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Do princípio ao fim (28)

por José António Abreu, em 04.11.16

Blogue_FalcãoMalta_300.jpg

 

Samuel Spade's jaw was long and boney, his chin a jutting v under the more flexible v of his mouth. His nostrils curved back to make another, smaller, v. His yellow-gray eyes were horizontal. The v motif was picked up again by thickish brows rising outward from twin creases above a hooked nose, and his pale brown hair grew down - from high flat temples - in a point of his forehead. He looked rather pleasantly like a blond satan.

 

A tradução (de Baptista de Carvalho, para o nº 34 da colecção Vampiro original) é fraquinha:

O rosto de Samuel Spade era longo e ossudo e o seu queixo formava um pronunciado V, sob o V mais suave da boca. As narinas abriam-se, também sob a forma de um V mais pequeno. Os seus olhos verde-claros rasgavam-se horizontalmente, em forma de amêndoa. Sobranceiras a um nariz aquilino, viam-se duas rugas paralelas donde emergiam espessas sobrancelhas cuja configuração era, uma vez mais, a de um V bem vincado, caprichosamente invertido. O cabelo castanho-claro tinha como fronteira uma testa alta e despida de rugas sobre a qual avançara, como um istmo original, uma porção de cabelo que formava, assim, no centro, um «bico de viúva». À primeira vista, Spade tinha o aspecto agradável de um demónio saxão. Naquele momento, inquiria de Effie Perine:

- Que se passa, meu amor?

 

Na primeira vez que li O Falcão de Malta, de Dashiell Hammett, o início não me chamou a atenção. Poucos adolescentes gostam de descrições, excepto se forem de partes anatómicas mais sugestivas do que a face das personagens. Lembro-me, porém, de ficar fascinado - e horrorizado - com a frieza de Sam Spade, o detective privado no centro do enredo. James Ellroy, que muitos consideram herdeiro de Hammett - começando talvez pelo próprio, pouco dado a demonstrações de modéstia -, afirmou numa entrevista à The Paris Review preferir Hammett a Chandler por este ter escrito do ponto de vista do homem que gostaria de ser enquanto Hammett escrevera do ponto de vista do homem que temia ser(*). Eu admito que Chandler era globalmente melhor escritor do que Hammett mas, ainda assim, compreendo Ellroy. E, pegando novamente há uns anos n'O Falcão de Malta, descobri com surpresa que o jogo estava claro desde o primeiro parágrafo. Sam Spade é o diabo. Ou, vá, um diabo. Uma versão refinada do Continental Op dos livros anteriores, no sentido em que é fisicamente atraente, como qualquer verdadeiro diabo terá de ser (representá-lo com formas grotescas não passa de um truque para tornar mais fácil resistir-lhe). Nenhum humano normal, passível de compromissos, distracções, hesitações, ingenuidades e emoções, chega a ter qualquer hipótese de enganar Spade. A mulher fatal, que Hammett praticamente inventara em Red Harvest e que, pelo menos ao nível psicológico, desgraça o detective em tantos outros livros e filmes, está condenada desde o início(**). No momento-chave, Spade é-lhe imune e, pouco depois, parece já nem se lembrar da sua existência. Não é impossível que as garantias de amor dela fossem verdadeiras. Mas é irrelevante. Ao contrário de Philip Marlowe, o alter ego de Chandler, Spade não é homem para permitir-se actos sentimentais. Não é homem para arriscar o pescoço sem que exista algo tangível a ganhar. Para Spade, o amor seria sempre - e apenas - um benefício colateral.

 

P.S.: O carácter pouco heróico de Sam Spade está bem presente na adaptação cinematográfica de 1941, realizada por John Huston, com Humphrey Bogart no papel principal. De resto, Huston poucas vezes mostrou heróis tradicionais nos seus filmes e o próprio Bogart - em 1941, ainda longe do nível de estrelato que viria a atingir - desempenhou frequentemente personagens antipáticas (recorde-se outra colaboração com Huston: O Tesouro de Sierra Madre). Se alguém vir um herói no Spade do filme, tal dever-se-á provavelmente ao charme que o cinismo possui e ao peso que, não obstante a carreira variada, o nome Bogart adquiriu.

 

Aviso: o texto da edição actual, cuja capa se reproduz acima, está em «acordês».

_______ 

(*) Chandler wrote the kind of guy that he wanted to be, Hammett wrote the kind of guy that he was afraid he was. Chandler’s books are incoherent. Hammett’s are coherent. Chandler is all about the wisecracks, the similes, the constant satire, the construction of the knight. Hammett writes about the all-male world of mendacity and greed. The Paris Review, nº 201.

 

(**) Segundo algumas opiniões, o destino da mulher fatal é precisamente ser punida pelo herói, que castigaria assim o uso de comportamentos pouco consentâneos com o tradicional papel feminino. Pode haver nesta interpretação algum fundo de verdade (um dos receios - mas também uma das fontes de excitação - dos homens sempre foi a possibilidade de as mulheres usarem o sexo como elemento manipulador) mas a generalização - e a inerente acusação de misoginia - parece-me um pouco abusiva.

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5 comentários

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De Pedro Correia a 05.11.2016 às 00:26

Nunca fui grande cultor da chamada literatura negra norte-americana e Hammett deixa-me relativamente indiferente. Mas, como sublinhas, merece todo o crédito como inventor dessa figura iconográfica do imaginário do século XX que é a mulher fatal, geralmente loira, forçosamente pecaminosa.
Na dicotomia Hammett-Chandler pendi sempre para o lado deste último, embora hoje reconheça que tem sido um autor muito sobrevalorizado. Os enredos dele são tão labirínticos que até com GPS nos perdemos naquelas páginas. Foi no entanto um fabuloso autor de diálogos. Neste aspecto podemos dizer que é mesmo um dos melhores escritores norte-americnos.
Passo ao lado desta Colecção Vampiro recauchutada pelo motivo que assinalas. O acordês. As traduções originais mantêm-se - por vezes muito fraquinhas - e a suposta "modernidade" aterrou apenas na supressão das consoantes. Ainda por cima por um preço de capa sete ou oito vezes superior ao que encontramos por aí em qualquer alfarrabista.
É verdade que as capas merecem elogio. Mas prefiro as do Cândido Costa Pinto e do Lima de Freitas. A um euro cada, exemplares catitas, em bom estado. A Vampiro genuína. Com todas as consoantes.
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De José António Abreu a 05.11.2016 às 09:06

Concordo inteiramente com a tua opinião sobre a nova colecção Vampiro.
Alguns enredos de Hammett não serão muito menos labirínticos: A Chave de Vidro, por exemplo, que durante muito tempo foi o meu preferido, é tudo menos linear (deu um filme apenas razoável, com Alan Ladd e Veronica Lake, mas inspirou uma das obras dos irmãos Cohen que mais aprecio: Miller's Crossing - em português, História de Gangsters). Só que, ao contrário de Chandler (mas como Ellroy), Hammett mantinha um estilo seco e directo (muito menos poético, muito menos literário), que talvez facilite o seguimento dos enredos.
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De Anónimo a 05.11.2016 às 13:44

Nunca li o livro, Jaa, mas vi o filme na tv e também em dvd (com extras). Há dias peguei no livro, mas a letrinha miúda e o acordês tiraram-me a vontade de o comprar.
:-) Antonieta
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De BELIAL a 26.11.2016 às 12:31

No filme, gosto de um actor que vi noutros: Sidney greenstreet (como kasper gutman)

Figura alentada, imponente, fraseologia curva, riso sinistro.
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De Pedro Correia a 26.11.2016 às 15:24

Uma figura inesquecível, sim. Entra também em 'Casablanca', num papel muito secundário mas igualmente digno de registo.

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