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Do princípio ao fim (18)

por Teresa Ribeiro, em 10.10.16

lolita.jpg

 

As palavras que se alinham logo no primeiro parágrafo são para se comer: "Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta." - esta sensualidade no começo de uma obra cujo tema é consensualmente considerado deplorável recebe-se como uma provocação. Creio que é sobretudo a curiosidade mais pelo que sentimos, do que pelo enredo que nos leva a progredir no texto a partir destas primeiras palavras. O tom é envolvente, confessional. Trata-se da autobiografia do narrador, Jean Jacques Humbert, um homem maduro, elegante, letrado e pedófilo assumido.

Nada na leitura deste romance é simples. Ao talento descritivo, capaz de nos transmitir com beleza as mais obscuras paisagens, Nabokov associa uma narrativa baseada no testemunho de uma personagem complexa, que tem a capacidade de se decompor em réu e juiz, actor e espectador, narrador e leitor.

Jean Jacques Humbert é, como ele próprio se chama, Humbert Humbert, uma figura que não raramente nos fala a um tempo na primeira e terceira pessoa: "... o soturno Humbert comprimiu a boca contra a sua pálpebra palpitante. Ela riu-se e saiu do quarto roçando por mim. O meu coração parecia estar em toda a parte ao mesmo tempo" (pág 51).

Dual mas ao mesmo tempo lúcido, Humbert disseca até ao âmago a sua perversão, como "quem vira a consciência do avesso e lhe arranca o forro íntimo" (pág 81). Antes que o leitor o classifique adianta-se, consciente da sua abjecção: "Não tenho ilusões. Os meus juízes considerarão tudo isto uma mascarada de um louco, com um gosto indecente pelo fruit vert. Au fond, ça m'est bien égal." (pág 46)

Ao assumir tão frontalmente esta ausência de expectativas Humbert, ou Nabokov através de Humbert, esvazia o papel do leitor. Perante a sua indiferença o que nos resta se não tomar conhecimento de um caso perdido, simplesmente conhecer, como um banal voyeur, as catacumbas da sexualidade de um pervertido? É neste desconforto que progredimos no romance, forçados não a empatizar - isso nunca é sequer tentado - mas a perceber os matizes da moral de um pedófilo. Nada nos é vedado. Da clássica desculpabilização: "O que me enlouquece é a dupla natureza desta ninfita - de todas as ninfitas talvez -, esta mistura na minha Lolita de uma terna infantilidade sonhadora e uma espécie de misteriosa vulgaridade", à impiedosa consciência da perversão: "... a horrível conclusão a que quero chegar (...) é a seguinte: tornara-se gradualmente evidente à minha convencional Lolita, durante a nossa singular e bestial coabitação que até a mais miserável das vidas familiares era melhor do que a paródia de incesto que, no fim de contas, era o melhor que podia oferecer à desamparada criança".

Trata-se de uma experiência, dado o tema em questão, fortíssima. Lo-li-ta. Sente-se de facto o sabor amargo da mais popular obra de Nabokov, lançada em 1955 para escândalo do mundo inteiro, no palato.

Uma vez lida, jamais a esqueceremos.

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17 comentários

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De am a 10.10.2016 às 11:12

Um PEDÒFOLO assumido só merece uma referencia e um titulo --- "Linchado na praça pública"!
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De Anónimo a 10.10.2016 às 14:50

Este comentário é de quem não sabe o que é um pedófilo.
Quanto ao linchamento, prefiro não comentar (são séculos de civilização que vão ao ar).
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De am a 10.10.2016 às 16:12

Caro Anónimo

... Sei muito bem o que é pedófilo. Não me escondo no anonimato´!

Quanto ao linchamento: Se a vitima fosse sua filha ou neta... estava-se (estava-me) borrifando para a civilização. É o crime mais horrendo da dita cuja!

Artur Mendes
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De Anónimo a 10.10.2016 às 18:22

Acredito piamente que se esteja borrifando para a civilização. Nota-se.
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De Anónimo a 10.10.2016 às 18:23

Anonimato. Acha que eu me ia identificar perante quem se borrifa para a civilização? Não sou suicida.
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De Bandeira a 10.10.2016 às 16:27

Um início difícil de superar, Teresa, tão bem escolhido. Gosto muito de tudo o que li de Nabokov, à excepção das memórias, que achei de um pedantismo insuportável - mas isso é provavelmente preconceito meu. ;) Belo texto. Z
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De Teresa Ribeiro a 10.10.2016 às 19:19

Obrigada, Zé. Prezo muito os elogios de gente talentosa como tu :)
Não li mais nada de Nabokov (shame on me!). Ainda não se proporcionou, mas tenho de tratar disso o quanto antes.
Abraço apertado pela tua mãe (sei bem o que estás a passar) e um grande beijinho pelo teu neto (isso é que ainda não sei como é :)) )
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De Bandeira a 11.10.2016 às 12:17

Obrigado pelo abraço, Teresa. A parte do neto é, de facto, gira. :) Quanto ao talento, dás-me mais crédito do que aquele que eu mereço ;) Um beijo
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De Teresa Ribeiro a 11.10.2016 às 13:23

Deixa-te de tretas. Aquela tua série de crónicas à volta da taberna do Dafundo, publicada no Delito não me deixa mentir. A propósito, já me apetecia uma segunda temporada... que tal?
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De Bandeira a 12.10.2016 às 17:40

O rumo dos acontecimentos só dá para um epílogo, mas tão grande que terá de ser publicado em partes. É triste (mete até morte de homem) e definitivo e sempre planeei escrevê-lo. Nunca me passou pela cabeça, mas no fundo os textos e as centenas de fotos que tirei documentam o processo de gentrificação do Dafundo, que terminará talvez quando na praia (que já foi muito convenientemente desclassificada para "areal", assim como a da Cruz Quebrada) construírem mais uma marina, processo que aparentemente só foi adiado porque a crise o não permitia. Parte das pessoas que conheci e fotografei, vítimas do desemprego e de tudo o mais, tiveram de se mudar para as zonas mais acessíveis do concelho de Sintra. Outra parte continua a viver debaixo da ponte. E a mais vulnerável -- os mais velhos -- já não sai sequer de casa, uma vez que o café do Euclides fechou por imposição da herdeira do proprietário (no uso do seu legítimo direito) e os outros lugares são ou demasiado longe, ou inadequados a jogos de damas e dominó -- para além de que o consumo é obrigatório.
De bom fica um projecto fotográfico que realizei com eles e que os envolve com os clássicos e com a Ilíada em particular, por estranho que isso possa parecer - se te interessar, tens aqui info: http://blogpt.josebandeira.com/2014/09/que-tal-um-saltinho-ao-algarve.html
A Bloomsbury está a editar um livro com o conteúdo do congresso e vai ter uma das minhas fotos na capa, além de um artigo (e mais fotos) sobre a exposição no interior. Isso deixa-me, naturalmente, vaidoso e muito contente. Estamos a planear trazê-la a Lisboa, eu depois aviso.
Abraço
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De Teresa Ribeiro a 13.10.2016 às 13:00

Tem um epílogo triste, a história da tasca do Euclides, em contrapartida deu belos frutos :)
Cruzar a Ilíada com a paisagem do Dafundo? Mas que ideia extraordinária! Fachavor de trazer essa exposição para cá.
Bjs
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De José António Abreu a 10.10.2016 às 21:21

Yep, grande início de livro e grande texto sobre o livro, Teresa.

O Nabokov é um autor complicado. Mantém quase sempre uma ironia sobranceira que se ama ou se detesta. Se quiseres arriscar outro, experimenta talvez o Pnin, que é pequenino, divertido e triste ao mesmo tempo, e um bocadinho cáustico em relação ao relação ao ambiente académico. Ou então atira-te ao Pale Fire, que é um tour de force de análise irónica dos sentidos ocultos da própria literatura mas que eu achei um desafio, confesso. A Teorema lançou há poucos anos Desespero, que também é uma boa hipótese. Acaba por ser quase um policial, visto pelo lado do criminoso, um tipo convencido e insolente, que se acha acima da lei (uma espécie de Raskolnikov - do Crime e Castigo - mais velho e incapaz de sentir remorsos).
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De Teresa Ribeiro a 11.10.2016 às 10:56

Obrigada, Jaa. Tomei nota de todas as tuas sugestões. Já tinha Desespero em mente, por isso devo começar por aí.
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De José António Abreu a 11.10.2016 às 11:12

Preferes seguir a opinião do Martin Amis, portanto...

"and here I mention only those books that mean most to this writer/reader – Lolita, very closely followed by Despair, King Queen Knave, Pnin, Laughter in the Dark, Pale Fire, Transparent Things, The Eye, Nabokov's Dozen, Speak Memory."
http://www.martinamisweb.com/pre_2006/amisnabokov.htm

Enfim, como li menos livros do Nabokov que o Amis, vou tentar não ficar chateado. :)
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De Teresa Ribeiro a 11.10.2016 às 11:37

Não podes permitir isso ao Amis, Jaa. Atira-te ao Nabokov ainda desconhecido que espera por ti!
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De Pedro Correia a 10.10.2016 às 21:34

Gostei muito desta tua introdução ao grande romance de Nabokov, Teresa. Bem podia ser reproduzida, pelo menos em parte, na badana de uma futura reedição da obra.
O livro é de uma impressionante intensidade dramática. E ao mesmo tempo também uma sátira - amarga e melancólica - sobre o culto do dinheiro e o culto do sucesso, os bois-ápis da sociedade norte-americana do pós-guerra.
É também um romance enorme ao nível da qualidade de escrita, sem nunca cair na vulgaridade e muito menos na grosseria. Nabokov trabalha-a com requinte de ourives a produzir filigrana. Que outro nome lhe haveremos de dar senão obra-prima?
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De Teresa Ribeiro a 11.10.2016 às 11:26

Lolita está, de facto, muito bem escrito. Nabokov não se furtou às mais duras provas. Quando arrisca descrever cenas íntimas está a pisar um campo minado. E consegue fazê-lo sempre com uma elegância extraordinária.
Obrigada pelas tuas palavras, Pedro.

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