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Flagrantes do país real

por Pedro Correia, em 25.08.17

mw-860[2].jpg

 Foto António José/Lusa

 

O País continua a arder pelo terceiro mês consecutivo. Há incêndios nomeadamente em Oleiros, Guarda, Sertã e Sabrosa, combatidos por 2254 bombeiros e 21 meios aéreos. Só ontem, mais seis bombeiros ficaram feridos - um deles em estado muito grave, forçando a sua evacuação para o hospital de Santa Maria, em Lisboa - e pelo menos oito habitações foram destruídas pelas chamas que vão cercando aldeias e devastando áreas florestais e agrícolas. A Polícia Judiciária já deteve 78 pessoas, número que quase duplica o do ano passado por esta altura. Não admira: segundo o presidente da Liga dos Bombeiros, "há mão humana em 98% dos incêndios e 80% têm origem criminosa".

A Comissão de Inquérito à tragédia de Pedrógão, que provocou 65 vítimas mortais, prossegue o seu pachorrento trabalho: as conclusões hão-de vir lá para o cair da folha outonal, passados os calores estivais e as eleições autárquicas. À espera que o tempo decorra, e que os fogos se apaguem naturalmente pela chuva que um dia há-de chegar, o Governo tarda em encarar de frente o problema, que exige medidas drásticas, incluindo a reposição das extintas equipas de guardas florestais e a formação de um corpo profissionalizado de bombeiros especializados no combate permanente a estes fogos. Não nos iludamos: está em curso uma calamidade ambiental e climática. Enfrentamos um autêntico atentado à segurança nacional, como bem acentuou Viriato Soromenho-Marques, aconselhando o Executivo a "decretar um longo estado de emergência nas áreas florestais".

Podemos esperar sentados: assim que os órgãos de informação se cansarem de vez de reportar o rasto destruidor dos incêndios no Portugal mais pobre e desprotegido, a Lisboa mediática retomará, festiva e faiscante, as prioridades tribais que a formatam durante quase todo o ano, em circuito fechado, ditadas pelo amiguismo travestido de jornalismo. Talvez por isto, os diários vendem cada vez menos e vários vão-se arrastando em dolorosa agonia, enquanto os noticiários televisivos perdem espectadores a ritmo acelerado.

O país profundo, o que não se movimenta no eixo Chiado-Príncipe Real nem tem protagonistas a monopolizar cabeçalhos e setas viradas para cima na imprensa, vai tentando a sorte e derrapando na estrada. Desde Janeiro, já se registaram em Portugal 81.124 acidentes rodoviários, com 320 mortos - mais 51 do que no período homólogo de 2016 - e 26.757 feridos. E nos primeiros seis meses de 2017 os portugueses perderam, em média, 3,1 milhões de euros por dia em apostas sem prémio no jogo legal.

Há anos assim, em que nos bate à porta o azar. Chamemos-lhe assim ou outra coisa qualquer.

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28 comentários

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De Desconhecido Alfacinha a 25.08.2017 às 14:04

Excelente "Wrap Up", forte abraço.
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De Pedro Correia a 25.08.2017 às 14:47

Ainda bem que se reviu de algum modo neste meu desabafo, meu caro. Um abraço grato.
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De Vlad, o Emborcador a 25.08.2017 às 14:33

Só não percebi a parte das % da Liga. " 80% têm mão humana e 98% origem criminosa" Isso ultrapassa os 100% uma vez que uma qualquer mão que queima é criminosa.
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De Pedro Correia a 25.08.2017 às 14:46

Esses 18% referem-se a negligência simples, não dolosa. Aquilo a que chamamos desleixo, em português corrente.
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De sampy a 25.08.2017 às 15:04

Que é crime também.
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De Luís Lavoura a 25.08.2017 às 16:42

Eu diria que os incêndios com origem humana serão mais de 98%.

Já os incêndios com origem criminosa serão muitíssimo menos do que 80%. Provavelmente até são menos que 20%.

A esmagadora maioria dos incêndios terão origem humana mas serão devidos a descuidos. Em muitos casos serão até coisas que as pessoas fazem sem pensar que têm risco de incêndio. Um foguete atirado para o ar. Um cigarro mal apagado atirado da janela de um carro. Um carro ainda quente estacionado sobre vegetação seca. Uma qualquer máquina que provoque fagulhas (exemplo: rebarbadora em metal ou cerâmica). Um cortador de relva, um trator.
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De Pedro Correia a 25.08.2017 às 16:57

Incêndios com origem humana "serão mais de 98"?
Segundo o director nacional da PJ, o mega-incêndio de Pedrógão teve origem não-humana, vegetal.
Começou numa árvore.
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De Luís Lavoura a 25.08.2017 às 17:33

Talvez o diretor da PJ tenha razão.
Mas, se assim fôr, esse incêndio será a exceção que confirma a regra.
Trovoadas secas são, que eu saiba, muito raras em Portugal.

Mas isso não interessa muito, em minha opinião, porque não vale a pena preocuparmo-nos com coisas sobre as quais não podemos ter influência, como sejam as trovoadas. Importa preocuparmo-nos com os incêndios de origem humana. E o que eu digo é que, muito provavelmente, esses incêndios não são, na sua maioria, propositados. São o resultado de ações estouvadas ou ignorantes.
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De Alain Bick a 25.08.2017 às 14:52

anda muito comedido
a respeito da republiqueta do be
dirigida por
antónio das mortes

este ano não sobra folha verde na paisagem
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De Pedro Correia a 25.08.2017 às 16:46

Verde pujante, neste momento, só o do Sporting.
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De Jorg a 25.08.2017 às 17:18

...até começar a "Champions"...:-) e, a nivel nacional, até ao 1o de Outubro..
;-))
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De Pedro Correia a 25.08.2017 às 17:22

Bem... enfim... isso já são contas de outro rosário.
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De Luís Lavoura a 25.08.2017 às 15:28

segundo o presidente da Liga dos Bombeiros

Esse indivíduo não é precisamente Jaime Marta Soares, o autarca-bombeiro, antigo presidente da Câmara Municipal de Penela e figura de alguma importância do PSD?

É o expoente máximo, creio eu, da conexão bombeiros - autarquias locais - partidos políticos referida por Henrique Pereira dos Santos num seu post de hoje.

Eu diria que a credibilidade desse indivíduo, tal como em geral a credibilidade dos barões do PSD, não é muito grande.

Puxa a brasa à sua sardinha, nada mais.
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De Anónimo a 25.08.2017 às 18:02

Isto, escrito pelo epítome da imparcialidade e do bom-senso...
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De V. a 27.08.2017 às 12:24

É claro que na velha estratégia socialista/extremista basta dizer "psd" e "direita" para que o foco do problema seja desviado da sua própria culpa proto-fascista e incapacidade geral para produzir seja o que for que não seja uma merda gigantesca para inventar um "papão" no exterior do que se estava a discutir.
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De Pedro Correia a 27.08.2017 às 12:27

Típica lógica marxista-leninista... A lógica da trincheira, do "inimigo principal", da luta de classes. Na floresta, o símbolo da classe opressora é o "eucalipto".
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De Jorge Lopes a 25.08.2017 às 15:57

O tema do seu "post" coloca-me algumas questões:
1. os "media" vão classificando as casas ardidas entre abandonadas, de segunda ou de primeira habitação. Pressupondo que todas estão registadas nas Finanças e pagam o IMI respectivo não há casas abandonadas. Não sei qual o critério e qual a utilidade de considerar 1ª ou 2ª habitação.
2. Qual será a quota de responsabilidade dos "media" na cobertura excessiva e chocante dos incêndios? Lembremo-nos que em França não é assim. A TF1, por exemplo não transmite este tipode de filmagens.
3. Como é que se está a fazer a vigilância da floresta? Em Espanha, por exemplo, a vigilância é feita com drones.
4. Ouço falar na evacuação de aldeias, mas desconheço se há algum manual de evacuação. Parece que fechar portas , janelas e portadas, a bilha de gaz e pôr do lado de fora depósitos com combustivel não faz parte das preocupações e das medidas de segurança
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De Pedro Correia a 25.08.2017 às 16:45

Suscita questões muito interessantes e que não tenho visto referidas nos meios de informação.
Desde logo a primeira, referente à distinção entre casas de "primeira ou segunda habitação".
Julgo saber que alguma vigilância e detecção precoce de fogos florestais em Portugal é feita com drones. Nomeadamente no Parque Nacional Sintra-Cascais e em zonas do Algarve.
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De sampy a 25.08.2017 às 17:58

Quanto às casas: é uma forma eufemística de dizer se há ou não desalojados (que não convém confundir com evaquados...).
Quanto aos drones, e até ver, os únicos que têm funcionado às mil maravilhas são os do aeroporto de Lisboa.
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De AntónioF a 25.08.2017 às 17:32

Caro Pedro,
tivemos a felicidade que um dos mais importantes poetas holandeses deste virar de século (XX – XXI), Gerrit Komrij, tenha escolhido Portugal (o Portugal rural) para residir, tendo aí vivido desde os finais dos anos ’80 até falecer, em 2012 e sobre ele escreveu, oferecendo-nos deliciosos textos que são um autêntico espelho.
Permita-me pois, que transcreva um desses texto (partido em dois) sobre este assunto.

« CICLO

A relação dos portugueses com a natureza deve estar profundamente marcada pelo facto de tê-la a arder.
É que nunca a queima pára. Por toda a parte há qualquer coisa que arde. O país inteiro é fogo de artifício e fogaréus de arraial. Fogueiras em plena rua e intermináveis incêndios de floresta.
O maior espectáculo de todos são os incêndios de floresta. A cada Verão que passa, os políticos prometem fazer finalmente alguma coisa e, cada Verão, a coisa arde com violência acrescida. Anos atrás, era vê-los bradando que, graças às medidas tomadas, as estatísticas indicavam que, até Junho inclusive, e comparado com os mesmos meses do ano anterior, o número de incêndios tinha diminuído drasticamente. Ora, obrigado. Durante o mês de Junho inteiro tinha chovido a potes.
Não obstante a existência de uma entidade para a política florestal, jamais pude descortinar, nas matas em meu redor, sombra de tal política.
Quem levar em consideração que os portugueses constituem um povo que aprecia voltar-se a olhar para trás, não se admirará de eles não descobrirem, assim com essa facilidade, a existência de medidas preventivas. Um povo que olha para trás apenas sabe que um carapauzito na mão tem mais substância do que o bacalhau ainda feito de sonhos que com ele poderia apanhar. Daí a plantação de árvores que crescem rapidamente. As fábricas de celulose são poderosas e esfaimadas. Madeira rápida significa lucro rápido. Diante dessa madeira nova - uma raça de eucalipto especialmente acirrada -, toda a madeira lenta e velha deve abdicar.
Fogo nela.
Se alguém me informasse que a entidade de política florestal é um subsecção secreta da indústria de celulose, garanto que não me admirava. É mais que certo que um dos directores da política florestal - ou o ministro do Ambiente, sei eu lá - é primo da prima do tio que é por sua vez irmão do cunhado da irmã do patrão da celulose.»

(continua)
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De AntónioF a 25.08.2017 às 17:32

(continuação)
«De outra maneira, não consigo explicar como é que os políticos, neste exacto ponto, esquecem com tal rapidez e tal regularidade as suas promessas - promessas que, com vista a eleições, de quando em quando têm de cumprir. De outra maneira, não consigo explicar como os incêndios aqui lavram invariavelmente na madeira velha, e nunca, nem uma vez por brincadeira, numa plantação da nova madeira baratucha que dá pelo nome de eucalipto.
Não que a madeira velha seja muito melhor. Simplesmente, o pinheiro ordinário cresce mais devagar. Dá menor rendimento. Além disso, os troncos disponíveis não param de desvalorizar-se, devido às golpeaduras, sem ordem nem jeito, da colectividade de resineiros, miseravelmente pagos.
Portugal vê-se, assim, servido com os fósforos de pior qualidade da Europa. Quem, aqui, quiser acender o cigarro com um fósforo de fabrico nacional, pode dar-se por feliz se, duma assentada, não se levar a si próprio, ou à casa, no mar de chamas. A parte com a cabeça de enxofre há-de ir sempre em outra direcção do que a parte que a pessoa segura na mão. De preferência, dispara direita à alcatifa, aos pêlos do peito ou ao decote.
Ardendo, perceba-se-me bem.
Nas matas, dá-se em geral com muitos passeantes, como sejam os que andam eternamente na boa-vai-ela, os camponeses a caminho do seu campito, os caçadores apostados em perdizes e tudo o mais que queira voar, e os resineiros. Muitos passeantes fumam. E é assim que o fósforo português, produto da madeira queimada, se encarrega de novos fogos, que fornecem nova madeira queimada, boa para fósforos, por exemplo. A mata devastada prossegue a sua devastação por próprias forças.
Fantasia minha?
Não será, em todo o caso, fantasia maior do que aquela que crê serem os portugueses todos pirómanos. Refiro-me ao mito, aqui acalentado - e sussurrado, em meios esotéricos, num explícito tom de tabu, como se se tratasse de um dos abissais mistérios da alma portuguesa -, que estabelece uma conexão entre a atracção de Portugal pelo fogo e o seu anseio de renovação e rejuvenescimento. A velha ideia do fogo que purifica.
O entorpecimento parece-me um resultado mais provável. Uma rigidez de morte, que encetará quando, num país ardendo a ritmo acelerado, os incêndios um dia acabarem. Então, já nada haverá para arder, mesmo que com fósforos de importação, nesse deserto que um dia se chamou a si mesmo o jardim da Europa.»

KOMRIJ, Gerrit - Um almoço de negócios em Sintra. 1ª ed. Porto : Asa, 1999. p. 52-54
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De Pedro Correia a 25.08.2017 às 18:14

Oportuno e interessantíssimo trecho literário que aqui nos trouxe, António.
Quase tudo permanece assim. Embora os resineiros, por exemplo, já não sejam miseráveis como aí se descreve. Pelo contrário, há novos mercados e crescente procura da resina, com a indústria novamente em expansão.
'Plus ça change, plus c'est la même chose'.
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De V. a 25.08.2017 às 19:51

O que interessa, num incêndio, não é como começa: é como se apaga. E isso —como é demasiado evidente, o Estado e os seus serviços não conseguem fazer. Há um problema de estratégia e de método de ataque aos fogos e ninguém fala nisso. Os métodos e os meios que os bombeiros utilizam hoje são ineficazes e a gestão centralizada é um absurdo que só um governo impregnado de tendências totalitárias e que gosta de fazer "recomendações" bolivarianas não enxerga.
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De Pedro Correia a 26.08.2017 às 07:47

A situação de calamidade nacional que vivemos, nomeadamente com os 65 mortos (que poderão afinal ser 66) de Pedrógão, exige medidas drásticas como estas:
- Constituição de um corpo profissional de bombeiros especializado no combate específico aos incêndios florestais;
- Reposição das carreiras de guardas florestais e sapadores florestais;
- Envolvimento das Forças Armadas, designadamente a Força Aérea, nas missões de vigilância do nosso património natural e de combate à calamidade dos fogos.
Tudo isto fica muito mais barato do que alugar meios aéreos, Verão após Verão, no combate aos fogos.
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De campus a 25.08.2017 às 23:15

Portugal continua a arder....
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De Pedro Correia a 25.08.2017 às 23:17

Pois continua. E o país mediático - quase todo concentrado em Lisboa - anda entretido com questões da treta, ditadas pelo eixo Chiado-Príncipe Real.
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De Jo a 26.08.2017 às 10:02

Parece que o país profundo espera ansiosamente que o eixo Chiado -
Príncipe Real lhe resplva os problemas.
Entretanto não limpa as matas, não propõe soluções, deixa morrer o assunto no Inverno...
Se se queixassem menos e fizessem mais era capaz de resultar qualquer coisa.
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De Pedro Correia a 26.08.2017 às 10:39

Do eixo Chiado-Príncipe Real, e das suas 'sunset parties', há pelo menos uma coisa que o país real não espera: que ajude a apagar fogos.

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