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Enfrentar os índios

por Luís Naves, em 21.02.17

 

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Não é fácil entender o mundo contemporâneo, a vaga de mudança e a crispação política nos países mais ricos do mundo sem considerar que há duas ideias incompatíveis em confronto. Um dos lados da barricada pensa que a civilização ocidental é um fracasso e deve reconhecer os seus erros históricos e mudar de práticas; a outra olha para os conflitos mundiais como parte de um choque de civilizações, onde culturas bárbaras ameaçam suplantar as avançadas. No fundo, ambos pensam que não existe lei do progresso e ambos consideram que somos testemunhas de um declínio da modernidade. A esquerda acredita que o cristianismo é totalitário e que o capitalismo leva os países para a escravatura e o império. A direita acredita que o ocidente se encontra em perigo iminente e defende o reforço da identidade como única saída para travar os processos de decadência.

A fronteira é o primeiro campo de batalha desta guerra de culturas, pois define o espaço em que as pessoas se incluem. É por isso que as migrações são o grande tema das campanhas políticas, pois tocam no nervo das opções da sociedade. Os argumentos mais acesos, por exemplo, sobre as decisões da nova administração americana ou nas campanhas eleitorais europeias em 2017, giram em torno do choque de civilizações ou da culpa do Ocidente e têm geralmente relação directa com a questão da identidade. As elites discordam dos seus compatriotas descontentes, os meios de comunicação recusam-se discutir o tema, as nações resistem, a globalização está a mudar de forma, reduzindo-se entre espaços que se consideram distintos, acelerando nos territórios que se reconhecem da mesma ordem. A parte mais irónica é que a ideia da dissolução do ocidente criou uma resposta que nos conduz a futuros mecanismos de alianças de poder. Lembram-se do livro de Samuel Huntington que popularizou a noção de ‘choque de civilizações‘? É curioso, mas estava lá tudo, os problemas de identidade, as migrações, as prováveis alianças, a ameaça do extremismo islâmico, o ocidente no auge do seu poder e a enfrentar os índios.

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12 comentários

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De Justiniano a 21.02.2017 às 14:28

É, pela milésima vez, sempre premente a leitura dos seus textos!!
Não se trata apenas de não serem um chorrilho de vulgaridades com um enunciado vazio, nem da habitual metralha de virtudes a metro que lemos na chamada media de referencia!! São reflexões profundas sobre as tensões que se vivem pelo ocidente afora, e cá chegarão! Raras crónicas, entre nós, em Portugal, e ainda mais raro sentido crítico sobre o cotidiano do ocidente! Ainda haveremos de lembrar com saudade o tempo da maldade em que se discutia a austeridade e outras questões gestionárias. Assistimos, este ano, ao agravar do conflito entre a compaixão e o medo. Assistiremos, no próximo, senão neste como evidenciam alguns indicios, à fadiga de compaixão. E, no seguinte, ao definitivo enterrar da compaixão!! De permeio assistiremos a conflitos assimétricos entre a ira e a clemência, até desaparecer a clemência!!
Há distopias cuja evidencia é, hoje, indisfarçável!
Pessimismo!? É evidente, também! Pelo menos em mim.
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De Luís Lavoura a 21.02.2017 às 15:19

Parece-me que o Luís Naves está a radicalizar a situação de forma disparatada. Nem as elites pensam "que a civilização ocidental é um fracasso e deve reconhecer os seus erros históricos e mudar de práticas", nem o povo vê a situação como um qualquer choque de civilizações. As pessoas, pura e simplesmente, sentem-se economicamente inseguras e revoltadas e por isso querem-se fechar. Querem o bolo todo para elas. É basicamente uma questão económica.
Já há dezenas de anos que as pessoas da França e da Alemanha convivem com milhões de magrebinos e turcos nos seus países. Por que é que só agora descobririam que há um choque de civilizações?
É a economia, estúpido!
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De Justiniano a 21.02.2017 às 15:57

Convivem!? As tensões que são referidas já são latentes há dezenas de anos! São coisas recorrentes a que o recente acelerador da "crise dos refugiados" veio oferecer um retrato de premência, de estertor, cataclismo! A aceleração teve dois sentidos!
A coisa tem um reduzidíssimo fundo malthusiano! As razões ou justificações económicas explicam muito pouco, por vezes explicam precisamente o contrário, mesmo contra eventuais benefícios económicos (vide brexit)! Houve um tempo em que o consenso liberal legitimava alguma racionalidade de análise, das vantagens e das desvantagens! Medrou um território neutro de mores e um outro expressivo de mores, um emergente direito das gentes convive em paralelo com o quadro jurídico do consenso liberal! E assim a coisa foi andando! Com a pressão demográfica, o espaço público vai-se redesenhando! Um vasto aparteiheid, nas cidades europeias, torna-se evidente! Indisfarçável, nas grandes cidades francesas!
E não creio que este tempo, fenómeno, possa ser superado pela súbita prosperidade de um qualquer milagre económico! Basta passear por essa europa fora!!
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De Luís Naves a 21.02.2017 às 16:01

Não estou a radicalizar coisa alguma, apenas afirmo que a política se radicalizou, dividida em dois grupos que têm interpretações antagónicas da realidade: um deles, pensa que o ocidente é nefasto e não expiou suficientemente os seus crimes, o outro pensa que o ocidente enfrenta um choque de civilizações. A coisa não tem de ser articulada desta forma, mas é assim que as pessoas olham para o mundo. Só precisamos de ouvir e ler o que se diz e escreve por aí, incluindo em blogues como este ou nas conversas quotidianas. Julgo que a sua leitura do texto não foi adequada, pois não escrevi o que consta no seu comentário. Aliás, qual é a melhor maneira de rebater uma ideia? Basta pegar nela, torcê-la até ser outra coisa, forçá-la a confessar o que ela nunca quis admitir e depois rematar com um dito espirituoso que não faz parte da discussão.
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De isa a 21.02.2017 às 16:51

"É a economia, estúpido!"

Mas, quem é que, realmente, controla a economia, o dinheiro, os países?
Por acaso até me apetecia pôr, no fim da pergunta, a mesma palavrinha... estúpido!
No entanto, eu estaria a mentir, o Lavoura não é estúpido, apenas ignorante e, felizmente, é apenas falta de conhecimento e basta que o próprio investigue mais para ficar curado
O Luís Naves pode não saber tudo porque ninguém é detentor de toda a Verdade mas, você parece que vê o Mundo a preto e branco ou como se os assuntos fossem independentes uns dos outros, como se cada um, estivesse dentro da sua caixa.

O Mundo está como está, precisamente, por culpa dos ignorantes com a sua falta de conhecimento sobre o que se passa nos bastidores e, os chico-espertos, aqueles dos triliões, só assim, conseguem controlar e manipular o destino dos 99% que caiem sempre nas mesmas esparrelas: medo e, serem facilmente divididos para eles poderem reinar. Basta você chamar estúpido a outro seu igual para estar a colaborar com o 1%.

Precisamos debater os assuntos mas, acima de tudo, nunca ficarmos convencidos de que já sabemos tudo e que somos detentores de toda a Verdade.
No seu caso, convém ir investigar para trás do problema económico e como se chegou ao problema e, não me diga que um Partido Político tinha a solução para não se chegar a este ponto porque, até eles (Todos) fazem parte do Problema e não da Solução. E, não pense que, para mim, foi fácil chegar a esta conclusão, foram anos de pesquisa e a ter de gramar muitos discursos, muitas opiniões, muitos debates (especialmente dos que controlam, fora da nossa quintarola) ver muitas reportagens, só para conseguir Começar a perceber alguma coisa e começar a ter, Algumas certezas.

Por exemplo, você sabe que o Deutsche Bank (mais que falido) vai ser vendido a uma entidade que não é alemã? Pensa que isso não tem influência no rumo do que consideram ser o nosso sistema bancário e, mais uma vez, tudo ser feito como o 1% sempre imaginou?
Isto é uma espécie de caldeirada, onde nunca saberá o que está a comer se não souber todos os ingredientes e, neste caso, basta um estar envenenado que o resultado é sempre o mesmo, mesmo que só fale na cenoura ou nas ervilhas
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De isa a 22.02.2017 às 10:51

E, como desde ontem, ninguém parece ter notado que a caldeirada não leva cenouras nem ervilhas será, precisamente, o que se passa nos debates de como resolver determinados problemas, falam muito, discutem muito mas, sobre coisas que, realmente, não têm nada a ver com as soluções.
Neste caso, brinquei com os ingredientes, como metáfora sobre aquilo com que se rodeiam certos problemas e, estrategicamente, misturam tudo, para que a receita de uma qualquer solução, nem sequer seja aflorada, levando toda a gente a "comer" um arroz à valenciana, dizendo-lhes que é uma caldeirada e, só consegue ver isso, quem souber que outros ingredientes entram na receita e, nem que falem até à exaustão sobre um deles, o problema estará sempre naqueles de que não falam e, assim, continuaremos a comer gato por lebre
O mais divertido, se a situação não fosse trágica, é ver cada Partido, só falar no ingrediente que mais lhe convém.

https://www.youtube.com/watch?v=DFx8erHYnOg
The Battlefield is You!
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De Vento a 21.02.2017 às 16:22

Muito bem reflectido.
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De lucklucky a 21.02.2017 às 18:56

Não é enfrentar os Índios é enfrentar o Marxismo e a seu objectivo final da destruição da Civilização Ocidental, os índios são só um instrumento para tal, serão para deitar fora quando não mais servirem a Esquerda:

Jornal Publico: O Governo PS+PCP+BE : "...sempre que se verifique um acto racista ou xenófobo, a vítima não tem necessidade de provar os critérios que os motivaram – ou seja, presume-se a intenção discriminatória, que pode ser rebatida nas entidades competentes."

https://blasfemias.net/2017/02/21/totalitarismo/

Com isto se destrói a presunção de inocência. Algo que o Marxismo sempre quiz, pois segue Hegel e o Estado Ético em vez do Estado de Direito.

https://it.wikipedia.org/wiki/Stato_etico

Universidade de Cincinnati

"The University of Cincinnati is sponsoring a workshop on “white fragility” and “white tears” this semester…

http://dailycaller.com/2017/02/13/public-university-to-hold-inclusive-workshop-on-white-tears/

Regis University

"Jack Flotte, a member of Regis University’s Social Justice and Spirituality Committee, opened the session by scolding his white peers and professors on their state of “white fragility...”

http://www.campusreform.org/?ID=8771

Universidade de Berkeley - a burocracia marxista precisa de funcionar -

...Berkeley funds the Division of Equity and Inclusion with a cool $20 million annually and staffs it with 150 full-time functionaries...

https://www.city-journal.org/html/culture-cupcakes-14960.html

“We are moving to the point where your gender is a choice,” said [headmistress, Clarissa] Farr. “I see this as a social phenomenon, especially in London, which is much talked about among school leaders.”

http://www.thetimes.co.uk/edition/news/st-pauls-lets-sixth-form-girls-be-boys-vnw6lg0zv


Aquilo que o Luís Naves não fala é que há uma Revolução em curso, como consequência do triunfo do Marxismo sobre toda a Esquerda.



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De Justiniano a 21.02.2017 às 19:09

Mais, caro Naves. A coisa é tão intrincada e as contradições tão penosas que chegamos ao ponto de ver o the guardian a invocar a eventual quebra da city de Londres para tentar reverter politicamente o Brexit. Estranho mundo este onde a guarda avançada do anti capitalismo clássico se vê refem dos alter mmndialistas do capitalismo avançado para poderem manter a mundividencia da multiculturalidade como paradigma imaculado!! Estranho!! A quem nunca a racionalidade económica importou a invocar as vantagens econômicas o pensamento mercantilista como legitimação para uma ideia que entendem superior!! Um ocidente multicultural!! Ainda alguém há-de explicar tamanha torção!!
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De Einzeturzende Neubaten a 21.02.2017 às 19:22

A desunião entre oriente e ocidente pode conduzir a uma mais forte união do Ocidente. A seta da história aponta para essa possibilidade. Reforço das instituições supragovernamentais
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De lucklucky a 22.02.2017 às 22:46

A desunião é no Ocidente com a cultura Marxista.

Que aliás foi a mais mortífera exportação Ocidental na sua variante Comunista.

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De Einzeturzende Neubaten a 21.02.2017 às 20:26

Haja esperança. Para livros recomendo o Non Zero de Robert Wright, finalista do prémio Pulitzer. Se levarmos e linha de conta intervalos de tempo curtos os tempos não auguram nada de bom. Contudo se o alargados veremos que a história nos conta que as interdependências tendem a uma diminuição dos conflitos e a um aumento das somas não zero

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