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Divagações de praia

por Teresa Ribeiro, em 08.08.15

passos-na-areia-[1].jpg

 

Na infância o tempo, se formos a ver, é bem preenchido. Há muitas coisas, todas novas ou pelo menos não suficientemente velhas, que nos distraiem. Quando somos pequenos o vagar sente-se, mas não incomoda, ao passo que na adolescência, se os planetas não se alinham segundo as nossas expectativas pode ser uma tragédia quando sobra demasiado tempo para pensar.

Desperdicei-o tanto na adolescência. Eu agora tão ciosa dele e nessa época como eu o esbanjava, a sonhar acordada. Mão na mão de artistas de cinema, a treinar beijos fogosos na curva dos cotovelos, a esconder-me do mundo, amuada, quando um amor não me correspondia. Ao contrário dos dias intermináveis da infância, passados serenamente num andar de Lisboa sem vista para o Tejo, os da adolescência consumiam-me de impaciência. Queria tanto e tudo e tão depressa, que era um sofrimento ter de esperar daquela maneira pela vida.

Passei metade da adolescência nos cafés a armar, de SG Filtro nos dedos e bica escaldada  na mesa, a antecipar cenas de filmes que não vinham. Sitiada por miúdos borbulhentos que ainda se entretinham a fazer concursos de arrotos, ou gente demasiado adulta para me compreender, fui a princesa da torre, desdenhosa e chata - uma "desinfeliz", como dizia a minha mãe, só para me arreliar - até ao dia em que finalmente percebi que o tempo era um bem escasso.

Foi então que decidi. Da janela deitei a longa trança que entretecera durante esses anos perdidos de tertúlias parvas, planos fugazes, consumições gratuitas e foi por ela mesmo que desci. Descobri pouco depois que, não sendo uma estrada de tijolo amarelo, a realidade tinha a grande virtude de poder ser vivida e que afinal melhor que beijar Warren Beatty ou o não menos distante galã do meu bairro, era trocar de pastilha elástica com o Chico. Mas só eu sei o que andei para aí chegar!

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6 comentários

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De José Vieira a 08.08.2015 às 13:08

Não sejas mazinha, não vale apena…
Viver é viver, independentemente de tudo o resto, a principal diferença é que no passado, ainda que o não soubesses, tinhas quem te resolvesse os principais problemas da vida, os que te apoiavam e aturavam o diletantismo, os que te pagavam os tempos da dolce vita, o maço de SG filtro e a bica escaldada, os sonhos mágicos da sala de cinema, sonhos que adoravas e vivias durante uma hora e tal, até regressares ao rame-rame e vil tristeza. Os que te amavam como podiam e sabiam, á sua maneira, os que te davam o que querias sem contrapartidas, os que realmente queriam apenas o teu bem, a tua felicidade sem pedir nada em troca, enquanto eles se preocupavam com a realidade e o seu mau aspeto.
Todos gostamos a dado momento de ser heterónimos ou super-heróis e voltar para casa, para a nossa caminha, quando o momento acaba. Talvez por isso o happy end se tenha convertido numa invenção tão querida do cinema Americano, como contraponto à tragédia Grega…
Para quê ser velho precocemente? Adianta alguma coisa?
O tempo não para e o nosso também não, as mudanças do e no Mundo, são também as nossas, o diletantismo e as necessidades bacocas de curto prazo, foram com a idade substituídas pela vida real do longo prazo, os sonhos e os heterónimos transformaram-se na porca realidade e a dolce vita, já não nos preenche e pertence agora a outros mais novos que nos são queridos e a quem as realidades porcas da vida, nos compete agora suprir e esconder.
É a vida amiga, a vida…. É agora a nossa, como já foi a de todos os que nos antecederam e será a de todos os que virão a seguir a nós.
É tudo aquilo que nos faz tão parecidos apesar de tão diferentes, é algo que alguns batizaram como sabedoria e outros apenas como velhice…
Portanto o meu conselho para ti é, aprecia o momento como sendo a sabedoria da velhice, aproveita e absorve o que gostas, atura calmamente o inevitável e despreza o que odeias, esta vida é infelizmente demasiado curta para infelicidades desnecessárias.
E Vive, tudo o que puderes, não há 2ªs oportunidades e dura pouco, muito pouco!
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De Cristina Torrão a 10.08.2015 às 18:44

«os que te davam o que querias sem contrapartidas, os que realmente queriam apenas o teu bem, a tua felicidade sem pedir nada em troca, enquanto eles se preocupavam com a realidade e o seu mau aspeto» - vamos com calma! Sustentar e proteger, «sem contrapartidas» e «sem pedir nada em troca», não é assim tão fácil. Há menos gente capaz disso do que o que se pensa.
Além disso, esconder a realidade e o seu mau aspeto nem sempre é a melhor solução.
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De Teresa Ribeiro a 08.08.2015 às 15:00

Sim, era uma menina mimada. E ainda bem. Lembrei-me daquele fado: "É tão bom ser pequenino, ter pai, ter mãe, ter avós/ter esperança no destino e ter quem goste de nós"
O problema é que à esperança associamos nos verdes anos a pressa. E a pressa não nos deixa saborear esses tempos como devíamos.
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De Teresa Ribeiro a 08.08.2015 às 15:03

P.S. Quanto à sabedoria "da velhice" fala por ti. Velhice, uma ova
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De Luís Lopes a 09.08.2015 às 15:24

Boa resposta, só é velho quem se sente velho e nada do que vi indica que a Teresa é "velha"...
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De José Vieira a 11.08.2015 às 09:26

Pois, Pois...

Me chinga que eu gosto.

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