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E agora, Europa?

por Rui Herbon, em 29.05.14

Em muitos países do mundo os seus cidadãos estariam muito contentes por poder participar em eleições livres, mas os europeus preferiram combater os diversos défices da União cedendo ao populismo que impulsiona a eurofobia e a abstenção; défices que incluem entre outras a falta de verdadeira democracia, a complexidade do sistema, a vergonhosa ausência de uma voz perante as crises internacionais ou a submissão ao cronómetro do mercado. A pobreza das campanhas também não ajudou: a construção europeia vende-se mal, sobretudo porque ninguém a encarna com a força de um ideal. E as sociedades atingidas pelo empobrecimento receiam a Europa: julgam-na responsável pela crise e consequentemente pelo desemprego, consideram-na fraca ou demasiado obediente ao sistema financeiro e pouco interessada nos destinos dos povos que a compõem.

 

Os resultados mostram que os movimentos radicais, xenófobos e/ou eurocépticos, assediam o projecto comum. Mas, por mais que durante os próximos cinco anos se dediquem a debilitar a UE ou a acabar com o euro, enfrentam uma tarefa de Sísifo, sem qualquer perspectiva de sucesso. É certo que o Parlamento ficará mais fragmentado, com os extremistas/populistas de esquerda e de direita a ganharem força. Mas pouco mais poderão fazer além de pronunciar os seus discursos inflamados, cuja retórica se dirigirá para contentar os eleitores dos seus países de origem, já que não terão capacidade para bloquear as funções da câmara nem desfazer a maranha tecnocrática da Europa e, em reposta, os partidos pró-europeus mover-se-ão de forma mais coesa.

 

O desafio mais iminente para evitar uma erosão da construção europeia é a maioria silenciosa: aqueles que por desconfiança e desencanto não quiseram votar. É a perigosa apatia de uma imensa maioria que parece dar por certo os muitos avanços económicos e sociais de que hoje gozam por existir uma união na Europa. Mas a paz, as viagens sem trâmites fronteiriços, trabalhar e estudar noutros estados, a moeda comum, o mercado único... a qualquer momento poderão perder-se. É preciso trabalhar por eles e defendê-los de forma permanente, sobretudo os líderes nacionais e europeus, que devem reagir reajustando as suas políticas: simplificando, democratizando e aproximando as instituições europeias dos cidadãos.

 

Apesar da crise e dos seus problemas e ineficiências, a UE é uma aposta na paz e um exemplo de construção política harmónica sem precedentes: 28 países, mais de 500 milhões de habitantes, 24 idiomas e um passado marcado por guerras terríveis. Continuamos a ter enormes privilégios à escala global graças a uma das aventuras políticas e humanas mais admiráveis do último meio século. Por isso para muitos europeus o grande ideal de um conjunto geográfico unido e em paz permanece de pé. Espero que destas eleições e da moldura institucional resultante saia uma Europa mais democrática e disposta a incluir os seus cidadãos, pois sem isso, como se viu, o projecto europeu comum poderá dar lugar a nacionalismos exacerbados e ao regresso a um passado que julgávamos definitivamente enterrado.

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14 comentários

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De am a 29.05.2014 às 10:50

Enquanto o Povo não souber o que verdadeiramente o Parlamento Europeu é o que faz e para que serve, o Povo vê-o como um grande e rico albergue de mordomias... Que o é verdadeiramente?
As TVs , a publica pelo menos, deviam transmitir largos minutos de debates ... Quando raramente transmite ( em direto) alguns deputados passeiam-se por cá...
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De lucklucky a 29.05.2014 às 12:46

Um texto ferozmente populista.
Primeiro define os outros como populistas sem perceber que o unionismo é tão ou mais populista. Igual aos outros só em maior escala.

O texto é digno de um Prvada, tendo as palavras código tipicamente Marxistas que permeiam o jornalismo. Populismo aqui não quer dizer Populismo - apelar aos instintos da população- se assim fosse os apelos à união, riqueza, amizade dos povos seriam populistas.

Depois claro chama extremistas aos outros quando o Unionismo é um projecto ferozmente extremista e radical pretendendo aniquilar culturas, vivências diferentes e tornar a Europa igual com todos para o mesmo caminho.

O autor claro depois tem de desviar as atenções da continuação da integração, pois não nos explica porque é que um projecto já bem sucedido precisa de ter ainda mais Poder.

E claro que melhor exemplo das intensões totalitárias dos Unionistas que a apropriação que fazem da palavra Europa?



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De Rui Herbon a 29.05.2014 às 15:10

Entre eurocépticos e unionistas há um mar com muitos clusters.
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De lucklucky a 29.05.2014 às 21:43

Apropriou-se mais uma vez da palavra Europa :) . Eu não sou céptico em relação à Europa. Sou céptico em relação ao Unionismo.
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De Rui Herbon a 29.05.2014 às 22:02

Eu começo a estar bastante céptico relativamente ao futuro da Europa ou, se preferir, dos países europeus, com ou sem União.
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De Manuel a 30.05.2014 às 18:38

"Resumindo o Manuel arroga-se do direito de impor a sua vontade sobre os outros."
Caro alter ego mais rápido que a sua própria sombra, literalmente, pois já ia direitinho ao post donde você se dirigiu a mim, mas o sensor já tinha apagado todos os comentários, todos salvo seja, ficou lá um.
Antes de mais devo dizer que nem ia reagir a calibre tão pequeno, mas como a situação é especial, aqui vão umas palavrinhas:
Se emprego algum do meu tempo, do pouco que me sobra, em tentar entender este nosso mundo, é da minha natureza e não por qualquer interesse que vá para além dessa inevitabilidade. Evidentemente sinto algumas dificuldades em me exprimir e expressar, isto porque sou um básico, mas sou um básico com esperança, é que eu tenho consciência de mim e sei que já fui mais básico, ainda, mas felizmente gosto de evoluir, mesmo que lentamente, ora condicionado pela minha capacidade ora pela minha disponibilidade de tempo e até financeira. Os blogs são maravilha social, neles li e conheci pessoas. Pessoas com valor, com génio, gente que se deve orgulhar de ser gente, tire o cavalinho da chuva porque você não esta entre essas pessoas - e porquê?
Desde há uns 4 anos que ando pela blogosfera e desde o principio que o leio a si, por aqui e por aí, você tem uma presença marcante. Coincidência ou não, eu também escondia-me atrás de pseudónimos, acrónimos e até de alter egos, como da vez que me deu para assinar como zé-povinho... Enfim, eu sofria tanto na minha insignificância como na minha solidão e a rede social virtual é que pagava o perdido, felizmente que me consegui libertar disso, coisa que você, tal como a maioria dos que andam por este ainda novo mundo, não consegue fazer. Ficou preso a esse medo próprio de quem na vida real representa uma personagem que nada tem a haver com a verdadeira pessoa que realmente é, é aquilo a que chamam gente falsa, ou falsa gente. O mundo esta cheio de não pessoas.
Como ia dizendo, gradualmente fui percebendo que pessoas, que até podem ter pontos de vista desagradáveis ao meu entendimento, mas que primam pela sua capacidade, pela sua sensibilidade e principalmente pelo seu nível, são pessoas que merecem consideração e respeito, e o DO é um espaço que reúne um conjunto de autores e comentadores dignos disso mesmo. Confesso que quando me dei conta disso até me senti ridículo, primeiro por ter acreditado que ia mudar alguma coisa no mundo, depois por ter acreditado nisso quando nem coragem tinha para assumir quem eu era/sou. Portanto quando quiser apontar um defeito a uma pessoa, que ao menos mostre-se digno disso e faça-o com hombridade.
Tenha um bom resto de vida.
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De Anónimo a 29.05.2014 às 12:56

"É a perigosa apatia de uma imensa maioria que parece dar por certo os muitos avanços económicos e sociais de que hoje gozam por existir uma união na Europa."

Também acho. Basta olharmos em volta para constatarmos a sociedade de lazer que, apesar da crise, está ao alcance de uma enorme quantidade de gente, com, a possibilidade, por exemplo, de se deslocar ao estrangeiro simplesmente para assistir a um jogo de futebol ou a um concerto de uma vedeta em voga.

Não é só a sem-vergonhice dos políticos, a falta de palavra ou de cumprimentos de promessas, é o não-te-rales instalado em muitas cabeças que só servem para pensar em tatuagens, mudanças de visual, etc
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De (correcção) a 29.05.2014 às 15:15

... com a possibilidade ...
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De JSP a 29.05.2014 às 17:23

Se estiver no Japão, na Argentina, em Angola ( ou, sem pingo de ironia, na Península Ibérica ) pode falar de "Europa".
Da encosta leste dos Pirenéus para lá tem de falar em países europeus.
E foi isso que , ainda de forma incipiente, expressou esta votação para o "parlamento europeu".
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De rmg a 29.05.2014 às 18:05


Gostei desta análise .

Infelizmente concluo que pouco aprendo de forma geral com as caixas de comentários , tirando honrosas excepções com quem me dá gosto dialogar mesmo que (e por vezes , especialmente se) não estejamos de acordo , com esses aprendo .

Como já tenho focado as tais caixas estão cheias de gente , porventura até mais nova que eu , que não se revê nas novas gerações e apenas as inveja , tirando eu daí a conclusão que não tenham descendentes ou pouco lhes liguem e que portanto bem se estão lixando que isto vá tudo para o penico .

Quem tem filhos e netos revê-se neles e portanto não é mais um "velho" que já nem a endireita (à esperança , claro ...).

Tal como diz o Rui Herbon é bom que os meus filhos e netos vivam nesta Europa e lutem por ela como o fazem .
Os meus lutam porque já viveram na América Latina , no Médio Oriente e até na Austrália (eu próprio vivi no Japão há mais de 30 anos) e portanto sabemos bem dar valor ao espaço onde nascemos e crescemos .

E que não liguem à malta frustrada que não sai das suas vidinhas sem interesse porque sem surpresas .




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De Carlos Cunha a 29.05.2014 às 20:50

hoje em dia os casais têm poucos filhos e muito pouca terra lá na terra.
por isso os filhos quando partilham heranças ele é mais os depósitos bancários, a viatura, a casa dos pais.
se tivessem muitos irmãos / irmãs e umas territas para partilhar na herança, iriam compreender melhor as disputas e zangas fraticidas que se passam nas federações / confederações quando os progenitores partem.
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De Manuel a 29.05.2014 às 22:14

Apatia? Diria anedonia.
A aproximação das pessoas à Democracia e à Europa deve começar logo no pelo poder local. Este é a primeira fronteira entre o povo e Democracia, logo é neste que o capital social deve ser potenciado.
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De Pedro Correia a 30.05.2014 às 13:11

De acordo com tudo, Rui. Subscrevo.
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De Rui Herbon a 30.05.2014 às 19:57

Infelizmente, Pedro, não sei se quem pode fazer algo tem consciência de que não pode ficar tudo na mesma.

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