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"Ficar calado equivale a mentir"

por Pedro Correia, em 12.10.16

 

O melhor discurso do século XX foi proferido faz hoje 80 anos, em Salamanca, por um filósofo basco prontamente condenado à morte civil. Constituiu um dos mais relevantes exemplos de coragem cívica, inteireza moral e ética política de que há memória.

Ocorreu na fase inicial da guerra civil de Espanha, na cidade de Salamanca, no dia 12 de Outubro de 1936. Foi proferido de improviso, na universidade desta urbe castelhana, pelo reitor vitalício do secular estabelecimento de ensino, o basco Miguel de Unamuno, figura cimeira da cultura espanhola.

Unamuno, um intelectual ferozmente independente, tecera fortes críticas ao rumo descontrolado do regime republicano que vigorou em Espanha entre 1931 e 1936, tendo acolhido com palavras de simpatia o alzamiento em Julho de 1936. Durou pouco a sua adesão ao golpe liderado pelo general Franco: os morticínios das primeiras semanas de guerra revelaram-lhe a verdadeira natureza da rebelião, nacional só de rótulo.

No início de Outubro, reuniu-se com Franco para lhe pedir clemência por diversos amigos de esquerda que tinham sido detidos em território controlado pelos falangistas. Esforço inútil: acabaram quase todos fuzilados.

Nesse dia 12, perante o governador civil de Salamanca, o bispo da diocese e a esposa de Franco, o general Millán Astray - inválido da guerra em Marrocos - proferiu uma diatribe contra o País Basco e a Catalunha, considerando-os "cancros do corpo da nação", terminando a sua arenga com a frase que criara para divisa da Legião Espanhola: "Viva a morte!" enquanto os braços se erguiam na saudação fascista.

 

Unamuno, já então um senhor de 72 anos, poderia ter-se remetido a uma atitude de cómoda indiferença. Mas não foi capaz. Levantou-se dignamente e pronunciou estas palavras de modo pausado mas firme:

"Esperais as minhas palavras. Conheceis-me bem e sabeis que sou incapaz de permanecer em silêncio. Por vezes, ficar calado equivale a mentir. Porque o silêncio pode ser confundido com concordância. Quero fazer alguns comentários ao discurso - para chamar-lhe assim - do general Millán Astray, que se encontra entre nós. Deixando de lado a ofensa pessoal que pressupõe a sua repentina explosão contra vascos e catalães. Eu próprio, como sabeis, nasci em Bilbau. O bispo [apontando para o prelado], queira ou não queira, é catalão de Barcelona."

Fez uma pausa. E prosseguiu:

"Mas acabo de escutar o insensato e necrófilo grito 'Viva a morte!' E eu, que passei a vida a cultivar paradoxos que irritavam alguns incapazes de entendê-los, tenho de dizer-vos, como especialista na matéria, que este ridículo paradoxo me parece repelente. O general Millán Astray é um inválido. Não é necessário dizermos isto em voz baixa. Ele é um inválido de guerra. Também Cervantes o foi. Mas, por desgraça, há hoje em Espanha demasiados mutilados. E, se Deus não nos ajudar, em breve haverá muitíssimos mais. Atormenta-me pensar que o general Millán Astray pudesse ditar as normas da psicologia das multidões. De um mutilado a quem falte a grandeza espiritual de um Cervantes é de esperar que encontre um terrível alívio ao ver como se multiplicam os mutilados em seu redor."

 

O general, acometido de fúria perante estas palavras, começou então a gritar: "Abaixo a inteligência! Viva a morte!" Provocando a entusiástica adesão dos falangistas ali presentes, que gritaram em uníssono com ele.

Mas Unamuno ainda não tinha terminado. E concluiu assim:

"Este é o templo da inteligência. E eu sou o seu sumo-sacerdote. Estais profanando o seu recinto sagrado. Vencereis porque tendes, de sobra, a força bruta. Mas não convencereis. Para convencer há que persuadir. E para persuadir necessitaríeis de algo que vos falta: razão e direito na vossa luta. Parece-me inútil pedir-vos que penseis em Espanha. Tenho dito."

 

Palavras que soaram como denúncia da fanática brutalidade dos esbirros de Franco. Palavras que custaram o cargo e a vida a Unamuno: de imediato destituído das funções de reitor, confinado a prisão domiciliária, o filósofo basco viria a morrer dois meses mais tarde, no último dia desse ano tão trágico.

Mas o eco das suas palavras, fruto de uma vontade indómita, prolongou-se muito para além dos horrores daquela guerra. Como admirável exemplo de resistência contra a barbárie - tenha a cor que tiver, seja em que época for.

 

Imagem: Unamuno (ao centro, de barbas) abandonando a Universidade de Salamanca a 12 de Outubro de 1936, acossado por falangistas. Faz hoje 80 anos.

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18 comentários

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De João Pedro a 12.10.2016 às 02:34

Muito bem recordado, sem dúvida. Da furiosa reacção ao discurso de Unamuno apenas houve tímidas tentativas de amaciá-las, como o grito de Peman a emendar a mão de Milan Astray ("Viva la inteligencia, muerte a la falsa intelectualidad") e a Dona Carmen Polo, mulher de Franco, que agarrou em Unamuno para que ele saísse dali inteiro. Mas as palavras do reitor, clarividentes no meio daquela loucura que era a guerra emergente, permaneceram.
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De Pedro Correia a 12.10.2016 às 08:30

"Vencereis, mas não convencereis." Palavras que impressionam ainda hoje, pelo desassombro e pela lucidez intelectual, naqueles meses iniciais da guerra civil espanhola. Palavras que condenaram Unamuno à morte cívica, de imediato, e à morte física, logo a seguir. Mas que contribuíram de algum modo para a sua imortalidade. Não o esquecemos, não o esqueceremos.
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De Anónimo a 12.10.2016 às 08:28

Bom dia Pedro Correia.
Pessoalmente lhe agradeço ter publicamente lembrado isto. E o "isto" quer dizer, para mim, que enquanto houver seres humanos com coluna vertebral, e não colagénio, haverá esperança por melhores dias. Por cá e lá fora. António Cabral
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De Pedro Correia a 12.10.2016 às 08:43

É um exemplo, sem dúvida, caro António Cabral. Um exemplo de dignidade, de verticalidade, de coragem.
Exemplos destes são cada vez mais raros. Daí a importância acrescida de os lembrarmos, agora e sempre.
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De Alain Bick a 12.10.2016 às 10:22

sou tão velho que ainda existia
o golfo da Biscaia
o bacalhau à biscainho
Donostia era San Sebastian

'mudam-se os tempos ...'
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De Pedro Correia a 12.10.2016 às 11:41

San Sebastian continua a chamar-se assim. Até há um célebre festival internacional de cinema que lá se realiza, com o nome da cidade.
http://www.20minutos.es/noticia/2834163/0/festival-san-sebastian-zinemaldia-2016-cine/
O bacalhau à biscainho está bem e recomenda-se.
O Golfo da Biscaia também (excepto nas marés vivas).
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De Luís Lavoura a 12.10.2016 às 12:21

O festival de cinema tem um nome castelhano e um nome (Donostia Zinemaldia) vasco. Como tudo no País Vasco.
Ao contrário da Catalunha, onde hoje em dia a generalidade das coisas só tem nome em catalão, no País Vasco as coisas têm dois nomes, o castelhano e o vasco.
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De Pedro Correia a 12.10.2016 às 21:48

Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Praticamente todos os catalães dominam o idioma catalão enquanto só cerca de 37% da população do País Basco espanhol sabe falar basco com relativa fluência.
No País Basco espanhol apenas 13% das famílias falam basco em casa enquanto o castelhano é utilizado em 68% dos domicílios.
http://www.diariovasco.com/20110121/local/vascos-habla-bien-euskera-201101211504.html
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De M. S. a 12.10.2016 às 12:26

Caro Pedro:
Que falta nos faz pessoas com esta independência e verticalidade morais e intelectuais.
E isto passou-se num tempo muito difícil para que tal pudesse acontecer.
Hoje, em que o contexto é muito mais democrático e tolerante para que atitudes semelhantes possam acontecer, falta-nos os protagonistas.
Triste paradoxo dos nossos tempos.
(Manuel Silva)
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De Pedro Correia a 12.10.2016 às 12:30

Viva, Manuel.
Passamos demasiado tempo ocupados com gente que não é referência para nada de edificante. E - pelo contrário - os melhores exemplos merecem-nos pouca atenção.
Devemos estar mais atentos a figuras como a de Unamuno. De uma integridade moral admirável, fiel às suas convicções mesmo à custa do prestígio social e da própria vida.
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De Paulo Sousa a 12.10.2016 às 13:34

Notável e merecedor de celebração.
Estar do lado certo da história não é sinónimo de se estar seguro.
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De Pedro Correia a 12.10.2016 às 15:19

De forma alguma, Paulo. Aliás não faltam exemplos a comprovar isso.
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De sampy a 12.10.2016 às 13:35

Proposta de correcção: segundo a versão mais comunmente aceite, a diatribe contra o País Basco e a Catalunha foi proferida por Maldonado (que chega a citar expressões cunhadas pelo bispo Plá, daí a menção que Unamuno faz ao prelado).
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De Pedro Correia a 12.10.2016 às 15:21

Admito que sim, Sampy.
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De sampy a 12.10.2016 às 14:01

Se importa sublinhar a evolução do pensamento de Unamuno relativamente aos golpistas-falangistas, também interessa que fique bem claro o seu antimarxismo, a rejeição do anticlericalismo da 2a. República, e a oposição à Frente Popular e a Azaña que (ora, ora) também o destituiu da reitoria.
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De Pedro Correia a 12.10.2016 às 15:23

Sim. Unamuno sempre foi um não-alinhado. Uma espécie de rebelde, mas com causa.
A propósito, chamo a atenção para o notável artigo que o meu colega de blogue Diogo Noivo escreveu recentemente sobre este grande escritor e pensador espanhol:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/do-principio-ao-fim-6-8782209
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De Diogo Noivo a 12.10.2016 às 21:06

Obrigado pela menção, Pedro. E muitos parabéns pelo teu excelente texto.
Não sabemos exactamente quais as palavras usadas por Unamuno frente a Astray – há aliás uma polémica em curso em Espanha a esse respeito –, mas mais vírgula menos vírgula, sabemos que fez uma defesa corajosa da racionalidade e da liberdade, pois implicou por em risco a própria vida. Não a perdeu, mas como bem escreves, foi condenado à morte civil. Sabia os riscos que corria. Mas assumiu-os porque a honestidade intelectual e a liberdade a tudo se sobrepõem. Gente grande e a sério.
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De Pedro Correia a 12.10.2016 às 21:51

A versão que aqui reproduzo é, até prova em contrário, a mais consensual e que me parece mais fidedigna depois de ter estudado bastante o assunto, Diogo.
O essencial é a atitude de firmeza do velho escritor, crente de que a força da razão é sempre superior à razão da força: "Venceréis, pero no convenceréis."

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