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Da banalização da crise

por Teresa Ribeiro, em 20.06.14

Fala-se muito da banalização da violência a propósito do que vemos na TV, no cinema e na Internet, sem nos apercebermos de que as imagens que invocamos para teorizar de tempos a tempos sobre o assunto são também elas clichés. Aos palcos de guerra e histórias de banditismo que nos mostram nos telejornais e às cenas de crueldade dos filmes e desenhos animados esquecemo-nos de acrescentar as notícias sobre a miséria humana que nos chegam todos os dias a propósito dos efeitos da crise económica. Ao desemprego, à fome, à violência doméstica em crescendo, ao abandono dos velhos e às estatísticas que nos revelam assimetrias económicas e sociais que nos revoltam, chamamos coisas diferentes, mas não as agregamos sob a designação genérica de violência. E no entanto é o que isto é. Se não a pensamos nestes termos é talvez porque sendo tão próxima se torna insuportável para quem a vive classificá-la assim.

Enquanto janto, à hora dos telejornais, as imagens da Síria e do Iraque por vezes chegam-me difusas. É a banalização e a distância a produzir os seus efeitos. Os mesmos que se produzem nos decisores políticos e nos que por diversos motivos conseguiram passar pelos intervalos da chuva desta crise. Enquanto comem o bife já não vêem realmente o que corre no ecrã acerca das vidas que condicionam, regulam ou simplesmente lhes passam ao lado. Até porque à frente de um ecrã todos somos passivos.

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4 comentários

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De Luís Lavoura a 20.06.2014 às 13:24

violência doméstica em crescendo

Nada permite afirmar que está em crescendo.

Tratando-se de algo que outrora não era visto como crime, não era reportado à polícia. Portanto, os casos reportados à polícia cresceram, certamente. O que não quer dizer que o fenómeno subjacente também tenha crescido.
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De Teresa Ribeiro a 21.06.2014 às 00:19

Ok, colocando a questão de outra forma: desde que começaram a ser reportados à polícia tem-se registado um aumento de casos. E estamos aqui obviamente a excluir os que acabam na morte das vítimas, que esses sempre foram participados. Como deve saber também estes têm aumentado.
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De Pedro Correia a 21.06.2014 às 19:42

Acompanho a tua reflexão, Teresa. Vivemos sufocados com excesso de pseudo-informação, que banaliza tudo quanto é importante no meio de imensas irrelevâncias. Um dos problemas do nosso tempo é a falta de hierarquia nas notícias. Tudo vale, desde que seja para preencher tempo de antena ou possibilitar reacções em cadeia nas redes sociais - todas com prazo de validade cada vez mais curto.
A morte de dez mil pessoas numa guerra ou num atentado terrorista surge nos alinhamentos dos telediários imediatamente antes ou imediatamente após uma peripécia da treta protagonizada por um jogador de futebol de média categoria ou uma efémera vedeta de telenovela ou um cantor pimba.
Há quem elogie isto em nome da "democratização" da informação. Mas informação não é isto. E não existe democracia sem informação.
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De Teresa Ribeiro a 22.06.2014 às 12:19

Sim, Pedro, talvez os alinhamentos absurdos dos noticiários nos ajudem também a classificar e a validar o que acontece à nossa volta de forma imprecisa, quando não contraditória. Não há tempo para processar tanta e tão variada informação e às tantas ficamos pelos clichés, sempre tão redutores.

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