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Direito por linhas tortas

por Pedro Correia, em 15.06.14

 

“Os últimos serão os primeiros.” Quem não usou já esta expressão? O que poucos sabem é que se trata de uma frase bíblica – vem no Evangelho Segundo São Mateus (19-30) e no Evangelho Segundo São Lucas (10-31).

Inúmeras expressões que utilizamos neste quotidiano laico e secular, tal como a maioria dos nossos nomes próprios, têm a sua origem no livro sagrado do cristianismo. Expressões tão vulgares e tão diversas como “a carne é fraca” (São Mateus, 26-41, e São Lucas, 14-38), “ninguém é profeta na sua terra” (Evangelho Segundo São João, 4-44), “lançar pérolas a porcos” (São Mateus, 7-6), “nem só de pão vive o homem” (Deuteronómio, 8-3, e São Mateus, 4-4), “quem semeia ventos colhe tempestades” (Oseias, 8-7), “meter foice em seara alheia” (Deuteronómio, 23-26), “dois pesos e duas medidas” (Provérbios, 20-10), “separar o trigo do joio” (São Mateus, 13-30) e “olho por olho, dente por dente” (Êxodo, 21-24, Deuteronómio, 19-21).

 

De facto, a nossa linguagem comum está cheia de expressões colhidas na Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento, o que se confirma também nestes exemplos, que estão muito longe de ser exaustivos: “bode expiatório” (Levítico, 9-15), “dia da ira (Sofonias, 1-13), “choro e ranger de dentes” (São Mateus, 8-12, 13-42, 22-13, 24-51), “pedra sobre pedra” (São Lucas, 13-2), “voz no deserto” (São João, 1-23). Ou ainda as designações “sal da terra” e “luz do mundo”, popularizadas no Sermão da Montanha e que originaram, respectivamente, o título de um célebre filme de Herbert Biberman e um dos melhores contos de Ernest Hemingway.

E quem não conhece as expressões “crescei e multiplicai-vos” (Génesis, 1-22 e 1-28), “nada há de novo debaixo do sol” (Livro do Eclesiastes, 1-9), “lobos disfarçados de cordeiros” (São Mateus, 7-15) ou “lavar as mãos como Pilatos” (São Mateus, 27-24)? Ou adágios tão conhecidos como “ninguém pode servir a dois senhores” (São Mateus, 6-24), “pelos frutos se conhece a árvore” (São Mateus, 7-20 e 12-33), “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (São Mateus, 22-21, Evangelho Segundo São Marcos, 12-17 e São Lucas, 22-21) e “quem estiver sem pecado que atire a primeira pedra” (São João, 8-7)?

 

A Bíblia é ainda um riquíssimo viveiro de aforismos que nada têm a ver com o “manual de maus costumes” de que falou José Saramago para promover o seu romance Caim. Aqui ficam alguns: “A maldade é a mãe da fome” (Tobias, 4-13), “a sabedoria vale mais que as pérolas” (Livro de Job, 28-18), “quem ama a violência odeia-se a si mesmo” (Os Salmos, 11-5) ou “o que perturba a sua casa herdará ventos” (Provérbios, 11-29). Este deu origem ao título de uma excelente longa-metragem de Stanley Kramer, protagonizada por Spencer Tracy.

Na verdade, não é possível compreendermos grande parte do último milénio da arte ocidental, nas suas mais diversas expressões, sem conhecermos a Bíblia. Isto inclui os próprios livros de Saramago, como O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

Afinal “Deus escreve direito por linhas tortas” (Génesis, 50-14).

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18 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 15.06.2014 às 15:09

Tem toda a razão. A Bíblia é uma fonte de inesgostável conhecimento em citações , aforismos, matáforas, hipérboles, parábolas e até paradoxos.
Tantos são os que citam diariamente a Bíblia, sem que de tal tenham sequer ideia.
Li a Bíblia, porque tínhamos que ler a Bíblia... Como li os Lusíadas e os Maias, porque era obrigatório.
Reli e releio a Bíblia ( como o fiz também com os outros dois livros) não em busca de respostas, porque quem crê numa compilação que se convencionou ser divina após o Concílio de Niceia, não pode tomar a sério o livro como fundamento da fé numa religião. Cresci católica muito praticante. Acordei. Agora sou só a Dulce que acredita.
Aconselho vivamente a leitura da Bíblia pelo enriquecimento histórico- cultural, um manancial de exemplos das mais belas figuras de estilo.
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De Helena Sacadura Cabral a 15.06.2014 às 18:02

É capaz de ser bastante mais autêntica e perto d'Ele a Dulce que acredita!
Eu fiz o caminho inverso, baptisei-me aos 19 anos e tenho alguns sadios conflitos com a Igreja feita por homens. Mas estou cada vez mais perto do essencial!
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De Maria Dulce Fernandes a 15.06.2014 às 19:53

Foi na verdade a intransigência e o fanatismo dos homens que me afastou da religião, mas sou fascinada pelos mistérios da criação e por tal acreditarei sempre.
Beijinho.
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De Luís Lavoura a 15.06.2014 às 15:33

a maioria dos nossos nomes próprios, têm a sua origem no livro sagrado do cristianismo

Não estou bem certo disso. Em Portugal e Espanha grande parte dos nomes próprios são de origem germânica, vêem dos godos que ocuparam a Península. Nomes como Rodrigo, Fernando, Adelaide, etc são germânicos.
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De Pedro Correia a 16.06.2014 às 07:29

Revisitando a lista dos vinte nomes masculinos de momento mais usados em Portugal verifico que pelo menos nove (João, Tomás, Miguel, Tiago, Pedro, Gabriel, Rafael, David e Lucas) têm origem bíblica.
João, nome de evangelista e apóstolo, é o mais popular entre nós, ainda hoje.
Maria, nome da mãe de Jesus, foi - de longe - o mais registado em Portugal no ano passado.
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De Luís Lavoura a 16.06.2014 às 09:28

Certo. Mas no seu post Você escreveu "a maioria dos nomes próprios" e não "os nomes próprios mais usados".
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De Helena Sacadura Cabral a 15.06.2014 às 17:58

Pedro este teu post é notável!
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De Pedro Correia a 15.06.2014 às 22:03

Muito obrigado pelas tuas palavras, Helena - generosas como sempre.
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De Carlos Cunha a 15.06.2014 às 22:23

deus escreve direito por linhas tortas, mas não será em génesis 50-14. aí, josé voltou para o egipto, após sepultar o pai, para passar uns dias em sharm-al-sheik e fazer mergulho.

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De Pedro Correia a 15.06.2014 às 23:05

Se fosse hoje José seria bem capaz de não voltar ao Egipto mesmo com a promessa de sessões de mergulho no Mar Vermelho, Carlos. Mas a expressão lá está, no capítulo 50, versículo 14. Tão actual hoje como nessa época.
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De Carlos Cunha a 16.06.2014 às 11:34

tenho que atirar fora a bíblia que tenho em casa...nesta deus não escreve direito por linhas tortas em nenhum capítulo ou versículo do génesis.

nesta também não:
http://www.bibliaon.com/genesis_50/

mas também concordo que se não está, devia.

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De Pedro Correia a 16.06.2014 às 12:34

«Se posso contar com a bondade de vocês, falem com o faraó em meu favor.»
Hum, Carlos... Basta reproduzir este trecho de diálogo do capítulo 50, digno de telenovela brasileira, para acolher essa tradução com as necessárias reservas.
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De Carlos Cunha a 16.06.2014 às 20:35

outras traduções, o mesmo sentido em genesis 50-14:

http://www.kingjamesbibleonline.org/Genesis-Chapter-50/

http://www.paroquias.org/biblia/index.php?c=Gn+50

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De Pedro Correia a 17.06.2014 às 10:42

Admiro a sua persistência, Carlos, mas a fonte das diversas versões digitais costuma ser a mesma: nada nos garante a transcrição integral. Acabo mesmo de detectar a supressão de linhas inteiras numa das ligações que mencionou.
Nestas coisas sou muito conservador: nada como ter a versão autêntica, em livro. Há que separar o trigo do joio.
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De Carlos Cunha a 17.06.2014 às 22:20

vá lá, diga lá em que bíblia em que aparece em génesis 50-14 a tal citação no seu post citada. vai direitinha para o guinésse.
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De Carlos Cunha a 18.06.2014 às 09:04

até o vaticano se conerteu se converteu à divulgação digital da palavra do senhor.
http://www.vatican.va/archive/ITA0001/_INDEX.HTM
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De cristof a 16.06.2014 às 04:58

não querendo polemizar chamo a atenção que o que vem no novo e velho testamento se encontar nos escritos gregos de cerca de mil a dois mil anos antes. Para quem não quer ter apenas a visão "colorida" do conhecimento importa não romancear a informação séria. A da seita e credo tem todo o direito a "pintar" das cores do coração.
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De Pedro Correia a 16.06.2014 às 06:56

Julgo não ter entendido o seu ponto de vista, caro leitor. O que "encontra" nos escritos gregos a anteceder e secundarizar a Bíblia, que funda a civilização do Livro? Um deus monoteísta a comandar os destinos do mundo? O mandamento "não matarás"? Cristo crucificado? Pilatos a lavar as mãos? "Amarás ao próximo como a ti mesmo" (Mateus, 22)?
Em que obras concretas de autores gregos encontra expressões de uso corrente entre nós por vinculação bíblica como "lançar pérolas a porcos", "quem estiver sem pecado que atire a primeira pedra" e "a César o que é de César e a Deus o que é de Deus"?

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