Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Delitos poéticos (10)

por Pedro Correia, em 10.07.14

 Os Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808 (Francisco de Goya)

 

CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Jorge de Sena

 

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse "com suma piedade e sem efusão de sangue."
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam "amanhã".
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Autoria e outros dados (tags, etc)


9 comentários

Sem imagem de perfil

De da Maia a 10.07.2014 às 01:51

Esse quadro de Goya é poderosíssimo.
Tem mais força que dezenas de fuzis.

O sentido para uma vida sofrida e torturada parece complicado de encontrar.
Porém, aqueles braços abertos em sinal de impotência dão-lhe sentido.
O sentido da vida está em assumir a total impotência.

Tudo o que procuramos fazer para evitar destinos funestos é sempre limitado, por maior que seja a potência.
A potência que temos, seja ela a de uma bomba nuclear, ou a de carregar num botão, não é algo que foi construído por nós. Foi-nos oferecido.

De nada vale construir bombas maiores, não podendo garantir, de nenhuma forma, que controlamos o processo que leva da nossa vontade ao carregar do botão.
Para dar o devido valor às coisas é preciso ver a frustração de alguém apanhado por uma trombose, que simplesmente não consegue fazer movimentos que antes dava como certos.

Ora, a única coisa que temos como certo é o nosso pensamento.
Aquilo que temos que aprender é a lidar com a total impotência.
A maior potência que existe é aceitar a impotência.

O que causa o medo não é a impotência, é a ilusão de que poderíamos ter maior potência.
Por isso, o medo foi sempre o grande alimento de ideias de maior potência, obviamente insaciáveis.
Quando percebemos da nossa total impotência, perdemos o medo... porque o podemos fazer é tentar. O conseguir está além do nosso controlo.

Na minha opinião, por estranha que pareça, apesar de toda a injustiça, há uma fácil forma de tornar o injusto justo.
Assim, se escrevesse esse novelo, no instante anterior à ordem de disparar, o mandante passava a ser o homem de camisa branca, e os soldados passavam a ser os outros, prontos a serem fuzilados. Será que o homem de camisa branca quereria matar o homem de camisa branca, que era o mandante da sua execução?
Se o homem de camisa branca disparasse, então seria morto por si próprio.

Por isso, não é nada claro que a injustiça que sofremos seja muito diferente daquela que somos capazes de infligir aos outros.

É aliás curioso que certos problemas entre pais e filhos venham justamente de feitios tão semelhantes... quase como se o próprio se confrontasse consigo numa deslocação temporal.

O problema está sempre no espelho... e parece difícil perceber que, nascidos noutras circunstâncias seríamos diferentes. É essa imagem ao espelho que tarda em reconciliar-se consigo.

Porque, o que é notável não é que nos desentendamos, sendo diferentes... o que é notável é que nos podemos entender sendo diferentes.
É isso que, contra todas as probabilidades, tem levado a humanidade a preservar esses valores comunitários, contra a lógica individualista da sobrevivência animal.
Sem imagem de perfil

De da Maia a 10.07.2014 às 02:36

Excelente, meu caro.
Não conhecia esse seu texto... é anterior às minhas visitas assíduas.
Tem toda a razão, o quadro inaugura a percepção do homem vulgar como vítima anónima.

Goya viu a Maia, pintou a nua e depois a vestida.
https://en.wikipedia.org/wiki/La_maja_desnuda#mediaviewer/File:Goya_Maja_naga2.jpg
https://en.wikipedia.org/wiki/La_maja_vestida#mediaviewer/File:Goya_Maja_ubrana2.jpg

Pintou-nus e depois a vês tida...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 10.07.2014 às 11:33

Goya produziu uma obra absolutamente fascinante que, nas suas diversas facetas, não deixa de nos interpelar e seduzir.
Sem imagem de perfil

De da Maia a 11.07.2014 às 01:45

Deixo só aqui o link para a colecção "Desastres de la Guerra":
https://en.wikipedia.org/wiki/Desastres_de_la_Guerra
... que é um autêntico trabalho de sábio, que mostra as nódoas humanas, e não dos sabões, que procuraram sempre lavá-las.

Como não gosto de ficar muito hermético, a minha referência a Maia, estava ligada a isto:

A antiga mãe, Maia
https://en.wikipedia.org/wiki/Hypogeum_of_%C4%A6al-Saflieni#mediaviewer/File:245.jpg

que passou a mulher, Vénus
https://en.wikipedia.org/wiki/Sleeping_Venus_(Giorgione)

surgindo só em Goya com o aspecto dúbio entre mulher e jovem filha.

E é nesse ponto que estamos na teologia... Maia é agora uma criança, por muito que persista em usar malhas de mulher.
Sem imagem de perfil

De Maria Dulce Fernandes a 10.07.2014 às 12:48

Conhecia o poema e o quadro, mas foi só hoje que lendo os posts do Pedro Correia e os excelentes comentários de da Maia, que os cosi, vi como se complementam e percebi o poder da sua mensagem.
Mais uma vez verifico que tantas são as vezes que olho e afinal não vejo nada...

"Da vida... não fales nela,
quando o ritmo pressentes.
Não fales nela que a mentes.

Se os teus olhos se demoram
em coisas que nada são,
se os pensamentos se enfloram
em torno delas e não
em torno de não saber
da vida... Não fales nela. [...]
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 10.07.2014 às 13:09

Goya foi um dos pintores que mais nos ensinaram a diferença entre olhar e ver, Dulce. Este quadro fascinou diversas gerações de pessoas em todo o mundo que, sabendo olhar, só com ele verdadeiramente aprenderam a ver.
Não admira que tenha inspirado este vibrante e comovedor poema do grande Jorge de Sena.
Sem imagem de perfil

De da Maia a 11.07.2014 às 01:20

Obrigado, cara Dulce, e partilho na raiz da "ignorância do nariz".
O nariz está sempre no nosso campo visual, mas escolhemos não o ver.
Perdemo-nos em imaginar estrelas longe e não vemos o que está à frente do nariz.

No meu caso, fiquei mais espantado com o português.
Por exemplo, "coser" era uma palavra una, hoje já não a vejo assim.
"Coser" é também "co-ser", acompanha o ser.
É essa arte de unir coisas, de as ligar, que nos define.
Cada um de nós cose (ou co-sê) de maneira diferente o mesmo saber, e é essa diferença que nos torna únicos, num saber só nosso.

E é engraçado, porque mesmo "cozer" se pode ligar a "coser", num outro sentido.
No sentido de que o saber e sabor eram identificados no latim como sapere.

Há sábios e há sabões... uns mostram as nódoas, os outros lavam-nas.
Sem imagem de perfil

De Maria Dulce Fernandes a 12.07.2014 às 23:16

Pode não ter sido uma boa escolha, pode, mas para mim fez sentido. Não sou grande linguista nem purista, como já deve ter verificado :)

Comentar post





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D