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Demagogos e populistas

por Luís Naves, em 13.12.16

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A ascensão dos populismos escapou a muitos autores e, pelo menos aqui na parvónia, surgem agora opiniões que demonstram perplexidade em relação às recentes votações no Reino Unido, EUA, Itália ou Áustria, como se a demagogia fosse um fenómeno desconhecido ou inédito nos países democráticos. Daí a importância deste texto de Rui Ramos, que tenta ir um pouco mais fundo na análise das mudanças em curso.

Não correram no passado rios de tinta sobre a fraqueza das direcções políticas? Hoje, na opinião publicada, é mais comum encontrarmos o horror aos homens-fortes e a tese da estupidez do eleitor contemporâneo, formas úteis de evitar debater o fenómeno da rebelião eleitoral e de impedir a crítica aos poderes instalados. As elites fracas, que falharam em tudo na última década, querem agora convencer-nos de que devem ser elas a conduzir o processo de renovação? Os comentadores acham que não é preciso mudar nada, mas como era possível que a grande crise não desse origem a uma transformação na política?

Muitos eleitores sentem que perderam o controlo sobre as suas vidas. Já não existe segurança no emprego e as novas gerações vivem pior do que as anteriores: pagam mais impostos, têm menos direitos, pensões em dúvida, rendas altas, precariedade. Os países estão endividados e as economias crescem a passo de tartaruga. Ocorre igualmente uma desindustrialização generalizada e os países de dimensão média tornaram-se irrelevantes. A isto acresce a ansiedade tecnológica, já que a nova economia é apenas para alguns felizardos.

Nas votações onde houve revolta eleitoral os analistas notaram o seguinte padrão: os populistas tinham proporção elevada do eleitorado branco, masculino e de baixas qualificações. Nunca vi isto escrito de outra forma, mas a definição ‘branco de baixas qualificações’ lembra um eufemismo para ‘classe operária’ e, sendo assim, mudaram as tradicionais clivagens entre esquerda e direita. Ao levar o debate político para temas de identidade e fragmentação social, a esquerda perdeu o seu bastião, que evidentemente já não será operário, mas precário, tentando desenrascar-se na adaptação a pequenos serviços e estando nas tintas para a rigidez sindical ou para a linguagem beata que domina os meios de comunicação. A traição dos partidos tradicionais também ocorreu à direita. Os conservadores abandonaram os seus temas favoritos, de pátria, ordem e soberania, a favor da promoção de uma globalização que trouxe benefícios para o capital e prejuízos para os trabalhadores. A extrema-direita apropriou-se dos temas conservadores e, pelo menos em França e Áustria, apropriou-se também do voto operário.

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15 comentários

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De Desconhecido Alfacinha a 13.12.2016 às 14:02

Excelente analise!
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De lucklucky a 13.12.2016 às 14:40

Modesto... Que outra coisa é o Regime do 25 de Abril que temos senão Populista?

Para começar a Constituição diz que várias coisas caras são "grátis".
E que os ricos pagam.

Como não chegou, o Regime endividou-se em 40 anos para os políticos do momento enganarem o "povo" com custos diferidos no tempo sobre o que custa cada política.
Lembram-se do IVA começou nos 15%?
O "povo" burro depois paga os juros que somam à dívida com cada conta de cada défice ao longo dos anos. Contavam que fossem os ricos ou os outros a pagar tudo? Hahaha. Ainda não aprenderam.

Enquanto o discurso mediático do jornalista varia entre o "vamos buscar o dinheiro onde ele está" e o ódio aos ricos quando estão à distância passando num ápice ao fascínio com os milionários e as famílias, o respeitinho com os DDT e o Ferraris do Ronaldo quando estão por perto.
Nisto odeiam os Paraísos Fiscais depois de todo o seu populismo ter colocado mais 60% do país a viver de uma minoria e criar um Inferno Fiscal.

O fim da privacidade seja bancária, seja outra, a transformação de vários departamentos do Regime do 25 de Abril para departamentos com poder de Autoridade e alguns mesmo com forças armadas próprias é o quê senão Populismo de ir encontrar dinheiro onde quer que esteja?

O Le Pen Tuga já tem a maior parte do trabalho feito pelos muy democratas, muy humanistas, muito cocktails Lisboetas que escrevem nos jornais e "opinam" nas TV's do Regime.
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De jeremias a 13.12.2016 às 15:50

"Contavam que fossem os ricos ou os outros a pagar tudo"

O Regime endividou-se porque a Burguesia neste país mamava/mama à mesa do Orçamento. O povo diverte-se com Futebol, Fátima e Fado. Temos os que merecemos, LuckLucky incluído, excepto se não for do povo, ou estrangeiro.
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De atento a 14.12.2016 às 22:51


in: Jeremias O Fora da Lei de Jorge Palma


... " Jeremias escolheu o seu lugar do lado de fora"



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De jeremias a 15.12.2016 às 10:16

É de onde se vê melhor. Do lado de fora.
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De WW a 13.12.2016 às 17:15

Quem é o Le Pen "tuga" ?
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De lucklucky a 14.12.2016 às 10:26

"Quem é o Le Pen "tuga" ?"

Vai aparecer. É possível até que já esteja no Governo ou a apoiar o Governo.
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De Conde de Tomar a 14.12.2016 às 13:41

E a Chave do Euromilhões?
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De Carlos Duarte a 13.12.2016 às 16:31

Eu sei que o exemplo não é aplicável na totalidade (ao contrário do que muitos apregroam), mas interessa-me mais a ideia que o "proletariado" de repente "virou populista".

Na década de 20-30 do século passado, na Alemanha de Weimar, a disputa do voto (em sentido muito lato, por vezes) operário acabou a ser feito entre comunistas/SPD (os primeiros de forma mais "miliante" ou "populista") e o NSDAP. Daí não é de admirar coisas como a FN em França ou o FPÖ na Áustria venham ao de cima.

A grande questão é que a esquerda "militante" já não é há muito a defensora do proletariado, mas antes a defensora do progressismo burguês. Fugiu dos campos e dos centros industriais e radicou-se nas grandes cidades, preocupada mais com o precário licenciado em humanidades do que que com a costureira com a 4ª classe.

Durante uns tempos isto não era problemático, porque traziam alguma reputação do passado e a alternativa à direita não se livrava da imagem (não completamente desmerecida) de partidos dos ricos. Mas quando começou, por questões de posicionamento, a ser antagónica aos interesses desse eleitorado (p.ex. ao ser a favor de emigração livre ou mesmo ao extremar em questões de moral social, até porque convém não esquecer que o "povo" costuma ser relativamente pouco dado a "progressivismos"), começou igualmente a perder eleitores. Com o esvaziamento do Centro (o centro-esquerda para os "progressistas", o centro-direita para a abstenção), o caldo ficou feito.
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De WW a 13.12.2016 às 17:21

Este post começa logo mal ao apelidar de parvónia uma Nação inteira, o Luís Naves ao generalizar dessa forma cai logo no erro que a seguir critica.
O Luis Naves e muitos outros ainda não compreenderam que a solução governativa adoptada em Portugal surge da compreensão (sobretudo pelo Partido Comunista) que os tempos estão diferentes, mais perigosos e que o fim da palhaçada da UE está próximo sendo urgente preparar a transição no tempo e no espaço.
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De Justiniano a 13.12.2016 às 17:56

Apenas para, pela milésima vez, e mais uma vez, o secundar, caríssimo Naves. Que a pena lhe não doa!
Um bem haja,
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De Anónimo a 13.12.2016 às 23:59

Muito bom.
"... As elites,fracas, que falharam em tudo na última década, querem agora convencer-nos de que devem ser elas a conduzir o processo de renovação...".
O processo de seleção das "elites" é uma anedota.
O que se poderá esperar ?.
O exemplo acabado é o inculto personagem, não eleito, que herdou, nada menos nada mais, a CM de Lisboa.

Consegue peroar, na TV, sobre os actuais refugiados / imigrantes, sem usar a palavra Islão. Na sua torre de marfim não encherga o que se passa na Holanda, UK, França ... por essa Europa toda.
Não alcança o caos que esta e as próximas gerações destes imiscíveis desgraçados será, para eles e para os, mal governados, nativos.

Por fim, cereja em cima do chantili, compara os retornados, portuguêses, católicos iminentemente miscíveis com a actual invasão islâmica, estrategicamente concebida e mobilizada.
"Nuts".
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De Buiça a 14.12.2016 às 02:46

Em vez de gastos chavões de esquerdas e direitas, parece-me que o principal problema, com ligeiras variações de país para país, é o poder, o Estado, estar absolutamente tomado, corrompido, podre. Sobretudo nas suas funções mais basilares de providenciar ordem e Justiça à sociedade.
Não são precisas habilitações literárias para o sentir. Com a proliferação actual de emissores de informação ou info-opinião de acesso universal, quem quiser saber mais do que sentir não tem muita dificuldade em descobrir em escatológico detalhe como a política "tradicional" deixou de fazer sentido, como os partidos se transformaram em máquinas de conquista do voto, prometendo o que for preciso, apresentando carinhas larocas embrulhadas em muito marketing, propondo para os cargos de maior responsabilidade sujeitos sem a mínima preparação, numa espiral de desmeritocracia assustadora, para uma vez eleitos tratarem primeiro do programa de quem os financiou até lá chegarem, depois do seu próprio bolso, enquanto constroem as famosas "narrativas" com que nos querem convencer de que é óptimo o que fazem ou a "única alternativa".
Paralelamente assistimos todos os dias a como a justiça não se aplica aos eleitos. E nem é preciso serem políticos eleitos. Ela também não se aplica aos eleitos de qualquer outra corporação desde que tenham atingido o nível mínimo capaz de obrigar o poder político a conceder-lhes imunidade judicial.
Perante a evidente selva em que vivemos será de estranhar que quem não tem o seu galho seguro à mesa dos impostos dos outros anseie por um pouco de ordem e justiça?
Sorte têm os que vivem em países onde ainda é possível aparecer alguém em quem se possa votar que prometa abanar o sistema (ou parte dele) de alto a baixo. Não é que em muitos casos (a avaliar pela qualidade e preparação dos que se apresentam) vá mudar alguma coisa para melhor em termos de ordem; mas para os milhões que diariamente assistem impotentes ao estado a que isto chegou, às tantas a simples "justiça popular" de ver novas moscas a pairar já chega como motivação para o chamado "fuck you vote".
Já nas repúblicas de bananas corruptas alguma mudança só é possível quando tudo falir redondo de uma vez, ou por imposição externa de algum colonizador implacável.
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De Vento a 14.12.2016 às 13:38

Confrontando sua reflexão e a de RR com a observação que também faço do mundo, verifico que na relação entre o populismo e o conservadorismo estes últimos não querem nada para além de estar. O conservadorismo entrou em estado vegetativo e tem dificuldade em perceber que foi o populismo que, graças à inépcia dos conservadores, conquistou as grandes mudanças na história, para o bem e para o mal.

Os conservadores dizem que o actual modelo nada pode garantir, mas, por inépcia e estado vegetativo, não o mudam, não o renovam; pretendem somente uma restauração. O sua obsessão é a da restauração, porque os horizontes de seu pensamento e memória situam-se num passado que também não compreendem estar morto. Tal como eles estão.

Afirmei aqui que o modelo implantado neste último ano em Portugal, que defendi mesmo antes de acontecer, seria uma referência para a Europa. É exactamente este modelo que prova que o crescimento é possível; e com este crescimento as instituições podem garantir o bem-estar das populações, a harmonia na relação com o trabalho e a contratação e prover as necessidades futuras. Ainda há um caminho a percorrer, mas este prova-se adequado.

Os conservadores, ao contrário, defendem que a miséria é o sustentáculo de seu próprio sistema. Em torno de um discurso de rigor nada científico, mas que dizem socorrer-se, isto é, da ciência, despoletaram a capacidade reactiva e criativa das gentes.
Permite-me isto concluir que os conservadores, por sua inépcia e condição vegetativa, fazem falta ao sistema. São eles os modelos necessários para que as sociedades não morram, isto é, para que estas reajam.
Por último, os conservadores disfarçam sua condição de mortos em torno da palavra classicismo, cujo conteúdo desconhecem. Portanto, a sua urna é uma espécie de classicismo que de todo em todo nunca pertenceram.

O Luís Naves, ainda que não se inclua nesta parte conservadora, em certa medida também não acredita na capacidade do Homem em inverter e até mesmo usar o ciclo que você mesmo aceita como uma fatalidade e fonte de calamidades. Em particular no que diz respeito ao ciclo do trabalho e das tecnologias.
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De Elias a 15.12.2016 às 10:18

Assino por baixo.

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