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Em defesa do bom ambiente de trabalho

por Rui Rocha, em 09.12.16

Peço antecipadamente desculpa pelo tema que aqui vos trago, mas a verdade é que ando há uma data de tempo com isto atravessado e se não desabafasse convosco, com quem iria desabafar, não é? O ponto é que, de há uns anos a esta parte, os especialistas na concepção e desenvolvimento dos espaços de trabalho embarcaram na moda do open-space. E não me refiro ao open-space do escritório propriamente dito (e sobre este também muito haveria a dizer), mas ao das casas de banho. Das casas de banho, perguntarão alguns, estupefactos. Efectivamente. Mas a casa de banho não tem divisórias, salvaguardando a necessária privacidade, perguntarão ainda os mesmos. O problema é esse. Sim, tem divisórias. Mas não, não salvaguardam a necessária privacidade. Vamos lá ver. Na primeira empresa onde trabalhei, cada casa de banho era separada do espaço exterior por paredes inteiras e honestas, paredes dignas desse nome, portanto . Mas já na segunda me deparei com a modernice das finas divisórias e portas suspensas que não chegam ao chão nem ao tecto. Consequência? Muito simples. Protege-se realmente a vista mas não os outros, e para o que aqui nos traz, relevantes sentidos. E a verdade é que aquilo que, graças a Deus, a vista não alcança, chega lamentavelmente ao ouvido e ao olfacto. Certo. Todos concordamos que há vantagem em termos organizações transparentes. Mas creio que todos concordaremos também que não há rigorosamente vantagem nenhuma em coincidirmos em casas de banho contíguas, separados apenas por uma incompleta e fina divisória, com o Bastos da Gestão Administrativa num dia em que o desgraçado sofre de prisão de ventre. E sim, as nossas organizações precisam de tornar-se cada vez menos hierárquicas e ágeis. Mas convenhamos. Nenhum de nós quer estar lado a lado com o Administrador do Pelouro, com apenas uma fina e incompleta divisória de permeio, no dia em que este descobre que, de véspera, jantou ovas de esturjão estragadas. O ponto é este: por muita abertura, descontracção e camaradagem que exista no local de trabalho, há dores, odores, manifestações de júbilo, alívio ou sofrimento, ruídos, gotejos, borbulhares, estalidos de fivelas, arrastares de cintos, que não devem ser partilhados. Há momentos da vida que devemos enfrentar rigorosamente sozinhos. E é estranho que querendo saber o menos possível de certas coisas mesmo no que diz respeito aos que nos são mais próximos, acabemos por ter acesso a informação involuntária, indesejada mas privilegiada relativamente ao Lopes da Tesouraria com quem nos cruzamos não mais de duas vezes por ano, uma delas no local errado. Nada, pois, contra a arquitectura da fluência. Tudo, portanto, contra a arquitectura da flatuência. Porque há coisas que comprometem irremediavelmente o ambiente de trabalho e, depois, não há team-building que as resolva. E isso, caros e pacientes leitores, é, do ponto de vista da motivação, uma merda. 

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19 comentários

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De Teresa Ribeiro a 09.12.2016 às 14:20

Que post tão visual! E tão olfactivo!
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De Rui Rocha a 09.12.2016 às 14:21

Nada que se compare com a realidade, Teresa.
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De Costa a 09.12.2016 às 17:12

Ele vai-se a ver e tem tudo a ver com a desvalorização do trabalho, o assalto aos direitos garantidos e às legítimas expectativas, e o retrocesso civilizacional. Sobretudo desde que cá andou a troika e tivemos um governo neo-liberal de lacaios da "senhora Merkel" (mas o tipo, perdão; o sr. eng., que pediu à tal troika que viesse e o que ele andou antes disso por cá a fazer - ele e os seus amigos - nada tem, evidentemente, a ver com o caso!).

Sempre seria uma simples e clara explicação de mais uma questão de m.... Mas uma explicação de esquerda, sobretudo. Patriótica, portanto! E a única legítima, evidentemente.

Costa

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De Rui Rocha a 09.12.2016 às 18:14

Eu, por mim, estou convencido.
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De Conde de Tomar a 09.12.2016 às 21:24

Percebo-o Rui! Mas se quer um aumento tente os urinóis.
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De Rui Rocha a 10.12.2016 às 17:05

Caro Conde, não sou pessoa de me gabar, mas não há nada que eu utilize nos urinóis que esteja carecido de aumento.
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De BELIAL a 10.12.2016 às 08:55

O tribunal europeu dos direitos humanos, devia ajuizar esta (o)pressão escatológica, com os 5 sentidos.

Retrete: último reduto dos direitos humanos.
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De isa a 10.12.2016 às 12:32

Se é uma merda, é muito simples, deixe de colaborar e faça bom uso dos seus Direitos Naturais.
https://www.youtube.com/watch?v=xr1S_EIZanY
(Truth Bomb - Max Igan talks with Mark Passio)
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De Rui Rocha a 10.12.2016 às 17:09

58 minutos? Obrigadinho, Isa.
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De isa a 10.12.2016 às 21:18

O problema é mesmo esse, 58 minutos?
Todos querem mudar o Mundo para melhor (ou dizem querer) mas, só se for sem trabalho nenhum e, de preferência que alguém o faça por nós. Aposto que muitos gastam mais do que 58 minutos a ouvir tretas de futebol mas, se for alguma coisa que os obrigue a pensar ou ponha em causa a sua percepção do Mundo... "cruzes canhoto" ;)
Pode crer que já só indico coisas de 58 minutos e 22 segundos a quem penso ter a capacidade de pensar "fora da caixa" porque a grande maioria nem sequer consegue ver que há algo de errado.
Realmente, não são 5 minutos, mais a mais, sem as introduções como, às vezes, deixo noutros sítios mas, tento encontrar "bons terrenos" onde, lanço sementes de um Mundo melhor e, nunca se sabe mas, algumas, poderão germinar ;)
http://estadosentido.blogs.sapo.pt/geringonca-por-quem-os-sinos-dobram-3775956#comentarios
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De JAB a 10.12.2016 às 16:51

Ainda pensei. Mau. O Rui agora deu-lhe para escrever artigos de opinião daqueles grandes? E ia passar adiante, mas... Não, não pode ser!... Deixa-me ler por alto... E só o tema é que não me permite dar-lhe a classificação de... "delicioso".
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De Rui Rocha a 10.12.2016 às 17:09

Obrigado, JAB.
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De Cristina Torrão a 11.12.2016 às 12:31

Fartei-me de rir. E tem razão! Um tema que não se aborda, mas pertinente, acho eu.
No local de trabalho, o cuidado devia ser ainda maior, porque as pessoas se conhecem. Este é um daqueles casos em que o conhecer atrapalha. Por exemplo, não é tão desagradável enfrentar esses odores, dores, ruídos, etc. na casa de banho de uma estação de serviço, onde não fazemos ideia de quem está ao lado. É diferente do que saber que é o Lopes (ou a Gabriela, conforme os casos) da Tesouraria.
Receio, no entanto, que avisos destes caiam em orelhas moucas, porque se vai continuar a não falar do assunto.
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De Rui Rocha a 11.12.2016 às 14:17

A história julgará aqueles que não atenderem a este apelo, Cristina.
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De kropotquino a 13.12.2016 às 03:15

Isso deve ser coisa de anarcas.A melhor maneira de anular uma autoridade é segui~la a uma retrete pública,com paredes de vidro ou meias-portas.Acompanhe o seu aparachique à casa de banho,oiça-o atroar o cubículo e liquefazer-se gemendo.Ameace-o:--Vou chamar a Segurança...

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