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Delito à Mesa (6)

por Francisca Prieto, em 08.12.16

Vai para uns quantos anos que, quando chega Agosto, enfio os malotes no carro e trato do exílio familiar para a Costa Vicentina.

Gastronomicamente falando, o mês é intercalado por cachorros quentes na praia e, à noite, peixe escalado, do fresquíssimo, ali pescado por gente local. Acrescenta-se com frequência pratadas de percebes (ou perceves, consoante a corrente) e um ou outro churrasco caseiro, quando aparece um habilidoso capaz de dominar a labareda.

Há porém o dia da rebeldia. Várias famílias de amigos deixam os filhos ao abandono e marca-se uma mesa de estadão na Eira do Mel, o respeitado estabelecimento de restauração, sito em Vila do Bispo.

Assim que chegamos, começa o choradinho do “Leite Queimado”, uma rara iguaria, servida à sobremesa, que só há de vez em quando e que, quando há, acaba logo na primeira ronda de clientela. O objectivo primordial é assegurar, à partida, umas quantas doses que permitam acabar o jantar em beleza.

A Eira do Mel proclama-se como um restaurante de Slow Food e faz jus ao que promete, o que quer dizer que leva uma eternidade a servir uma mesa do tamanho da nossa. De maneira que, invariavelmente, vão chegando várias garrafas de vinho até que se consiga ferrar o dente nas entradas. Na altura de apreciarmos os magníficos ovos mexidos com morcela ou o camarão mergulhado em molho fenomenal, já soaram as primeiras gargalhadas guturais que ditam o tom para o resto da refeição.

Das entradas ao prato principal decorre mais um período de tempo considerável. Tanto, que dava para assistir a uma prova do Grande Prémio, com a parte da subida ao podium e tudo. Mas nós não reclamamos porque, para além de continuarmos entretidos nas degustações vinícolas, sabemos o que lá vem: uma cataplana de polvo com batata doce de fazer chorar qualquer coração mais empedernido.

Só por causa desta cataplana, a Michelin devia deixar-se de mariquices e atribuir cinco estrelas ao Chef José Pinheiro.

E é assim que, já com um par de grãos na asa, os convivas contam e recontam vezes a fio as mesmas histórias dos velhos tempos de Sagres, enquanto perdoam a longa espera e molham pão saloio no molho da panela.

No final, se há Leite Queimado assegurado, manda-se servir para acompanhar uns copitos de medronho, daqueles que não se devem beber sozinhos.

No dia a seguir há lamentos na praia, mas todos concordamos que o ritual se há-de voltar a cumprir. Afinal, temos doze meses para recuperar da epopeia.

 

Eira do mel.jpg

 

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7 comentários

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De Teresa Ribeiro a 08.12.2016 às 13:03

Cataplana de polvo e batata doce?! Hum... Vila do Bispo aí vou eu um dia destes :)
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De Francisca Prieto a 09.12.2016 às 00:25

Tu avisa-me quando fores, que é obrigatória uma passagem pela nossa aldeia, ali pertinho.
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De Teresa Ribeiro a 09.12.2016 às 14:13

Combinado :)
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De amendes a 08.12.2016 às 14:31

Os " Delituosos" comem do bom e do melhor... Tascas nem vê-las!

Nada de Michelin recauchutado!

Bom proveito e cartão dourado!

.....

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De Francisca Prieto a 09.12.2016 às 00:27

Ó homem, isto é mesmo um comentário enxofrado. A Eira do Mel, não sendo uma tasca, está longe de ser um restaurante de luxo. Era só o que faltava ter de me desculpar por ir ferrar o dente a uma cataplana de polvo com batata doce uma vez por ano.
É o que se leva desta vida, meu caro amigo.
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De Rui Rocha a 08.12.2016 às 15:10

Cataplana de polvo com batata doce? Cum caneco!
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De Francisca Prieto a 09.12.2016 às 00:24

É que tu nem imaginas o que isto é, homem. De fazer explodir as papilas gustativas.

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