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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 04.06.17

Historia-de-Portugal-Livro-5-Os-Filipes[1].jpg

 

Livro quatro: Os Filipes, de António Borges Coelho

Edição Caminho, 2015

295 páginas

 

É talvez o período menos conhecido da História de Portugal. Um período que parece relegado pelo nosso inconsciente colectivo para as brumas da memória. E no entanto os sinais desagregadores dos conceitos de pátria e nação neste mundo globalizado deviam levar-nos a analisar com muita atenção estas seis décadas em que, devido a uma gravíssima crise dinástica, estivemos submetidos ao jugo de Castela. Numa relação desigual desde logo em termos demográficos: os castelhanos eram então 6,6 milhões, enquanto os portugueses residentes no rectângulo europeu não excediam 1,5 milhões.

Seis décadas (1580-1640) em que se sucederam no trono de Portugal três reis espanhóis, que em tese garantiam a independência do nosso reino, em regime de união dinástica sob o mando dos titulares da coroa imperial espanhola, que foram asfixiando em grau crescente as nossas liberdades.

António Borges Coelho desvenda-nos o essencial da dinastia filipina num livro que merece elogios a vários níveis: pelo rigor, pelo olhar abrangente e despido de preconceitos. E também pela sua inegável qualidade literária. Os Filipes – quinto volume da História de Portugal, que tem sido editada em segmentos pela Caminho – pode ler-se perfeitamente como obra autónoma.

Foram três reis muito diferentes. Filipe II (o I de Portugal) era neto de D. Manuel I e fez-se valer de poderosos argumentos jurídicos para conquistar a coroa lusitana. Este monarca a quem chamaram Prudente falava fluentemente o nosso idioma e tinha genuíno apego à terra de sua mãe, a infanta D. Isabel. Entre 1581 e 1583 permaneceu 20 meses em Lisboa, fugazmente transformada em capital da Ibéria. “A princípio guardou, no essencial, as leis e privilégios do reino de Portugal e procurou arredar a ‘melancolia’ dos portugueses que preferiam o rei Prior do Crato”, observa o historiador.

Bem diferentes foram os sucessores. Filipe III (II de Portugal) esteve mais de vinte anos sem pisar solo português. Entronizado em 1598, só aqui se dignou vir em 1619: demorou-se quatro meses, quase sem contactar o povo, e regressou de vez a Madrid. O terceiro Filipe (quarto rei com este nome em Espanha) nunca se dignou fazer aclamar em Lisboa ou aqui prestar juramento destinado a “guardar os privilégios do reino”.

Os atentados contínuos à nossa soberania, os impostos cada vez mais pesados, as violações impunes dos nossos territórios coloniais e a mobilização forçada de mancebos portugueses para as guerras europeias de Castela fizeram esgotar a paciência nacional. O golpe dos conjurados no 1.º de Dezembro pôs fim ao domínio castelhano, "reinventando a monarquia portuguesa" e devolvendo-nos a soberania que começara a afogar-se nos areais de Alcácer Quibir.

Fica-nos o aviso: a História pode sempre repetir-se. Até por isso este livro merece leitura atenta.

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14 comentários

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De tric.Lebanon a 04.06.2017 às 12:01

Passos Coelho é "Filipe"...quem lucrou mais com a destruição do BES foram os Filipes...
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De Pedro Correia a 05.06.2017 às 22:34

Passos Coelho é Pedro.
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De José Alves a 04.06.2017 às 16:51

Se calhar o grande erro foi em 1640. Podíamos gozar hoje de larga autonomia e ter outro peso político na Europa.
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De Pedro Correia a 05.06.2017 às 22:34

Pergunte aos catalães. E aos bascos.
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De sampy a 05.06.2017 às 14:35

Parto do pressuposto de que um comentário meu foi censurado.
Novamente.
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De Anónimo a 05.06.2017 às 20:11

Nova tentativa:

"pelo rigor, pelo olhar abrangente e despido de preconceitos".
Isto, a propósito de um cultor da historiografia marxista.
Valha-nos são Lenine.
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De Pedro Correia a 05.06.2017 às 22:33

Hoje, neste blogue, parece o Dia do São Anónimo. O camarada Lenine não haveria de gostar.
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De Pedro Correia a 05.06.2017 às 22:35

Parte de um pressuposto errado. Como se não conhecesse este blogue, onde é um dos comentadores mais prolixos.
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De sampy a 05.06.2017 às 23:03

O que sei é que alguns comentários meus não têm surgido publicados.
Estou a tentar encontrar explicação para o fenómeno.

Já agora, quer o Pedro Correia fazer o favor de esclarecer a quem cabe a responsabilidade da moderação dos comentários em se tratando de textos de convidados?
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De Pedro Correia a 07.06.2017 às 00:11

Está tão interessado em conhecer os mecanismos internos de funcionamento deste blogue porquê? Quer integrar o elenco de autores do DELITO?
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De sampy a 07.06.2017 às 10:36

É relativamente simples: se fui alvo de censura (num caso concreto ao comentar o texto de um convidado), gostaria de evitar a injustiça de atribuir o acto a quem não teve responsabilidade por ele.
Como os textos dos convidados estão a ser publicados através da conta do Pedro Correia, certamente estará em posição de elucidar sobre a questão colocada acima.
Mas se o assunto envolver segredo de Estado, transferências para offshores ou contactos com a Rússia, o melhor é deixar para outro dia.
Não, nâo aspiro a integrar o elenco de autores do DELITO. Basta que me permitam ser comentador, mesmo usando um nickname. A minha contribuição passa por aí, valendo o que vale.
Por respeito ao blogue, e em abono da verdade, muitas das minhas intervenções têm sido no sentido de assinalar gralhas, erros, incorrecções, e um ou outro abuso ou manipulação de factos. O tom não costuma o mais cortez; mas acredito que o conteúdo supera a forma (ou assim deve ser visto). Quando for eu a enganar-me, espero continuar a reconhecê-lo sem levar a mal que mo apontem. Nas questões cinzentas, que cada um guarde a sua opinião ou visão, se não encontrar convincentes os argumentos do outro. Mantenho, todavia, que o exercício da estupidez não é um direito.
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De Pedro Correia a 07.06.2017 às 10:57

Quase nada do que refere está em causa. Aliás eu próprio já lhe tenho agradecido diversas vezes os seus reparos, visando erros ou lapsos provocados por desconhecimento, mera distracção ou humaníssimo cansaço.
Tudo quanto sejam contributos para melhorar a qualidade deste blogue são sempre bem-vindos, sejam ou não em tom cortez.

Quanto aos nossos convidados - precisamente por o serem, e vários dos quais nem terem caixas de comentários abertas nos respectivos blogues, como é do seu pleníssimo direito - aí sim, impõem-se elementares regras de cortesia, ajuizadas em função de cada caso.
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De sampy a 07.06.2017 às 12:38

Mas é pena que uma incorrecção persista e fique associada de forma permanente ao blogue, aparentemente porque ninguém terá dado conta mas na prática porque alguém decidiu rejeitar a chamada de atenção feita.
O estatuto de convidado não deveria implicar uma maior tolerância perante a falta de rigor.
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De sampy a 07.06.2017 às 12:25

Errata: cortês

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