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É tempo de esclarecer tudo

por Pedro Correia, em 19.10.17

costa[1].jpg

 

Procurar camuflar as falhas concretas, registadas neste trágico ano de 2017, com as "deficiências estruturais" na floresta não é sério. Há 110 mortos - os  44 já oficialmente contabilizados da tragédia de domingo, somados aos 65 de Pedrógão Grande e ao piloto que morreu no combate às chamas em Castro Daire - cuja memória exige e reclama justiça. Reconhecer os erros e pedir desculpa é cumprir os mínimos por parte do Governo enquanto servidor público.

O relatório oficial encomendado pelo Executivo reconhece: houve falhas clamorosas ao nível da protecção civil na resposta aos fogos florestais. Sem elas, "podiam ter sido evitadas algumas mortes e muito sofrimento".

Este é o cerne da questão. E pouco tem a ver com causas estruturais. Tem a ver essencialmente com a péssima coordenação de serviços públicos que deviam garantir a segurança de pessoas e bens mas falharam em toda a linha. Primeiro em Junho, agora em Outubro.

 

Dizem-me que, por estes dias, o primeiro-ministro anda sem a habitual energia anímica de que costuma fazer gala. É caso para isso.

Acontece que António Costa foi responsável na década passada, enquanto titular da pasta da Administração Interna, por algumas medidas extremamente controversas: pôs fim à carreira de guarda-florestal,  adjudicou a título definitivo o contrato com o sistema de telecomunicações SIRESP e montou o actual dispositivo da protecção civil. Com os resultados que sabemos.

Foi também ele que, já enquanto chefe do Governo, insistiu em nomear um coronel da sua confiança para o comando da Autoridade Nacional de Protecção Civil.

 

Em 2017 tivemos um Estado que falhou em toda a linha na defesa da vida, da integridade física e da segurança de milhares de portugueses. Incapaz de zelar pela população mais pobre, mais envelhecida, mais indefesa e mais desprotegida - a que morreu e foi gravemente afectada para sempre nestas tragédias.

Como questionava há dois dias o nosso Adolfo Mesquita Nunes no Jornal Económico, "se o Estado, que consome metade da riqueza produzida, não serve para isto, serve para quê?"

Se tudo isto não merece ser avaliado seriamente, no quadro de um debate parlamentar de uma moção de censura ao Governo, poucos temas haverá que o justifiquem. Será bem mais útil os senhores deputados gastarem tempo com esta discussão do que a recomendarem que tipo de  arroz devemos comer ou que espécie de clientes devem frequentar os  restaurantes pátrios - tarefas a que suas excelências costumam dedicar-se à falta de qualquer outra actividade que lhes preencha a agenda.

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23 comentários

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De Luís Lavoura a 19.10.2017 às 12:45

Procurar camuflar as falhas concretas, registadas neste trágico ano de 2017, com as "deficiências estruturais" na floresta não é sério.

Concordo. Não é sério invocar as deficiências estruturais da floresta, que já se verificam há dezenas de anos.

Porém, é sério invocar os acontecimentos meteorológicos anómalos que se registaram este ano. Em outubro houve ventos ciclónicos, causados por um furacão a passar perto da costa, e em junho houve também um fenómeno de vento estranho.
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De Pedro Correia a 19.10.2017 às 14:30

A meteorologia felizmente está hoje munida de instrumentos que permitem antecipar com muito rigor o que irá passar-se a três dias de distância.
A resposta dos organismos do Estado, designadamente ao nível da protecção civil, deve adequar-se à meteorologia, não à imposição cega e burocrática do calendário. Sobretudo nos dias que correm, em que as chamadas "estações do ano" estão mais desreguladas que nunca.
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De Luís Lavoura a 20.10.2017 às 09:52

1) A meteorologia não consegue prever tudo, nomeadamente fenómenos muito localizados como aquele que terá ocorrido em Pedrógão Grande.

2) Mesmo que a meteorologia preveja, pode não se ser capaz de combater. (Os Estados Unidos também prevêem os furacões, porém sofrem com eles na mesma.) Foi o caso do 15 de outubro, em que ventos fortes (previsíveis) assolaram o país, mas foi impossível combater todos os fogos.
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De Anónimo a 19.10.2017 às 17:32

Oh lavoura vai-te lixar com F bem grande, já chove há 3 dias e ainda existem postes a fumegar na base, partidos, apenas presos pelo fios sujeitos a qualquer momento a cair na estrada.
São palhaços como o lavoura que dificultam a regeneração que se impõe em Portugal.
Eu já aqui discordei muitas ( mas mesmo muitas) com o Pedro Correia e outros autores do blog mas quando têm razão admito-o.
Não se pode tolerar mais este "estado" de coisas e só peço a todos que não vão na ladaínha de mais meios, cenários, fases charlies e beta e que mais parlapié que nos queira enfiar pela goela...

" A lealdade é a verdade do sentimento: é impossível ser desleal sem mentir à consciência, sem ludibriar a consciência alheia. "

WW
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De Pedro Correia a 20.10.2017 às 09:24

Confirmo. Já discordámos imensas vezes.
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De Vlad, o Emborcador a 19.10.2017 às 13:28

"Dizem-me que, por estes dias, o primeiro-ministro anda sem a habitual energia anímica de que costuma fazer gala"

Deve é andar amuado por não lhe terem feito a vontade (desconfio que a saída, da ministra, foi também exigida pelo BE).

"BE considera que a demissão da ministra era inevitável"
Pedro Mota Soares.

E as lágrimas, mascaradas, aquando do debate quinzenal, eram de auto-comiseração.

Além do mais não sendo displicente a vontade do PS ir a eleições antecipadas para se ver livre da esquerda, aproveitando, para isso, os recentes índices económicos e de popularidade , o sucedido com os fogos fechou-lhes essa saída.


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De Pedro Correia a 19.10.2017 às 14:34

Fosse qualquer outro governo que estivesse agora em funções, o BE andava desde domingo com uma gritaria ensurdecedora, reivindicando as demissões de meio mundo e exigindo eleições antecipadas e rasgando vestes nos meios de comunicação e nas redes sociais.
Já tinha depositado na Mesa da Assembleia da República uma moção de censura.
Agora que se tornou na guarda pretoriana do poder, opõe-se às moções de censura da oposição. E pia fininho. Quase nem se entende o que os dirigentes do BE afirmam por terem baixado tanto o tom de voz.
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De Vlad, o Emborcador a 19.10.2017 às 14:43

Pedro, bem sei! Mas isso sucede com todos os partidos. São uma coisa no governo, outra na oposição. Assim um misto de Dr. Jekyll e Mr. Hyde.

O BE está a aprender a ser um partido da Arco da Governação. Tenhamos paciência durante este período, breve, de aprendizagem..
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De Pedro Correia a 19.10.2017 às 14:47

Nisso tenho de concordar consigo. O BE está num constante processo de aprendizagem. Acelerada.
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De am a 19.10.2017 às 14:34

Um pedido:

Sr primeiro Ministro, fiquei comovido com seu emocional pedido de desculpas, pelas mortes recentes e passadas...O seu arrependimento por ter contratado o inoperacional SIRESP e a frota aérea .....
....Para juntar à Companhia do Choro:

Diga ao seu ministro da Saúde que também "chore" -- as 2.605 mortes ocorridas em 2016 por falta de cirurgia"

Tribunal de Contas ( Mentiras do SS sobre a listas de espera, já postado no DO)
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De Vlad, o Emborcador a 19.10.2017 às 17:23

"Asfixia burocrática, subfinanciamento, equipamentos obsoletos e falta de material ditam demissão em bloco no Hospital de São João. António Ferreira alertou há dois meses o ministro Paulo Macedo para situação insustentável."

António Ferreira, presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de São João, no Porto, avisou há dois meses o ministro da Saúde de que a situação clínica tornara-se "insustentável", sendo impossível tratar dos doentes.

http://expresso.sapo.pt/sociedade/58-diretores-demitem-se-em-bloco-no-hospital-de-sao-joao-administracao-solidaria=f876726

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades


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De jerry khan a 19.10.2017 às 15:06

'se o mundo tivesse cu,
o cu do mundo era aqui'
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De Vlad, o Emborcador a 19.10.2017 às 16:02

Leu esse aforismo nalgum autoclismo?
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De Anónimo a 19.10.2017 às 16:28

não. foi num artigo de 'neurologia cibernética'
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De jerry khan a 19.10.2017 às 18:30

na Escola Prática de Cavalaria em Santarém
no tempo do básico que não sei como chegou ao Carmo
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De singularis alentejanus a 19.10.2017 às 15:27

Não só estes, mas também todos os políticos com responsabilidades governativas pós 25A, digo... eu.....eu.... obviamente demitia-os.
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De Rão Arques a 19.10.2017 às 15:33

Obrigado Pedro Correia, por ter dito sem meias palavras aquilo que o jornalismo sempre aconchegado nas teias do poder não é capaz de questionar. Embora se note que alguns abutres até agora fazendo-se de adormecidos vão mostrando o bico fora do ninho por lhes cheirar a sangue fresco.
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De Anónimo a 19.10.2017 às 16:34

É tudo verdade, mas ainda mais grave. Nenhum responsável político é capaz de reconhecer a criminalidade organizada na origem da tragédia. É o raio, é o cabo eléctrico, são os eucaliptos, talvez seja uma conspiração de esquilos, essa praga de bichos ...
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De Pedro Correia a 19.10.2017 às 23:46

E no entanto parece-me cada vez mais evidente que há um terrorismo ambiental, como já lhe chamei aqui, por detrás desta criminosa destruição de florestas, bosques, pastos, pomares e áreas de cultivo.

http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/fogos-sao-terrorismo-ambiental-9500960

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De Maria Dulce Fernandes a 19.10.2017 às 17:24

O Senhor Primeiro Ministro , sofre, sem sombra de dúvida, de transtorno de personalidade narcisista, senão o seu vocabulário seria seguramente mais fluente, e demarcava-se do eu, eu, eu, que tão bem o representa.
Para os que sofrem da síndrome de A Man Called Shenandoah ( ver no Google ) , o Pedro Correia traçou os tês e pôs os pontos nos is. Só não entende quem não quer entender.
Se o Senhor PM anda mal encarado, até branco e indisposto, proponho sumo de cenoura e água com gás. O primeiro ajuda a repor a melanina, e a segunda ajudará a digerir todos os sapos que se Deus quiser ha-de ter que engolir.
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De Pedro Correia a 19.10.2017 às 23:49

Foi preciso o Presidente da República, com a sua excelente intervenção ao País da noite de terça-feira, para o primeiro-ministro abrir enfim os olhos para a realidade.
Não há dados macro-económicos que iludam a lamentável realidade: temos hoje um país mais pobre, mais desigual, mais desamparado, com menos esperança.
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De Anónimo a 20.10.2017 às 10:59

"Só não entende quem não quer entender." Então eu sou dos que não querem entender. Não sabia. Agradeço o esclarecimento.

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