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Euro-snobbism

por Adolfo Mesquita Nunes, em 22.06.16

A 15 de Maio de 1992, em Haia, Margaret Thatcher sintetizava, num discurso intitulado de 'Europe’s Political Architecture', os seus principais receios sobre a moeda única e registava a forma como esses receios, as suas dúvidas, que lhe pareciam gritantes, não mereciam, no espaço público europeu, muito mais do que desdém, como se não merecessem atenção, como se fossem umas ideias antiquadas de uma provinciana (chegou a dizer-se que ela queria voltar ao Século XIX).

Aqui ficam, de novo, para que possamos dar-lhes a atenção que então não mereceram. E que pelo menos nos sirvam de lição, não tanto sobre o euro, mas sobre a forma como muitas vezes lidamos, no debate público, com as ideias com que não concordamos (o discurso integral pode ser lido aqui).   

If the European Community proceeds in the direction which the majority of Member State Governments and the Commission seem to want they will create a structure which brings insecurity, unemployment, national resentment and ethnic conflict.

Insecurity — because Europe's protectionism will strain and possibly sever that link with the United States on which the security of the continent ultimately depends.

Unemployment — because the pursuit of policies of regulation will increase costs, and price European workers out of jobs.

National resentment — because a single currency and a single centralised economic policy, which will come with it, will leave the electorate of a country angry and powerless to change its conditions .

Ethnic conflict — because not only will the wealthy European countries be faced with waves of immigration from the South and from the East.

Also within Europe itself, the effect of a single currency and regulation of wages and social costs will have one of two consequences.

Either there will have to be a massive transfer of money from one country to another, which will not in practice be affordable.

Or there there will be massive migration from the less successful to the more successful countries.

Yet if the future we are being offered contains so very many risks and so few real benefits, why it may be asked is it proving all but irresistible ?

The answer is simple.

It is that in almost every European country there has been a refusal to debate the issues which really matter.

And little can matter more than whether the ancient, historic nations of Europe are to have their political institutions and their very identities transformed by stealth into something neither wished nor understood by their electorates.

Yet so much is it the touchstone of respectability to accept this ever closer union, now interpreted as a federal destiny, that to question is to invite affected disbelief or even ridicule.

This silent understanding — this Euro-snobbism — between politicians, bureaucracies, academics, journalists and businessmen is destructive of honest debate.

So John Major deserves high praise for ensuring at Maastricht that we would not have either a Single Currency or the absurd provisions of the Social Chapter forced upon us: our industry, workforce, and national prosperity will benefit as a result.

Indeed, as long as we in Britain now firmly control our spending and reduce our deficit, we will be poised to surge ahead in Europe.

For our taxes are low: our inflation is down: our debt is manageable: our reduced regulations are favourable to business.

We take comfort from the fact that both our Prime Minister and our Foreign Secretary have spoken out sharply against the forces of bureaucracy and federalism.

Our choice is clear: Either we exercise democratic control of Europe through co-operation between national governments and parliaments which have legitimacy, experience and closeness to the people.

Or, we transfer decisions to a remote multi-lingual parliament, accountable to no real European public opinion and thus increasingly subordinate to a powerful bureaucracy.

No amount of misleading language about pooling sovereignty can change that.

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7 comentários

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De js a 22.06.2016 às 11:44

Obrigado pela lembrança. Uma profetisa. Meio século passou e as escolhas são obvias.
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De Pita a 22.06.2016 às 12:53

JS disse o importante para este post. Eu, que sou secundário, acredito que:
Margaret Thatcher era uma mulher capaz, inteligente, com força. Com ela, saiu a sorte grande ao RU. Os seus discursos principais, para uma gestão eficaz, são obras de arte política e de frontalidade.
Não se ser de esquerda é logo uma garantia de qualidade: ver o exemplo de António Barreto que saiu da sinistra para manter a sua autonomia e a qualidade — estude o seu percurso na vida e leia os seus escritos no DN.
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De lucklucky a 22.06.2016 às 12:59

A dona Thatcher também gostava de a Politica ter o poder totalitário sobre a Moeda. Défice para ganhar umas eleições, depois de as ganhar imprimir e Inflacionar.

Nesse particular não é diferente dos outros.
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De João André a 22.06.2016 às 16:00

Thatcher é leonizada por liberais que a viram como umaprofeta e campeã dos seus valores. É demonizada por socialistas (ou sociais-democratas) que a viram como alguém que não ligava ao cidadão comum.

Pessoalmente, apesar de a ver como uma pessoa de enorme força e convicções, de uma inteligência notável e cortante, era também alguém que não merecia verdadeiramente esses rótulos. Do lado liberal foi-o apenas economicamente, não ligando ao lado social. Foi liberal dogmaticamente, não ligando a quaisquer consequências que não fossem o resultado final.

Por outro lado, as suas intenções foram sempre as de beneficiar o cidadão comum e, apesar de pessoalmente não concordar com a maioria das suas políticas, considero que as suas intenções sempre foram do mais honesto que era possível.

Por outro lado o seu lado humano era relativo: sendo alguém que valorizava o indivíduo, parecia ser alguém completamente alheada do sofrimento de indivíduos específicos desde que acreditasse que as suas políticas beneficiavam todos os indivíduos. Parecia-me que tinha uma visão globalizante dos indivíduos sem os ver como uma sociedade ao mesmo tempo que parecia não ligar a indivíduos específicos (confusos? também eu).

Seja como for, a sua visão do cidadão comum era a de alguém que necessitava de ser guiado. Ignorava olimpicamente os cidadãos quando lhe convinha, mas apelava ao seu envolvimento no debate público quando era politicamente útil (como no texto citado).

A verdade é que as suas políticas levaram a desemprego elevado (como qualquer mudança radical de política em relação ao estabelecido iria sempre levar) e, apesar de ter reformado de forma essencial a economia britânica (e, por arrasto, a europeia), as consequências de regulação de um lado e liberalização do outro foram menos radicais do que afirmou no discurso.

É importante temperar regulação e liberalização e penso que é esse o fundamento de qualquer sociedade bem sucedida. Basta ver que o "liberal" Reino Unido tem uma despesa pública de 48,5% do PIB e a "regulada" Alemanha tem de 45.4%. Já a Holanda (vista por vezes como campeã de liberalismo mas que eu vejo como dos países mais comunistas que alguma vez existiram) tem uma despesa pública de 49,8%.

Já em relação à migração, sempre aconteceu e sempre acontecerá. Se a união monetária e a UE em si vieram fazer alguma coisa nesse sentido foi trazer estabilidade ao assunto. Há de facto transferências de fundos, mas qualquer relatório financeiro demonstra que a Alemanha, por exemplo beneficiou mais da UE do que pagou, isto apesar de ter sido sempre o maior contribuinte (líquido e ilíquido). O próprio Reino Unido terá beneficiado imenso, já que apesar de não estar na união monetária, está no mercado comum e quase 50% das suas exportações são para a Europa.

Thatcher estava errada em quase tudo em relação à UE. Apesar de não nos podermos ancorar em contrafactualidade, podemos dizer que o desemprego não foi assim tão mau, o crescimento não foi prejudicado e as migrações não foram a catástrofe anunciada.

Por fim estava errada em relação ao debate. Se é verdade que faltaram consultas mais directas aos eleitores, o debate nunca deixou de ser feito. As escolhas puderam sempre ser feitas por todos os eleitores nas urnas em todas as suas eleições. Os partidos de toda a Europa souberam sempre tirar ilações dos resultados e, em caso de crescimento de partidos eurocépticos, adaptaram sempre as suas posições. O debate sobre a UE foi contínuo e sempre claro. Não tendo nunca vivido no RU não posso verificar a situação mas a sensação que tenho é que o debate lá tem sido muito menos claro que em qualquer outro país.

É por isso que nunca gostei do snobismo de Thatcher, uma gigante intelectual que considerava que os eleitores não compreendiam aquilo que ela queria fazer mas que defendia subitamente a capacidade deles de decidir quando isso lhe convinha. Invocá-la é sempre oportuno, como figura incontornável que é, mas volto ao primeiro parágrafo: não era nem profeta nem demónio. E neste aspecto, mais que na maioria dos outros, era altamente falível e dada a antipatias ilógicas.
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De Paulo Sousa a 22.06.2016 às 22:06

Ao ler o seu parágrafo onde diz que "Thatcher estava errada em quase tudo em relação à UE. Apesar de não nos podermos ancorar em contrafactualidade, podemos dizer que o desemprego não foi assim tão mau, o crescimento não foi prejudicado e as migrações não foram a catástrofe anunciada" parece ser uma análise feita no fim dos tempos. A história foi congelada e o amanhã será igual a hoje.
Será que o que ela referia como 'National resentment' não é um facto mais do que comprovado e um dos pilares das manifestações políticas radicais a que assistimos?
Será interessante voltar a ler este discurso daqui a dez anos e, infelizmente, nessa altura o que ela disse será ainda mais óbvio e terei ainda mais razão para discordar deste seu comentário.
Lá chegaremos se tivermos essa sorte.
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De Adolfo Mesquita Nunes a 23.06.2016 às 10:17

João, indo ao ponto essencial do post, o euro-snobbism, a forma como se forja um discurso e um consenso que atira com altivez para as bermas aqueles que dele discordam, não consigo concordar contigo.

Não se passou só com Thatcher a nível europeu (a nível nacional, pudera, não consegue propriamente dizer-se que aquilo que um PM diz não serve de nada, mas ainda assim os epítetos com que era brindada diziam muito sobre o snobbism) mas com todos aqueles que, de políticos a economistas, foram alertando para os riscos da moeda única. Muitas vezes ignorados, ou chamados para fazerem de idiotas úteis, os adversários da moeda única eram os obscurantistas, os pouco ambiciosos, os soberanistas bacocos. Nada disto aumenta ou diminui a autoridade dos argumentos. Apenas diminui a qualidade das decisões.
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De gty a 23.06.2016 às 01:54

Ver alguém que entrou num governo - que foi, no mínimo, timorato - pela mão polpuda do irrevogável citar Margaret Tatcher é puro humor negro.

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