiadamente reformista e assustará demasiados setores. Vai afugentar demasiadas pessoas para os braços de Le Pen. Não são favas contadas.
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De José António Abreu a 28.11.2016 às 14:50

1) Daí o "não é líquido que consiga fazer tudo o que pretende". Mas também haverá eleições para a Assembleia Nacional em 2017. Uma vitória de Fillon nas presidenciais poderá abrir boas perspectivas para o centro-direita nas legislativas. E um bloqueio constante às políticas do presidente poderia, dependendo dos índices de popularidade, levar Fillon a dissolver o parlamento e a convocar eleições - neste caso, talvez lá para 2018 ou 2019.

2) Claro que pode; bastaria sair do euro e tudo ficaria em causa (até por não haver base legal para sair do euro permanecendo na União).

3) Hoje em dia, nenhumas eleições são favas contadas. Mas Fillon pode roubar alguns votos conservadores a Le Pen e deverá ter a maioria dos votos da esquerda na segunda volta. Não todos, claro: haverá muita gente de esquerda que se absterá e muita outra - especialmente na função pública - que terá mais medo de Fillon do que de Le Pen.
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De Luís Lavoura a 28.11.2016 às 15:28

Uma vitória de Fillon nas presidenciais poderá abrir boas perspectivas para o centro-direita nas legislativas.

Talvez. Mas o problema é que nem todo o centro-direita está - como se viu nestas primárias - alinhado com as pulsões reformistas de Fillon. Ou seja, Fillon dificilmente poderá garantir que todos os deputados do partido dele votem a favor das reformas que ele pretenda.

bastaria sair do euro e tudo ficaria em causa

Claro que a França pode sair da UE nesse sentido. O problema é que depois fica sem parceiros comerciais. O problema de sair da UE, como a Inglaterra está agora a descobrir, é que depois fica-se sem acordos comerciais e, portanto, todo o comércio externo sofre uma machadada brutal. Todas as cadeias de valor acrescentado (por exemplo, a Renault fabricar em Portugal caixas de velocidades que depois são montadas em automóveis alhures) ficam quebradas, com enormíssimo prejuízo para as empresas francesas (e não só). Ora, nenhum presidente francês que tenha um mínimo de juízo (e Le Pen tem-no) poderá fazer tal coisa.

Ou seja, a França teoricamente pode sair da UE, mas na prática não pode. Haveria uma revolução e o presidente seria decapitado como Luís 16 se tentasse fazer tal coisa.

Fillon deverá ter a maioria dos votos da esquerda na segunda volta

Isso é que eu duvido. A esquerda francesa é largamente anti-reformista e preferirá votar Le Pen a arriscar Fillon. Acho eu... Até porque já e tornou evidente que Le Pen não é uma racista nem é de extrema-direita como o pai dela - é apenas uma nacionalista económica.
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De jo a 28.11.2016 às 17:47

"Mas uma vitória de Fillon garantirá uma alteração fundamental no balanço de forças entre os países que defendem e aplicam reformas estruturais e os países que, na prática, se lhe opõem."

Que países é que estão a fazer reformas?
Serão iguais em todos os países ou o ano de trabalho na Alemanha por exemplo, continuará a ter menos horas que o português?
Como se define o que são as tais salvadoras reformas?

As famosas reformas estruturais que, garantem-nos trarão o leite e o mel.
Tirando um famoso documento em tipo 18, que foi a galhofa deste país, acho que ninguém consegue, ou sequer tenta, concretizar o que será tal animal.

Servem contudo como prelúdios dos "amanhãs que cantam". Dizem: meu filho desmantela o sistema de saúde, o ensino, o sistema prisional, todo o Estado e entrega-o a privados que ficarás momentaneamente doente, burro e mal guardado, mas serás rico no futuro.

É engraçado ver a direita a reciclar tipos de propaganda que foram dos regimes comunistas. Se pensarmos bem os comunistas também reciclaram muita propaganda religiosa.
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De José António Abreu a 29.11.2016 às 08:55

"Que países é que estão a fazer reformas?"

Talvez o tempo verbal não seja esse. A Alemanha, a Suécia, a Finlândia, a Dinamarca fizeram muitas das reformas de que a França necessita há 15-20 anos. Os países bálticos, a República Checa e a Eslováquia vêm-nas fazendo desde antes da entrada na UE.
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De jo a 29.11.2016 às 15:03

Mas esses países não partiram do ponto em que Portugal está agora.
Se devemos fazer reformas para nos aproximarmos do Estado Social que eles têm agora, então temos andado em sentido contrário nestes últimos anos.

De qualquer modo se o objetivo das reformas era uma economia melhor, foram pífias, para não dizer prejudiciais. O melhor dos coxos, coxeia à mesma.
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De WW a 28.11.2016 às 18:52

O JAA escreva novamente o POST e troque o nome de Fillon por Hilary e o de Le Pen pelo de Trump...
A UE já morreu só que ainda ninguém anunciou o óbito, os sinais são por demais evidentes e começaram com a Grécia em 2014 e que muitos dos que agora rangem os dentes em Portugal vaticinaram ( desejaram ardentemente) a sua expulsão do Euro.
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De José António Abreu a 29.11.2016 às 09:01

Não. À partida, Hillary até teria vantagem sobre Fillon: não assustava os funcionários públicos nem os outros grupos que receiam mudanças. Mas, num confronto directo com Le Pen, Fillon tem a vantagem de disputar o eleitorado conservador. A chave está em saber se o eleitorado de esquerda - e particularmente o da esquerda moderada -, assustado com a franqueza de Fillon, acabará preferindo Le Pen.

"A UE já morreu só que ainda ninguém anunciou o óbito"
Mais uma vez, não. Quando morrer, vamos senti-lo na pele.
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De Luís Lavoura a 29.11.2016 às 09:30

Fillon tem a vantagem de disputar o eleitorado conservador

Não vejo bem qual a origem de tal suposta vantagem.

Fillon é contra o casamento homossexual. Está bem, mas, e depois? O casamento homossexual não é uma decisão presidencial - ele é uma lei da assembleia. Para alterar essa lei será necessária uma maioria de deputados que seja contra o casamento homossexual. E não é a eleição de Fillon que criará, como num passe de mágica, tal maioria.

O mesmo se passa com o aborto. Fillon tem uma ranchada de filhos, é um bom católico que não usa camisinha e é contra o aborto. O problema é que, jamais se encontrará uma maioria de deputados que se atreva a ter a mesma opinião de Fillon. A eventual eleição de Fillon não alterará em nada a lei do aborto (e ele sabe-o e di-lo).
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De WW a 29.11.2016 às 10:10

Só me está a dar razão pois nos EUA quase não existem funcionários públicos como os conhecemos por cá na "Europa" o mais próximo que existe são os dos correios (lá os "CTT" são do Estado) , do fisco, forças armadas e de segurança a nível nacional (FBI e demais agências) pois cada condado "(cidade)" tem os seus próprios funcionários que são completamente independentes de ordens da administração central respeitando em 1º lugar o "chefe" do condado.
Com o programa que Fillon quer impor, a "reforma" Macron (que não passou este ano devido ás fortes manifestações) é uma brincadeira de crianças e nunca obterá o apoio da maioria da população.
Como Marine Le Pen quer sair da UE e do EURO sabe que precisa do funcionalismo publico para manter a coesão social da Nação e o país a funcionar por isso está firmemente irmanada com a mesma.

É o próprio Juncker que afirma que a UE está ligada ás máquinas, faz-me lembrar o ex-presidente Cavaco Silva a falar sobre o BES.

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De Vento a 28.11.2016 às 19:58

Acontece JAA que a política de exportação que vaticina em sua reflexão não é um axioma. Em Portugal, em particular na retórica dos anteriores, pretendeu-se que sim.

Mas eu explico. Uma política de exportação assenta em dois pilares fundamentais:
Capacidade produtiva e mercados externos receptivos, isto é, com capacidade para absorver essa produção, qualquer que seja o alvo desse mercado.
Portanto não existem políticas de exportação. Existe, isto sim, políticas de apoio sectorial.
Por exemplo: a Turquia em finais dos anos 80 beneficiou de um acordo privilegiado de comércio com a Europa (Nota: As reformas Turcas no sector de mercados iniciaram em 1983). A venda de seus produtos para exportação era feita na moeda Marco Alemão. Paralelamente, por cada unidade exportada o estado turco comparticipava em um determinado valor.

Pretendo dizer-lhe que sem massa crítica e mercados não existem políticas de exportação. Somente apoios.
Essa conversa de reformas estruturais que muito escutámos em Portugal e noutros cantos é conversa de quem não tem mais nada para dizer nem tampouco algo sólido para fazer. A única reforma estrutural que a Europa conheceu e os USA também foi sacar dinheiro ao povo e às instituições para injectar na banca. Chamaram a isto "salvar o sistema" e lixaram esta merda toda mundo fora.

Quanto a França, se houver outra oportunidade partilharei aqui algumas reflexões. Ainda é cedo para precipitações.
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De José António Abreu a 29.11.2016 às 09:02

Pois, é por isso que a sua amada geringonça até já esqueceu a história do consumo interno e anda ufana com o resultado das exportações.
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De jo a 29.11.2016 às 15:09

Exportações essas que não desapareceram por o governo da altura não ter o credo das reformas.
Afinal parece que aumentar o salário mínimo e reverter os cortes na função pública não provocou a bancarrota anunciada. Não provocou sequer o disparar do consumo. Talvez os trabalhadores também saibam gerir o seu dinheiro e não seja preciso dar tudo ao capital para ele investir.
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De jo a 29.11.2016 às 15:33

Exportações essas que não desapareceram por o governo da altura não ter o credo das reformas.
Afinal parece que aumentar o salário mínimo e reverter os cortes na função pública não provocou a bancarrota anunciada. Não provocou sequer o disparar do consumo. Talvez os trabalhadores também saibam gerir o seu dinheiro e não seja preciso dar tudo ao capital para ele investir.
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De Vento a 29.11.2016 às 22:48

Amadas tenho muitas; e a geringonça na realidade é-me mais amada que os anteriores não sei quê. Ao menos sabemos que esta é uma geringonça. A outra, sei lá.
Mas engana-se, esta não substituiu consumo interno por exportações nem exportações por consumo interno. E o que eu vejo é que valoriza ambas e que sem consumo interno estaríamos pior. É certo que que o consumo subiu, e verificamos isto através do crescimento que o amigo JAA não esperava que ocorresse no 3 trimestre.
Aliás, num de seus posts afirmei que o 3º trimestre seria a prova dos 9. Pretende que lhe demonstre esta afirmação feita?

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