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Fora de série (2)

por Luís Naves, em 16.05.16

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Vi pela primeira vez a série britânica Espaço 1999 a preto e branco e depois vi-a a cores, o que alterava muitos dos elementos visuais e a tornava (digamos assim) ainda mais espectacular. A primeira série de episódios era melhor do que a segunda e a minha visão juvenil, mais ingénua, é distinta da adulta. Não fixei os pormenores das histórias, mas lembro-me que alguns episódios agarravam ideias que lera nos pequenos volumes da colecção Argonauta. Sim, julgo que havia ali umas imitações. Claro que A Quinta Dimensão é muito melhor, Star Trek tem mais fama e vence na caracterização das personagens, nunca vi Outer Limits, dizem que é fantástica, e os alemães já tinham feito uma coisa parecida com a série inglesa, Orion, a Patrulha do Espaço, que só conheço do youtube. A velhinha ficção-científica de televisão tem muito que se lhe diga.

A questão das personagens é importante. Não há grande pachorra para o comandante Koenig e para a sua namorada, a doutora já-não-lembro-do-nome, não há paciência para o moralismo de algumas histórias, onde vemos Koenig a destruir civilizações inteiras em nome do politicamente correcto da época — não me refiro a 1999, mas a 1974. Aliás, em matéria de personagens, sempre preferi a Tania, que se não me engano fala pela primeira vez no episódio 8, para dizer, com forte pronúncia da Turíngia Ocidental: “Comandante, estamos a ser invadidos”. É uma das melhores deixas da televisão daquele tempo.

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Tania (no centro da imagem) é muito gira e fica bem naqueles fatinhos anos 70, com calças à boca-de-sino e as elegantes faixas coloridas no braço esquerdo; o vermelho fica-lhe a matar. Infelizmente, os produtores não tiveram dinheiro para lhe dar um papel mais relevante e ela desapareceu nos confins daquele universo. Esta minha visão de adulto cheio de carências afectivas não coincide com a minha observação a preto e branco, onde, confesso, a personagem Tania não existe. Sem cor, Espaço 1999 era uma boa ideia de princípio: uma base inteira, colocada na Lua, projectada para o exterior devido a uma explosão acidental que alterava a órbita do nosso satélite. As naves espaciais pareciam fantásticas e julgo que se mantêm possíveis como veículos lunares. Em princípio, a base talvez sobrevivesse a um problema daqueles, mas teria sido melhor uma fuga antes que a distância aumentasse.

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Do ponto de vista científico, a Lua não poderia viajar pelo espaço até outros sistemas (as distâncias são tão vastas, que levaria séculos, a aceleração não era suficiente sequer para o abandono do sistema solar), mas entretanto descobriu-se que poderá haver muitos planetas solitários, ejectados dos respectivos sistemas, que vagueiam pelo espaço vazio: talvez um deles tenha uma base Alpha com habitantes que, presos àquele destino solitário, ali tenham ficado a viver, mantendo frágeis estufas para produzir alimentos e oxigénio, centrais de energia e reciclagem dos seus pobres recursos. Teoricamente, é possível.

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O que não parece tão provável é a má liderança de Koenig, cujas frequentes histerias e crises místicas vão impedindo a base alpha de criar a sua própria civilização (não sei a razão, mas veio à memória este filme de Pabst, A Rainha de Atlântida), pois os habitantes da base tentariam recriar no meio do cataclismo uma vida própria, sem os laços que os ligavam ao mundo antigo, usando os territórios infinitos da imaginação e da nostalgia, ao serviço das enormes possibilidades da sobrevivência. Foi esta hipótese que me encantou e que me fez sonhar com outras histórias. E não será para isto que serve a ficção, para nos fazer inventar qualquer coisa de adicional?

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14 comentários

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De Luís Lavoura a 16.05.2016 às 14:35

vagueiam pelo espaço vazio [...] mantendo frágeis estufas para produzir alimentos e oxigénio, centrais de energia e reciclagem dos seus pobres recursos. Teoricamente, é possível.

Não é possível, não: de onde viria a energia ou, mais propriamente, a negantropia que permitiria tal reciclagem?
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De Luís Lavoura a 16.05.2016 às 14:38

Koenig a destruir civilizações inteiras em nome do politicamente correcto da época

Segundo me informaram (eu nunca li), há cenas absolutamente similares no Antigo Testamento, com o Deus dos judeus a destruir povos inteiros em nome do seu amor ao povo judeu. Cenas que, segundo me informou um judeu que estudou na escola judaica, fazem Hitler parecer um menino de coro...
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De Luís Naves a 16.05.2016 às 19:06

Nem vale a pena responder ao comentário anterior. Respondo só ao comentário anti-judaico, que tem tudo a ver com a lua e com a base alpha. O Espaço 1999 é mesmo sobre o Hitler e a Palestina.
Há comentadores que só estão aqui para desvalorizar as prosas dos autores. Este comentário não tem qualquer ligação ao texto, à série ou ao tema, pretende apenas provocar. A intenção é recomendar aos leitores que mudem de canal. Escrevi de forma subjectiva sobre uma série de que gostei, num texto que não passa de um conjunto de impressões pessoais sobre determinado assunto. O comentador nega-me o direito de ser subjectivo sobre alguma coisa e de escrever segundo impressões pessoais que são só minhas. É o delírio.
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De Costa a 16.05.2016 às 21:21

Eu não sei se ao Lavoura - já que divergiu do tópico - a figura do Grande Mufti de Jerusalém e as suas alianças e fidelidades, aí pelos anos 40 do século passado, dizem alguma coisa. Já que se aproveita toda e qualquer ocasião para diabolizar os judeus e o seu Deus, ao ponto de minimizar A. Hitler...

Costa
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De Luís Lavoura a 17.05.2016 às 10:19

aproveita toda e qualquer ocasião para diabolizar os judeus e o seu Deus

Não diabolizei judeu absolutamente nenhum.

Também não diabolizei Deus nenhum. Aliás, o Deus dos judeus é exatamente o mesmo dos cristãos e dos muçulmanos. Os profetas judaicos são também profetas cristãos e muçulmanos.

Apenas disse que algumas escrituras do Antigo Testamento são totalmente inaceitáveis pelos padrões éticos atuais. Tal como, aliás, alguns excertos do Corão o são.
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De Luís Lavoura a 17.05.2016 às 10:21

Credo, que reação alérgica a sua!
Não desvalorizei o seu texto nem pretendi impedi-lo de divulgar as suas opiniões subjetivas nem pretendi desencorajar os leitores de as lerem.
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De Ana Vidal a 18.05.2016 às 12:14

Luís, admiro-te a paciência e a correcção com que respondes a um dos nossos mais fiéis e antigos haters (ou talvez não, que esta coisa do amor/ódio tem muito que se lhe diga), absolutamente viciado em blogues alheios, ou pelo menos no Delito, e fixado em manter-se em bicos de pés não vá o mundo esquecer-se de que ele existe. É um caso patológico, mas o Delito não é um psicanalista à borla. Desculpa-me usar o teu excelente post para deixar um recado ao senhor Lavoura: aviso-o desde já que não vou ter a mesma paciência que já tive em tempos consigo, isso já lá vai. Nos meus posts, responder-lhe-ei só quando me apetecer e quando os seus comentários me merecerem essa consideração. De contrário, ficarão a pairar na estratosfera bloguística, ou simplesmente serão apagados. Fica o aviso, para não estranhar.
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De Maria Dulce Fernandes a 16.05.2016 às 19:24

Eu segui avidamente.
Já gostava dos bonecos do Gerry e da Sylvia Anderson ( Stingray, Thunderbirds, Captain Scarlet), que foram praticamente os mentores de todos os efeitos especiais da lua, naves, planetas, etc.
Foram buscar os carismáticos da Missão impossível para os principais papéis, e quem sabe , isso já diga alguma coisa sobre muitas das impossibilidades reais, que virtualmente nos deliciaram.
O que era impensável em 1975 é talvez banal agora, por isso mesmo o seu Fora de Série para esta série, a meu ver, está excelentemente demonstrado.



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De Luís Naves a 16.05.2016 às 19:53

Concordo, Maria Dulce, os Thunderbirds eram especialmente engraçados.
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De Luís Naves a 16.05.2016 às 19:59

E tem toda a razão, esqueci-me da Missão Impossível, onde foram buscar os actores. Só me estava a recordar de Martin Landau no filme Intriga Internacional, de Alfred Hitchcock. Landau é um excelente actor, ao contrário do que sugere o meu post; às vezes, a personagem pode parecer inverosímil, mas trata-se evidentemente de um grande actor que não tem culpa da fraqueza de alguns dos argumentos.
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De Luís Menezes Leitão a 16.05.2016 às 21:23

Também gostei imenso dessa série de ficção científica, embora me parecesse que era muito ficcional e muito pouco científica. Basta ver que quase todos os alienígenas eram misteriosamente fluentes em inglês. Em termos de ficção não científica, o primeiro episódio para mim batia todos os recordes. A ideia era que a lua se tinha transformado num depósito de lixo nuclear, que desencadeou explosões em cadeia, que a afastaram da sua órbita, rumo ao espaço exterior. Mas os habitantes da base lunar ainda conseguem apanhar uma emissão de televisão na terra, que diz que a única consequência do afastamento do nosso satélite foram uns terramotos nos EUA. Sem a lua, deixaria de haver marés e a gravidade da terra aumentaria brutalmente, esmagando provavelmente todos os habitantes. Mas essa falta de rigor científico em nada nos perturbava, enquanto espectadores da série para quem 1999 era o futuro, e não um passado cada vez mais longínquo.
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De Luís Naves a 17.05.2016 às 10:18

Esta observação é muito pertinente. É também para isto que servem os exercícios de imaginação, para nos obrigar a estudar melhor os assuntos e procurar a informação científica. Li algures que a eventual perda da Lua teria consequências potencialmente catastróficas para o nosso planeta. A inclinação axial seria progressivamente aumentada, alterando por completo o clima da Terra.
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De kika a 17.05.2016 às 11:23

A ficção científica interessa-me cada vez mais...
James S. A. Corey por exemplo, onde todo o sistema solar
é habitado , uma viagem genial.
E que dizer de Isaac Asimov ?
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De Pedro Correia a 17.05.2016 às 18:24

Grande série, inesquecível. Com dois actores de 'Missão Impossível', como alguém já sublinhou: Barbara Bain e Martin Landau (casados então na vida real).
Landau, hoje quase com 88 anos (e também do signo Gémeos), é um caso raro de persistência e sobrevivência: continua a representar, sempre com sucesso. Quando nascemos, tu e eu, já ele era um actor conceituado. Precisamente pelo seu papel em 'Intriga Internacional', de Hitchcock, com Eva Marie Saint (hoje uma senhora com 91 primaveras).

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