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Deus feito homem da gruta à cruz

por Pedro Correia, em 14.04.17

Gauguin_Il_Cristo_giallo[1].jpg

 O Cristo Amarelo, de Paul Gauguin (1889)

 

«Jesus chorou.»

João, 11-35 (o versículo mais curto da Bíblia)

 

A mensagem arrebatadora do Evangelho - e aquela que resume toda a essência do cristianismo - é a de um Deus que assume a plenitude da condição humana. Com os seus luminosos momentos de alegria, os seus lampejos de júbilo, as suas inevitáveis dores, a sua irrenunciável agonia. Como se a missão do criador ficasse incompleta sem esta experiência radical de abraçar por inteiro o ser débil, indeciso e angustiado que o barro divino moldou.

Até ao fim dos séculos, Jesus será inseparável da circunstância deste percurso terreno em que voluntariamente se irmana ao mais comum dos homens. Nasce pobre, numa gruta. Enaltece os humildes. Elege simples trabalhadores como discípulos. Rejeita sem vacilar o ilusório fulgor dos bens materiais. Perdoa os pecadores: «Eu não vim para condenar o mundo, mas para o salvar.» (João, 12-47). Enfrenta os fariseus com palavras tão actuais na manhã de hoje como há dois mil anos: «Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e de maldade.» (Lucas, 11-39). E não hesita em dar a mais humana das interpretações à pétrea Lei de Moisés: «O sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado.» (Marcos, 2-27).

Condenado sem apelo nem recurso, renegado pelos seus, vilipendiado pela multidão que aclama Barrabás, confrontado perante a prepotência de Caifás e a cobardia moral de Pilatos, crucificado entre dois salteadores como um delinquente pelo crime de blasfémia. Deus feito homem num mundo de homens que sonham ser deuses.

Pouco antes confessara aos discípulos em Getsemani que sentia «uma tristeza de morte». E ali mesmo implora numa prece que poderia brotar da voz interior de qualquer de nós: «Pai, tudo Te é possível, afasta de Mim este cálice!» (Marcos, 14-36).

Um cálice que, no entanto, beberá até ao fim. Imerso na condição humana da gruta à cruz.

 

Texto reeditado

 

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3 comentários

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De Einzturzende nebauten a 14.04.2017 às 08:10

O Reino de Deus está dentro de nós. Acessível e não distante, não dependente de nenhuma intermediação. Mas o mundo de hoje previligia características não cristãs, como refere o texto, mas sim satânicas - o orgulho arrogante, a crueldade egoísta, a imoralidade do desmesurado; a ambição fútil. É é neste sentido que alguns perguntam, que não marxistas : será o capitalismo moral? Cristo defendia a vida em comunidade , a frugalidade, o despojamento- " quem quer conservar a vida, perde-la-á". Todos sabemos, mas fingimos esquece-lo. Já dizia Shakespeare que através de roupas vistosas e exteriores piedosos até o diabo conseguímos esconder.
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De Helena Sacadura Cabral a 15.04.2017 às 00:52

Meu caro Pedro
Palavras sábias, as tuas. Reeditadas, ganham cada vez mais importância.
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De maria Dulce Fernandes a 15.04.2017 às 17:55

Excelente texto , Pedro.
Jesus foi um pensador séculos e séculos muito à frente do seu tempo. E foi morto por isso, porque o homem destrói o que não entende, porque o atemoriza.
Numa altura é que religião era medo, "Mas eu digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem...(M5:44)" não era mensagem aceitável para os homens de poder. Nunca foi. Continua a não ser.
Que Deus nos guie. A eles também.
Boa Páscoa.

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