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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 03.06.17

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Livro três: A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade

Edição Companhia das Letras, 2017

248 páginas

 

É um dos mais marcantes livros da poesia de língua portuguesa do século XX. Fruto de várias encruzilhadas – na história humana, na vida do Brasil, no percurso literário do próprio autor. A Rosa do Povo traz preocupações sociais e até políticas para o modernismo poético, tingindo-o de uma linguagem coloquial irmanada ao discurso do homem da rua.

O Brasil vivia em ditadura e o mundo atravessava a mais devastadora das guerras quando Carlos Drummond de Andrade publicou esta obra que reúne 55 poemas – escritos entre 1943 e 1945, quase todos em verso livre, sem preocupações de rima ou de métrica, mesclando escrita erudita com vocabulário comum. Uma mescla simbolizada no próprio título: se a rosa convoca o classicismo romântico, o povo alarga os horizontes espaciais e temporais do poeta, situando-o como cidadão do mundo.

Este foi, durante anos, o título de referência máxima na produção poética de Drummond (1902-87), figura ímpar da lírica de expressão lusíada, além de contista e cronista, célebre pelos seus aforismos nunca destituídos de um singular veio irónico e de um olhar compadecido perante as singularidades da natureza humana.

A Companhia das Letras – prestigiada chancela brasileira agora também com sede em Portugal – relançou A Rosa do Povo (1945) numa edição de irrepreensível bom gosto, que honra o espírito desse esteta que Drummond nunca deixou de ser.

É a ocasião propícia para recuperarmos o contacto com o autor mineiro, carioca por adopção, lusófono de raiz e cultura. No seu poema Visão 944, marcado pela dilacerante angústia desse habitante de um planeta em guerra: “Meus olhos são pequenos para ver / a massa de silêncio concentrada / sobre estes campos e estes oceanos / que esperam a passagem dos soldados.” Ou na carta redigida em verso, sob o signo da urgência, aos sitiados de Estalinegrado: “As pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta, / aprendem contigo o gesto do fogo.”

Porque nada do que está no mundo é alheio à sensibilidade poética. Como nos ensinou António Gedeão, aliás contemporâneo de Drummond, “todo o tempo é de poesia / desde a névoa da manhã / à nevoa do outro dia.”

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4 comentários

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De Anónimo a 03.06.2017 às 10:19

Visão 1944
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De Anónimo a 03.06.2017 às 21:20

Pensei que estávamos a falar da "edição de irrepreensível bom gosto, que honra o espírito desse esteta que Drummond nunca deixou de ser". Erro meu.

A alteração do título aparece já em 1955. Mas longe de nós considerar que a correcção feita pelo próprio poeta ou com a sua aprovação merece qualquer crédito...
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De Pedro Correia a 03.06.2017 às 22:49

Cuide desse fígado com urgência. Não me parece nada em bom estado.

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